DOE AGORA

Fernando Pacheco Jordão. Presente!

Nota do Instituto Vladimir Herzog

Não cabe usar verbos no passado para o Fernando, a quem temos de dizer um adeus pleno de comovida tristeza. Sua inteligência, lealdade, generosidade, resiliência e permanente bom-humor inspiram que ele esteja sempre presente.

Não queremos, não admitimos que ele se vá.

Até porque ele também continua e continuará ao nosso lado no Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, que em poucos anos já foi disputado por quase dois mil estudantes e seus 650 professores-orientadores de cerca de 200 escolas de jornalismo de praticamente todos os estados do Brasil. São jovens jornalistas como aqueles por cujo desenvolvimento profissional Fernando se empenhou com carinho desde sempre.

Neste momento que a todos nós imensamente confrange, quando transmitimos nossa consternação e solidariedade a sua esposa, a querida amiga Fátima, filhos e netos, a melhor homenagem ao Fernando que podemos fazer – e a que ele mais apreciaria – é destacar os pontos de maior relevo da sua brilhante trajetória profissional. Sem muitos adjetivos, que ele detesta.

Fernando Pacheco Jordão começou no jornalismo em 1957, como redator e locutor de rádio-jornal, na antiga Organização Victor Costa, que abrangia as rádios Nacional, Excelsior e Cultura. Passou depois para a rádio Difusora, que fazia um excelente jornalismo na redação da Rua Sete de Abril, em São Paulo, sob a liderança de Armando Figueiredo.

Na Difusora Fernando foi secretário dos rádio-jornais e também locutor de voz potente e clara dicção. Durante dois anos acumulou esse trabalho com o de copydesk no Estadão, seu único emprego em jornal, onde alguns focas tinham a sorte e o prazer de trabalhar ao lado dele, aprender com seu talento jornalístico, gozar de sua espirituosa veia de humor e ironia – e também se embevecer com sua técnica de preparação de cigarros de palha, os “paiêros”.

Mais tarde atuou na TV Excelsior, como editor e apresentador do “Show de Notícias”, telejornal diário que inovou no jornalismo de televisão. Em 1964, após o golpe no Brasil, foi contratado pelo Serviço Brasileiro da BBC, o qual aliás, logo em seguida, absorveu também Vladimir Herzog, o que proporcionou a ambos, ex-colegas de Estadão, a oportunidade de voltar a trabalhar juntos e, com suas jovens famílias, abrigar-se um pouco da ditadura no Brasil e conhecer a Europa.

Antes de voltar para cá, em 1968, Fernando fez em Londres um curso de produção de televisão e, ao regressar, foi convidado a atuar na TV Cultura, onde produziu programas didáticos, documentários e até dirigiu um teleteatro premiado em festival interno.

Fernando Pacheco Jordão criou a seguir o jornalismo na TV Cultura, com o programa diário “Hora da Notícia”, numa época de censura brava, até ser demitido em 1974, visto como subversivo. Nesse mesmo ano, ele foi para a TV Globo, onde editou o “Jornal Nacional” em S. Paulo e a seguir tornou-se diretor do “Globo Repórter”.

Dirigente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato de Vladimir Herzog, Fernando escreveu o livro “Dossiê Herzog – Prisão, Tortura e Morte no Brasil”, que já está na sexta edição e constitui documento fundamental para a História do Brasil.

Ficou na TV Globo até 1979, quando foi demitido após uma greve dos jornalistas. Depois disso ainda foi correspondente da “IstoÉ” em Londres e da Editora Abril em Paris, quando se despediu das redações e atuou como assessor de imprensa em duas campanhas de Mário Covas ao governo do Estado, bem como de Geraldo Alckmin.

Essa é a notável e talentosa trajetória de realizações do nosso amigo irmão Fernando Pacheco Jordão, merecedor, como pessoa e como profissional, de todas as nossas homenagens, que passam agora, com nossas lágrimas, para a história da cidadania e do jornalismo brasileiros, pelas vozes e corações do Instituto Vladimir Herzog, de todos os seus conselheiros, dirigentes e colaboradores.


Um exemplo chamado Fernando Pacheco Jordão

Por Juca Kfouri


Descansou hoje, aos 80 anos, o jornalista Fernando Pacheco Jordão.

Passou mais de uma década resistindo bravamente a uma série de males que abalaram sua saúde, mas jamais sua lucidez.

