Data que marca o assassinato de meu pai, Vladimir Herzog, será decisiva para o futuro das instituições no Brasil
Por Ivo Herzog
Em 1975, meu pai, Vladimir Herzog, foi assassinado nas dependências do Doi-Codi, em São Paulo. Eu tinha 9 anos. Na véspera, tinha ido com minha mãe, Clarice, e meu irmão, André, à redação da TV Cultura. Era um dia comum, e eu esperava passar o fim de semana no interior com a família. No dia seguinte, minha mãe nos contou que ele tinha morrido. Entrei em estado de negação e pensei: “agora eu sou o homem mais velho dessa família”.
Poucos dias depois, em 31 de outubro, a Catedral da Sé recebeu um culto ecumênico em memória do meu pai. A iniciativa do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo teve o apoio imediato de Dom Paulo Evaristo Arns.
Apesar do clima de terror e das ameaças, Dom Paulo, o rabino Henry Sobel, o reverendo Jaime Wright e Audálio Dantas, então presidente do sindicato, tiveram a coragem de convocar a sociedade a manifestar sua indignação. Mais de 8 mil pessoas foram à Catedral. A lembrança mais forte que guardo daquele ato é o acolhimento de Dom Paulo à minha mãe, que chorava muito.
Com o tempo, entendemos que essa não era uma luta particular, nem apenas da nossa família. Era uma luta do nosso povo, do nosso país, pela humanidade. Ao longo desse processo, fortaleceu-se no Brasil a luta pelo fim da ditadura, pela volta dos exilados e pela busca dos desaparecidos.
Juntos, conseguimos impedir que a memória fosse apagada. Os assassinos do meu pai não mataram a nossa memória e jamais conseguirão fazê-lo.
Há cerca de um ano, havia um sinal positivo para mudanças estruturais necessárias em nosso país. Militares, pela primeira vez na história política brasileira, foram condenados por atos contra a democracia.
Um passo muito importante para a sociedade. Um passo muito importante para pessoas que, como eu, carregam cicatrizes profundas da violência de Estado de tempos de regimes autoritários. De lá pra cá, muito mudou. Avançamos, retrocedemos. E o que nos resta agora? Nossas escolhas deixaram de ser entre projetos.
Lembro da primeira vez que tive de escolher um candidato à Presidência, em 1989. Eu tinha 23 anos. O dia da eleição era uma festa, fazíamos boca de urna, rifas para levantar recursos para nossos candidatos e celebrávamos a primeira eleição presidencial direta em 29 anos.
Ao longo destes 37 anos, escolher um candidato à Presidência nem sempre foi fácil. Mas a dificuldade estava nas propostas e em decidir que caminho cada um oferecia ao país.
Depois, subestimamos personagens que pareciam caricatos. A grande virtude deles foi entender o que o eleitor queria ouvir. Muita gente estava decepcionada com a promessa da democracia, com a fila do INSS, a saúde, a educação, a segurança, e acreditou que um governo autoritário traria as respostas.
Em 2018, já não se tratava de optar entre dois caminhos para o Brasil, mas decidir entre continuar construindo nossa jovem sociedade democrática ou escolher alguém que traz na biografia o desprezo pela democracia, pela soberania, pelos direitos humanos e pela justiça social.
O que se viu no Brasil nos quatro anos seguintes foi um governo fiel à sua proposta de puro desprezo pelas minorias, pela vacina, estímulo ao armamento da sociedade, como se a saída fosse uns se voltarem contra os outros.
Em 2022, o segundo turno novamente trouxe para a urna apenas uma opção democrática. A experiência recém-vivida deveria ter bastado para uma vitória clara da democracia. Ganhamos, mas foi apertado.
Até poucos anos atrás, eu acreditava que nossa democracia era robusta. O 8 de janeiro de 2023 me mostrou o quanto chegamos perto de uma ruptura. Mas agora, em 2026, estamos outra vez na mesma situação.
No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula. A volta da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto deixou de ser hipótese.
O segundo turno será em 25 de outubro. Nesse dia, completam-se 51 anos do assassinato do meu pai. Para mim, essa data não é um detalhe do calendário.
Que opções temos? Nos abster, porque não gostamos de nenhum dos candidatos? Anular o voto?
