O Instituto Vladimir Herzog (IVH) deve seu nome e sua existência ao trabalho de jornalistas que se empenharam para conquistar liberdade e democracia em nosso país. A defesa dos Direitos Humanos, na perspectiva do IVH, decorre dos ideais do jornalismo: a missão de informar a sociedade e de criticar o poder em público supõe o repúdio incondicional a toda forma de censura, de arbítrio e de violação da dignidade humana.
A lembrança desses princípios adquire ainda mais relevo quando notamos que, na campanha eleitoral deste ano, em que a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e os Direitos Humanos estão sob ameaça, a sociedade não tem sido devidamente informada sobre os riscos que enfrenta. Terá o jornalismo faltado ao seu encontro com a História?
O IVH, uma organização apartidária, tem se preocupado com a forma como algumas das melhores redações brasileiras vêm naturalizando a candidatura de Flávio Bolsonaro, que nada tem de natural, ameno ou trivial. Ao contrário, essa campanha só faz alardear seu propósito de desmoralizar e desmantelar o processo penal que condenou os autores da tentativa de golpe de Estado desfechada em 8 de janeiro de 2023. Aquele atentado foi um crime da maior gravidade, que incluiu até um plano para assassinar o presidente da República, seu vice e o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Dizer que tais acontecimentos são irrelevantes é o mesmo que dizer que a democracia não deve respeito a si mesma.
Os perigos que espreitam a sociedade brasileira são evidentes. Caso se confirme, em segundo turno, a vitória da extrema-direita, a primeira consequência será o início da corrosão das garantias constitucionais, do império da lei e de políticas públicas essenciais, como as dedicadas à proteção do meio ambiente, da saúde, da ciência e da educação. Paralelamente, crescerá a chance de que desmandos venham a favorecer múltiplas facções criminosas, fragilizando os mecanismos de transparência e de combate à corrupção.
Vejamos um pouco mais de perto os mecanismos pelos quais vem se dando a naturalização dessa anomalia. Para começar, observemos como boa parte da imprensa vem lançando mão do substantivo “direita” para nomear o que, na verdade, é extrema-direita.
Segundo as definições convencionais, “direita” e “esquerda” são agrupamentos partidários que, embora sustentem projetos distintos, convivem pacificamente dentro do campo democrático. No entanto, a candidatura extremista já deu todas as provas de que não se apraz em conviver com a diferença. Mais ainda, deu provas de que abomina os ritos da urbanidade democrática. Essa candidatura sequer pode ser qualificada como “conservadora”, posto que renega o espírito conservador, professa a ruptura institucional e desfralda bandeiras que ofendem a tradição do liberalismo.
Isso nos leva a um segundo indício da naturalização dessa anormalidade política: as simetrias retóricas que surgem nas páginas dos diários ou nos telejornais e levam leitores e espectadores a crer que as duas chapas seriam equivalentes. Por vezes, o discurso jornalístico parece equipará-las num espelhamento automático, como se ambas fossem análogas.
Ocorre que as coisas não são assim. As duas candidaturas são radicalmente diversas quanto aos métodos com que buscam alcançar seus objetivos. Enquanto uma delas traz, de longa data, o compromisso com as regras da ordem democrática, a outra tem uma trajetória de sucessivas afrontas contra o Estado Democrático de Direito. A dessemelhança, que é estrutural e chocante, não transparece na cobertura diária.
Se recorrermos à memória, veremos que o mesmo desajuste de enfoque jornalístico apareceu nas eleições de 2018 e de 2022. Quanto à primeira, de 2018, é preciso considerar que o país ainda não tinha passado por um governo conduzido pelo bolsonarismo. Portanto, não havia elementos que nos permitissem antecipar o que estava por vir. Havia, sim, nas falas do então candidato Jair Bolsonaro, indícios enfáticos de que uma onda de autoritarismo estava em gestação, mas não tínhamos, ainda, a experiência prática.
Hoje, a situação é outra. Não apenas o Brasil já viveu o trauma de ter o extremismo chefiando o Poder Executivo, como as declarações dos representantes desse grupo recrudesceram e não cessam de anunciar que medidas desumanas serão tomadas, sobretudo contra os mais pobres.
Por fim, é preciso levar em conta que o cenário internacional dos nossos dias, comparado ao de 2018, é muito mais favorável a governos truculentos. Não por acaso, o extremismo que se organizou no Brasil mantém uma relação de subalternidade com a extrema-direita dos Estados Unidos. Em numerosos episódios, ficou patente sua subserviência aos interesses da Casa Branca. Não podemos ter dúvidas: a soberania do Brasil também está em perigo. Na Europa, no Oriente Médio e na América do Sul, o mesmo grupo cultiva ligações com autocracias que banalizaram as investidas contra a imprensa, a Justiça, a ciência e os Direitos Humanos.
Para concluir, sejamos precisos. Entre a ordem democrática e o jugo da tirania, o jornalismo não é equidistante, mas tem um lado. No momento presente, a objetividade exige que a imprensa aponte as diferenças factuais entre quem tem compromisso com a democracia e quem não tem. O futuro do Brasil, bem como o futuro da própria imprensa, depende disso. A cidadania brasileira tem o direito de conhecer e de compreender os fatos que demonstram como e por que os Direitos Humanos e as liberdades democráticas estão sob ameaça.
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