Lucidez que fez dele um dos mais corajosos homens de imprensa que o Brasil conheceu.

Amigo fraterno de Vladimir Herzog desde quando trabalharam no “Estadão”, e a quem reencontrou ao ir para a BBC, em Londres, Jordão teve papel essencial nos atos seguintes ao assassinato de Vlado nas dependências do Doi-Codi, em São Paulo, em 1975.

Era então diretor do Sindicato dos Jornalistas e foi o braço direito do presidente Audálio Dantas na resistência que culminou com o ato ecumênico na Catedral da Sé e no documento “Em nome da verdade”, assinado por 1004 jornalistas, que exigiu explicações das autoridades da ditadura (Leia aqui).

Jordão, ao lado dos advogados Marco Antônio Barbosa e Samuel Mac Dowell, foi um dos redatores do documento que, com argúcia jornalística e perguntas demolidoras, desmontou a farsa dos assassinos.

Escreveu também o livro “Dossiê Herzog – prisão, tortura e morte no Brasil”, o mais completo documento sobre a morte de Vlado, base para todos os demais, escrito com maestria e coragem invejáveis.

Jordão era tão democrático que, são-paulino da gema, viu o filho, o jornalista Rogério Jordão, crescer corintiano dos bons, desde criança meu companheiro nos jogos do Timão levado, primeiramente por ele, depois por mim.

Além, de Rogério, ele deixa órfãos, as filhas Bia e Júlia, sete netos, e sua companheira da vida inteira, a socióloga Fátima Jordão.

Meus filhos jamais se esquecerão das torradas francesas que ele preparava com rara habilidade numa chuvosa semana de férias em Ubatuba.

E eu nunca deixarei de lembrar o exemplo legado por ele porque, como se diz, e é assim mesmo, a morte não é o contrário da vida, mas do nascimento. Vidas como a de Fernando Pacheco Jordão, são, de fato, eternas.

Fernando Pacheco Jordão começou no jornalismo em 1957, como redator e locutor de rádio-jornal, na antiga Organização Victor Costa em São Paulo, que abrangia as rádios Nacional, Excelsior e Cultura. Passou depois para a Rádio Difusora, dos Diários Associados, onde foi secretario dos rádio-jornais e também locutor.

Durante dois anos acumulou esse trabalho em rádio com o de copydesk no jornal “O Estado de S. Paulo’.

Mais tarde atuou na TV Excelsior, como editor e apresentador do “Show de Notícias”, um telejornal diário que inovou o jornalismo televisivo e, em 1964, foi contratado pelo Serviço Brasileiro da BBC em Londres, onde se reencontrou profissionalmente com Vladimir Herzog, com quem havia trabalhado em “O Estado de São Paulo”.

Em seu regresso ao Brasil, em 1968, foi convidado a atuar na TV Cultura, onde criou o jornalismo com o programa “Foco na Noticia”, que posteriormente passou a se chamar “Hora da Noticia”.

Também produziu programas didáticos, documentários e até dirigiu um teleteatro que foi premiado num festival interno.

Em 1974 foi para a TV Globo, onde editou o “Jornal Nacional” em São Paulo e a seguir tornou-se diretor do “Globo Repórter”.

É patrono do “Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão’, realizado pelo Instituto Vladimir Herzog desde 2009.


Fernando Pacheco Jordão

Por Luiz Weis

Há muito tempo atrás, o seu apelido era Pachequinho.

Gostava de bala de goma, cigarro de palha e dos tangos de Goyeneche e Anibal Troilo.

Virou um grande jornalista.

Sempre esteve do lado certo.

Dele se podia dizer, sem erro:

‘Qué blando con las espigas! Qué duro con las espuelas!’

A doença o maltratou muito, de muitos modos.

E nesta madrugada o levou embora.

Foi meu grande e mais velho amigo.


Um imenso jornalista

Por Marco Antonio Rocha

Eu e o Joelmir Betting tivemos durante bom tempo uma divergência sobre qual dos dois tinha sido o primeiro comentarista de economia nas TVs brasileiras. Betting na Bandeirantes começara antes de mim na Globo. Só que ele se esquecia que, muito antes, eu trouxera a Economia para o programa Hora da Notícia, na TV Cultura, dirigido por Fernando Jordão e chefiado por Vlado Herzog. Dois amigos, dois profissionais, dois imensos jornalistas. Do Vlado despedi-me em 25 de outubro de 1975, em meio à tragédia do seu assassinato no DOI-CODI. Do Fernando despeço-me agora com profunda tristeza por sua falta e pelo sofrimento que teve de passar nos últimos anos. Duas pessoas queridas cuja ausência torna o mundo menor e mais áspero. Adeus, meus caros.