Pessoalmente, agora aos 60 anos, talvez o que mais me incomode seja ver o mesmo nome na urna eletrônica. Um candidato em sua sétima eleição à Presidência da República. Uma pessoa conhecida, amada por milhões e odiada por outros milhões.
Mas é preciso dizer que esta eleição, como as duas últimas, não nos impõe eleger alguém que amamos ou odiamos. Precisaremos eleger um governo longe de ser perfeito, porém garantidamente democrático. Um governo que respeita as instituições de Estado, em que a corrupção e outros desvios são investigados.
Longe de ser perfeito, repito. Eu mesmo disse publicamente que o presidente errou ao cancelar os atos pelos 60 anos do golpe de 1964. E agora temos a prova de que esta não é uma página virada. Mas errar dentro da democracia é muito diferente de trabalhar contra ela.
Do outro lado está um político que, como deputado estadual, foi à prisão entregar a mais alta honraria da Assembleia do Rio ao miliciano Adriano da Nóbrega. Cujo gabinete empregou a mãe e a ex-mulher desse mesmo miliciano. Que, diante de tarifas americanas que punem trabalhadores brasileiros, sugeriu aos Estados Unidos que as adiassem para depois da eleição, porque ajudariam o adversário.
E ele já anunciou o que pretende fazer. Disse que, se eleito, vai subir a rampa do Planalto em janeiro ao lado do pai, condenado pela trama golpista, e dos outros condenados pelo 8 de janeiro. Conta com a anistia logo depois da eleição.
Anistia significa perdão. E a gente perdoa quem admite que fez algo errado. Não é possível falar em perdão para quem nem admite o erro. Em toda a nossa história, o que os golpes tiveram em comum foi a participação de militares e o perdão que veio depois. Esse perdão é um passaporte para a próxima ruptura e para a persistente impunidade.
O Brasil precisa se pacificar, mas a pacificação passa pela justiça. Quem roubou um pão na padaria está preso. Por que, em nome da paz, soltaríamos quem tentou um golpe?
Eu gostaria de poder votar em uma nova liderança, que trouxesse ar fresco à construção da nossa democracia. Gostaria que uma nova geração aparecesse com seus nomes nas urnas. Gostaria de um país diferente. De uma democracia melhor e mais forte.
Eu gostaria que meu pai não tivesse sido assassinado no DOI-Codi – o aparelho de repressão que teve como primeiro comandante Carlos Alberto Brilhante Ustra, herói declarado do pai de Flávio Bolsonaro. A realidade, porém, é dura e está posta.
Numa conversa, Marcelo Rubens Paiva me disse que nossos pais não foram heróis; foram vítimas. As heroínas foram as companheiras, que tiveram coragem e determinação para enfrentar toda a adversidade em busca da verdade e da justiça.
Penso em todas as famílias de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar. E na luta de tantas mulheres que jamais desistiram de buscar a verdade e a justiça, entre elas Amelinha Teles, Ana Dias, Eunice Paiva, Clara Charf, Criméia de Almeida, Edméia da Silva Euzébio, Damaris Lucena e, sempre, Clarice Herzog.
A memória dessas mulheres, e de todas as pessoas que nunca fraquejaram no combate ao esquecimento, nos lembra que preservar a verdade histórica é também uma forma de impedir que a violência se repita. Essa história permanece viva. Quando a memória se levanta, a justiça, a paz e a democracia ficam mais próximas de nós.
Meu pai entendia a responsabilidade de cada cidadão na construção de um país democrático. Quando veio o AI-5, em 1968, amigos o aconselharam a não voltar ao Brasil. Ele respondeu que aquilo era mais um motivo para voltar ao seu país.
25 de outubro é o Dia da Democracia. Data que marca o assassinato de Vladimir Herzog. Neste dia, para mim, a memória também vai às urnas.
Viver em uma democracia impõe uma responsabilidade a cada eleitor. Vote ele ou não, será cúmplice do resultado e da história. Deixar de votar é optar por um dos candidatos. Não escolher é tomar partido.
E eles não são iguais.
Democracia se constrói todos os dias
Cada ação do Instituto Vladimir Herzog, da educação em direitos humanos à proteção de jornalistas, da preservação da memória à incidência por políticas públicas, é parte de um compromisso contínuo com a democracia. Com a sua contribuição, você fortalece esse trabalho e ajuda a manter vivas iniciativas que fazem a diferença no presente e no futuro.