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Presos denunciam à Justiça tortura em quartel no Rio de Janeiro

Presos denunciam à Justiça tortura em quartel no Rio de Janeiro

Reportagem do Jornal Extra denuncia casos de tortura a presos dentro do quartel do Exército na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Por Rafael Soares, do Extra

Mais três presos relataram à Justiça terem sido torturados por militares dentro de um quartel do Exército na Zona Oeste do Rio, em agosto do ano passado. A revelação foi feita ontem, em audiência na Central de Assessoramento Criminal (CAC) do Tribunal de Justiça. Até agora, um total de sete homens detidos numa operação das Forças Armadas no Complexo da Penha denunciaram agressões dentro de uma “sala vermelha” na 1ª Divisão de Exército, na Vila Militar.

Jefferson Luiz Rangel Marconi, de 26 anos; Marcos Vinícius do Nascimento, de 21, e Ricardo da Conceição Glória, de 33, já haviam afirmado, durante audiência de custódia dias após a prisão, que foram agredidos pelos militares. No entanto, não haviam mencionado a tortura dentro do quartel. Ontem, contaram à juíza Simone Ferraz detalhes das agressões que sofreram.

— Eles me colocaram numa cadeira, virado para a parede, e começaram a fazer perguntas. Achavam que, só porque moro lá, sou obrigado a saber de tudo. Como não sabia, me batiam com uma ripa nas costas e na cabeça. Me fizeram comer papel. Perguntaram que gosto tem. Eu disse ‘‘nenhum’’. Depois botaram spray de pimenta no papel e mandavam eu comer. Depois falavam: “Agora tem gosto, né! Responde o que a gente quer” — disse Jefferson, durante a audiência.

Marcos Vinícius e Ricardo também afirmaram terem sido agredidos com socos e golpes de barras de madeira em interrogatório na sala vermelha. Todos também dizem ter sido atingido por tiros de bala de borracha à queima-roupa ainda na favela. Em fotos feitas na audiência de custódia, é possível ver marcas vermelhas redondas em diversas partes dos corpos dos três réus. As lesões foram atestadas pelos exames de integridade física feitos por uma médica na ocasião. Os três não se conheciam e afirmam terem sido abordados em pontos diferentes da favela no dia da operação. Dois dos réus — Ricardo e Marcos — sequer moram na favela. Ricardo é lutador de MMA, vive em Marechal Hermes e estava no local para ir a um baile funk. Marcos é mototaxista, mora em Duque de Caxias e foi levar um passageiro na Penha no dia da ação.

Eles foram presos em flagrante acusados de portarem 3kg de maconha e 2kg de cocaína, além de carregadores e munição para fuzis e pistolas. Os rapazes negaram que estivessem com esse material.

Coronel não nega agressões
Ao longo da tarde de ontem, foram ouvidos réus e testemunhas de dois processos diferentes em que os sete presos que denunciaram tortura na sala vermelha respondem por tráfico. Responsável pela operação no Complexo da Penha naquele dia, o coronel Deocleciano José de Santana Netto não negou à Justiça a possibilidade de ter havido tortura dentro do quartel.

— Ouvi, na imprensa, relatos sobre sala vermelha. Não posso dizer que não aconteceu. Mas não conheço essa sala vermelha. Tortura não é uma prática que a gente oriente que o subordinado faça. Não temos por conduta institucional dizer para subordinado torturar — afirmou o oficial.

Também prestou depoimento uma adolescente de 14 anos que testemunhou agressões de militares a dois dos presos ainda no complexo de favelas. No último domingo, o jornal Extra revelou que a menina foi encontrada pela mãe de um dos réus, Jefferson Marconi. Ela é a primeira testemunha ocular que afirma à Justiça ter presenciado a tortura.

— Os soldados mandaram eles ajoelharem e rezarem em direção à Igreja da Penha. Diziam que eles iam morrer — disse a adolescente.

Exército e MPF abriram investigações
Em novembro do ano passado, o jornal Extra revelou, com exclusividade, que presos haviam denunciado a três juízes diferentes uma sessão de tortura dentro da 1ª Divisão de Exército. Na ocasião, após os relatos, os magistrados determinaram que o caso fosse investigado. No entanto, até a publicação da reportagem, não havia nenhuma investigação aberta.

Após as denúncias virem à tona, o Comando Militar do Leste (CML) abriu um Inquérito Policial Militar. O Ministério Público Federal também instaurou um inquérito civil para investigar o caso. Se as torturas forem comprovadas, os militares podem perder seus cargos.