Marco Antonio Rocha
Jornalista


Mais um amigo que se vai. Fernando Pacheco Jordão (1937-2017).

Por Fernando Morais

Faleceu nesta quinta-feira (14), em São Paulo, Fernando Pacheco Jordão, 80 anos, um dos jornalistas mais atuantes na luta contra violações de direitos humanos na ditadura civil-militar (1964-1988) no Brasil.

Era amigo próximo de Vladimir Herzog, um dos jornalistas que foi torturado e assassinado pela repressão no Doi-Codi, em São Paulo, em 1975. Os dois se conheceram na BBC, em Londres, e chegaram a dividir um apartamento naquela época.

“Para mim até hoje é muito difícil, as memórias são muito vivas”, declarou Jordão, em uma entrevista em 2012, ao falar sobre o assassinato do amigo. “Trabalhar com Vlado era estimulante. Ele era uma excelente cabeça, um jornalista de primeira linha, éramos muito próximos desde muito tempo”.

Na ocasião, era diretor do Sindicato dos Jornalistas. Junto do então presidente, o jornalista Audálio Dantas, organizou o ato na Catedral da Sé para cobrar da ditadura uma explicação pela morte de Herzog.

Foi um dos elaboradores do dossiê “Em nome da verdade” e do livro “Dossiê Herzog – prisão, tortura e morte no Brasil”, dois dos principais documentos sobre violações cometidas pelo regime militar contra jornalistas entre 64 e 88.

“Perdi um pai. Perdemos uma pessoa que era puro amor com os outros. Caberiam mil palavras aqui para ele. Não tá dando…”, lamentou Ivo Herzog, filho de Vladimir.

“Não cabe usar verbos no passado para o Fernando, a quem temos de dizer um adeus pleno de comovida tristeza. Sua inteligência, lealdade, generosidade, resiliência e permanente bom humor inspiram que ele esteja sempre presente. Não queremos, não admitimos que ele se vá”, lamentaram os conselheiros, dirigentes e colaboradores do Instituto Vladimir Herzog por meio de nota.

Era casado com a socióloga Fátima Pacheco Jordão, pai de Rogério, Bia e Júlia e avô de sete netos.

O velório de Jordão está sendo realizado na sede da TV Cultura, na Barra Funda.

Leia abaixo a íntegra da nota do Instituto Vladimir Herzog sobre a trajetória de Fernando na imprensa.

“Fernando Pacheco Jordão começou no jornalismo em 1957, como redator e locutor de rádio-jornal, na antiga Organização Victor Costa em São Paulo, que abrangia as rádios Nacional, Excelsior e Cultura. Passou depois para a Radio Difusora, dos Diários Associados, onde foi secretario dos rádio-jornais e também locutor. Durante dois anos acumulou esse trabalho em rádio com o de copydesk no jornal O Estado de S. Paulo. Mais tarde atuou na TV Excelsior, como editor e apresentador do “Show de Notícias”, um telejornal diário que inovou o jornalismo televisivo e, em 1964, foi contratado pelo Serviço Brasileiro da BBC em Londres, onde se reencontrou profissionalmente com Vladimir Herzog, com quem havia trabalhado em O Estado de São Paulo.

Em seu regresso ao Brasil, em 1968, foi convidado a atuar na TV Cultura, onde criou o jornalismo com o programa “Foco na Noticia”, que posteriormente passou a se chamar “Hora da Noticia”. Também produziu programas didáticos, documentários e até dirigiu um teleteatro que foi premiado num festival interno. Em 1974 foi para a TV Globo, onde editou o Jornal Nacional em São Paulo e a seguir tornou-se diretor do Globo Repórter.

Diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato de Vladimir Herzog, escreveu o livro “Dossiê Herzog – prisão, tortura e morte no Brasil”, hoje sua sexta edição, que constitui documento fundamental para a história de nosso país.

Fernando Pacheco Jordão trabalhou na TV Globo até 1979. Depois disso ainda foi correspondente da revista IstoÉ em Londres e da Editora Abril em Paris, quando se despediu das redações, atuando a seguir como assessor de imprensa em campanhas eleitorais”.