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SÉRIE ESPECIAL: Os efeitos do coronavírus nos territórios de atuação do IVH – Parte 1

SÉRIE ESPECIAL: Os efeitos do coronavírus nos territórios de atuação do IVH – Parte 1

Desde o primeiro caso do Covid-19 no Brasil, no final de fevereiro, vimos escancarar dia a dia as enormes desigualdades sociais que marcam nossa sociedade. Os impactos do coronavírus são muito mais cruéis e avassaladores nas camadas mais empobrecidas e com maiores violações de Direitos Humanos.

Se, por um lado nestes territórios, há carência de serviços públicos básicos como saneamento e água encanada que impossibilitam medidas simples recomendadas pelas autoridades de Saúde como lavar as mãos frequentemente, por outro lado, os moradores das favelas e periferias possuem muita resiliência, criatividade e potência para resistir, reivindicar e buscar soluções viáveis para o enfrentamento do coronavírus.

Para ter uma ideia sobre como a pandemia está afetando o trabalho de nossos parceiros nos territórios, e o campo dos Direitos Humanos de uma maneira mais ampla, estamos conversando com alguns deles, por telefone, para esta série especial de reportagem.

O papel fundamental da escola no apoio às famílias
“Minha maior preocupação é com a saúde das pessoas, o que vai acontecer com a nossa comunidade, com as avós que a gente encontra todo dia, que vão levar as crianças [para a escola]”. A fala é da coordenadora pedagógica Sylvie Klein, do Centro Educacional Infantil Jardim Umarizal, na zona sul da capital paulista, que faz parte da rede municipal de educação, parceira do Projeto Respeitar é Preciso! do Instituto Vladimir Herzog.

Em meio ao receio sobre a saúde de estudantes e seus familiares durante a pandemia do coronavírus, a coordenadora também se preocupa com o impacto que o fechamento temporário da unidade escolar tem diretamente na comunidade.

No dia 23 de março, a Instrução Normativa nº 13 da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo determinou a suspensão das atividades da rede até 9 de abril, como antecipação do recesso escolar de julho. O CEI Jardim Umarizal atende 132 bebês e crianças (de 5 meses até 4 anos), e a população da região depende desse apoio para trabalhar.

Sylvie ressalta a conscientização por parte das famílias da importância do isolamento e o empenho em respeitar a quarentena, mesmo com a preocupação da suspensão do atendimento “porque de fato muitas delas precisam [do apoio da escola] por causa da questão do trabalho”, explica.

A situação fica ainda mais delicada quando, para suprir a ausência da escola, pais e mães acabam contando com o apoio familiar: “Quem trabalha tem como rede de apoio os idosos, avós e até bisavós”, diz a coordenadora, sabendo que essa realidade confronta as recomendações da Organização Mundial da Saúde sobre o resguardo do grupo de risco (idosos com mais de 60 anos).

O fechamento da unidade escolar não significa descanso nem possibilidade de isolamento social na opinião de Sylvie, que assumiu a linha de frente da comunicação do CEI com as famílias e com os profissionais da escola. “Tem sido muito mais trabalho que no cotidiano porque o trabalho à distância exige uma disciplina com essas ferramentas, como whatsapp e email”, explica, sobre o tempo que faz teletrabalho (também chamado de home office ou trabalho à distância).

Após o início da quarentena, quando a suspensão das aulas já estava em vigor, a equipe de Sylvie criou uma página no Facebook do CEI Jardim Umarizal, na qual ela publica conteúdos informativos para as famílias. “Vejo notícias, converso com a diretora [que está em isolamento por ter mais de 60 anos], com a equipe gestora, com a equipe de apoio, com os professores. A gente está o tempo todo ligada e trabalhando”, diz.

Além do home office, Sylvie também dá expediente presencial no CEI, em cumprimento à Instrução Normativa. A medida estabelece que as escolas deverão contar, no mínimo, com a permanência de dois servidores no prédio, diariamente, das 10h às 16h, sem que haja atendimento presencial ao público.

Nesse tempo, a coordenadora aproveita para fazer as tarefas da Diretoria Regional de Ensino, pesquisar conteúdos que possam ajudar a comunidade a enfrentar o período de isolamento e responder as dúvidas de familiares pela internet. “Eles perguntam sobre o recesso, relatam saudades, perguntam sobre o cartão-alimentação, diz.

Cartão-alimentação
A falta da refeição oferecida na escola é uma das questões que mais afligem as famílias. Para compensar a falta de merenda em função do fechamento das escolas municipais, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME) anunciou na quinta-feira (2), a distribuição do “cartão-alimentação”.

O benefício será concedido aos cadastrados no Bolsa Família e famílias dos 273 mil estudantes da na rede municipal em situação de vulnerabilidade social, que receberão o cartão em casa. Segundo a SME, outros 80 mil estudantes que atendem aos critérios do Bolsa-Família, mas ainda não o recebem, também serão beneficiados (para informações sobre o cartão, ligue 156).

Além do cartão-alimentação, as famílias receberão orientação nutricional com indicação de alimentos saudáveis e os que devem ser evitados como bolachas e embutidos. Alguns itens são proibidos de serem adquiridos com o cartão, como bebidas alcoólicas e cigarros.

Por que fechar escolas?
A medida está de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde, no intuito de conter a circulação de pessoas e diminuir os riscos de contaminação do coronavírus. Além disso, mesmo com mais imunidade, crianças e adolescentes podem se contaminar e, embora não apresentem os sintomas, sua livre circulação aumenta a chance de propagação do vírus dentro da escola, em casa e na vizinhança, contaminando, assim, os mais velhos que fazem parte do grupo com maior risco.

Segundo o secretário municipal de educação, Bruno Caetano, a medida de suspender as aulas será reavaliada constantemente, “e novas providências poderão ser tomadas seguindo as orientações das autoridades de Saúde”. A decisão na rede municipal de São Paulo não é uma atitude isolada. O Governo do Estado também aderiu ao fechamento das unidades escolares, assim como outros estados no Brasil e outros países.

Um levantamento da Unesco mostra que, até 25 de março, mais de 1,5 bilhões de estudantes foram afetados com o fechamento das escolas em todo o mundo – o que representa um total de 87.1% de alunos matriculados. Segundo a agência, 165 países fecharam escolas para conter a propagação do coronavírus.

Este texto faz parte da série especial “Os efeitos do coronavírus nos territórios de atuação do IVH”. Acompanhe seus desdobramentos aqui, no site do Instituto Vladimir Herzog, e também nos sites dos projetos Respeitar é Preciso! e Usina de Valores.

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