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SÉRIE ESPECIAL: Os efeitos do coronavírus nos territórios de atuação do IVH – Parte 2

SÉRIE ESPECIAL: Os efeitos do coronavírus nos territórios de atuação do IVH – Parte 2

Manter viva a Memória, mesmo em tempos de reclusão 

O Instituto Vladimir Herzog, como uma organização da social civil, entende que um de seus papeis primordiais é estimular a mobilização e nutrir o engajamento político dos cidadãos pela defesa da democracia, dos direitos humanos e da liberdade de expressão. A pandemia do Covid-19 fez com que o IVH pensasse em novas formas de manter esse espírito mesmo com o isolamento social imposto pelas autoridades de Saúde. 

Na impossibilidade de sairmos às ruas em manifestações ou nos reunirmos em um local para debater ideias, estamos organizando atos políticos e conferências online.

No último 31 de março, o golpe civil-militar que instaurou a ditadura no Brasil em 1964 completou 56 anos. Na contramão das tentativas de apagamento das violências cometidas pelo Estado brasileiro no período, organizações da sociedade civil organizavam em São Paulo um final de semana (entre os dias 28 e 29 de março) para preservar a Memória, celebrar a Verdade e defender a Justiça. Aconteceriam duas importantes atividades: o tradicional Ato Unificado “Ditadura nunca mais”, no antigo prédio que abrigou o DOI-Codi de São Paulo, e a segunda “Caminhada do Silêncio pelas vítimas de violência do Estado”, novamente no Parque do Ibirapuera, onde se reuniram mais de dez mil pessoas no ano passado. 

Com o avanço da pandemia do Covid-19 (coronavírus) e diante das recomendações de isolamento social sugeridas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o movimento intitulado Vozes do Silêncio, do qual o IVH faz parte, optou por suspender os eventos programados e articular como alternativa um ato simbólico: a Vigília pela Democracia e pelas Vítimas da Violência de Estado, 24 horas de atividades virtuais com início as 18h do dia 31 de março seguindo até às 18h de 1º de abril. Durante este período, as redes sociais do Vozes do Silêncio apresentaram uma série de conteúdos relacionados à temática produzidos pelas entidades e parceiros, como entrevistas, shows “ao vivo” online e exibição de filmes. 

 

 

“É imprescindível lembrarmos que dia 31 de março de 1964 aconteceu um golpe militar que instaurou a barbárie neste país. Agentes do Estado se sentiram autorizados a matar, estuprar e rir na cara de quem, na tortura, estava em total posição de indignidade. É isso que acontece quando se rompe com a legalidade. Por isso, precisamos todos dizer “ditadura nunca mais”, para que não se esqueça, para que não se repita”, explica Eugênia Gonzaga, procuradora Regional da República e ex-presidenta da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. 

A procuradora foi a moderadora, ao lado do jornalista Luis Nassif, do web-seminário que iniciou a Vigília no dia 31. Entre terça e quarta, foram exibidos ainda os filmes “O dia que durou 21 anos” de Camilo Tavares, “Diário de uma busca” de Flávia Castro, “Torre das Donzelas” Susanna Lira e “Trago comigo” de Tata Amaral. Registrou-se também um tuitaço ao longo do dia 31 com a #ditaduranuncamais, que foi trendtopics (expressão em inglês significando as mais usadas no twitter). As transmissões ao vivo alcançaram mais de 11 mil visualizações. É possível acessar ainda parte da programação audiovisual na página do movimento no Facebook (@movimentovozesdosilencio) e no site www.vozesdosilencio.com. uma resposta às milhares de vozes que ecoaram nas Caminhadas do Silêncio de 2019. 

 

De acordo com Lucas Paolo Vilalta, coordenador da área de Memória, Verdade e Justiça do IVH, o objetivo da vigília é, nesse momento de reclusão necessária, manter vivo o trabalho da Memória que insiste em lutar para que as violências do passado e o legado autoritário da ditadura não siga se repetindo no presente. “Em época de um autoritarismo genocida que cada vez mais se mostra irresponsável e suicida diante da crise, lutar pela preservação da Memória e da Verdade se faz cada vez mais urgente. Para que não esqueçamos que a violência que ocupa o Estado hoje é resultado da impunidade que assola esse país e da tolerância com o intolerável que parte das instituições e poderes democráticos têm mantido”, afirma.

 

Este texto faz parte da série especial “Os efeitos do coronavírus nos territórios de atuação do IVH”. Acompanhe seus desdobramentos aqui, no site do Instituto Vladimir Herzog, e também nos sites dos projetos Respeitar é Preciso! e Usina de Valores.