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Quem era Vlado por Ricardo Kotscho (texto escrito no ano 2000)

Quem era Vlado por Ricardo Kotscho (texto escrito no ano 2000)

DUAS MORTES DE VLADO

Está fazendo 25 anos, nem acredito.

Como correu o tempo, como as coisas mudaram depressa e, no entanto, como às vezes parece que não saímos do lugar, deixando tudo com está para ver como é que fica.

Mais grave ainda é constatar que, apesar de tantos avanços democráticos, em certas coisas regredimos.

No jornalismo, por exemplo. Quando Vladimir Herzog, o nosso Vlado, foi assassinado há um quarto de século, muitos jornalistas continuavam trabalhando como se a censura não existisse.

Hoje, a censura prévia não existe mais, ao menos formalmente, mas muitos jornalistas, talvez a maioria, agem como se houvesse um censor invisível controlando suas almas, mentes e matérias.

Nos tempos de Vlado, levar o jornalismo às últimas conseqüências, ou seja, contar tudo que está acontecendo e é de interesse da maioria da população, constituía atitude temerária, significava correr risco de vida.

Por isso, Vlado, torturado, morreu.

Hoje, o único risco que existe é o de perder o emprego – e esse parece ser mais amedrontador do que perder a própria vida ou perder a vergonha na cara.

Pior: no jornalismo de resultados que domina tantas redações, mais do que o medo de perder o emprego impera o vale tudo da ambição para a rápida conquista de cargos e salários.

O compromisso social e político, que era o principal mote da atividade jornalística nos tempos da ditadura, agora virou coisa de dinossauros românticos.

Com essa história de fim da história, morte de ideologias e todo o poder ao mercado neoliberal globalizado, o que se quer é decretar a morte de princípios, valores, aquelas coisas antigas resumidas na palavra idealismo.

Mudou o caráter da profissão. O jornalismo exercido por Vlado era um instrumento de lutas, mudanças, avanços sociais, conquistas populares, compromissos éticos.

O que é o jornalismo hoje? Se voltasse a freqüentar uma redação, por alguns segundos, desconfio que Vlado não reconheceria o cenário, não lhe agradaria a paisagem, estranharia os personagens.

Celebrar a morte de Vlado é um bom motivo para refletirmos o que fizemos do nosso ofício, uma forma de evitar que morram também os ideais pelos quais ele lutou.

* Ricardo Kotscho é jornalista