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Carta a Vlado: Fernando Pacheco Jordão

Carta a Vlado: Fernando Pacheco Jordão

Meu caríssimo Vlado, Curioso como muitas vezes o acaso faz a gente de repente se dar conta do impacto da passagem do tempo, do quanto de vida, experiências, amizades, amores, dores, separações, perdas, frustrações e alegrias se acumula no fundo das gavetas da memória e vem à tona quando alguém pergunta: Como foi? Você se lembra daquele dia? Que papel ele teve na história? O que mudou no país?

O impacto é mais forte quando tais perguntas vêm de um jovem repórter nascido exatamente no 25 de outubro de 1975, o dia da sua prisão, tortura e morte, e que só não se chama Vladimir, em sua homenagem, porque a mãe ficou com medo. Medo da repressão, com certeza, mas talvez também do peso da responsabilidade que estaria jogando sobre a criança, porque já se percebia então a dimensão do golpe sofrido, assim como já se podia imaginar a estatura que o seu nome e a sua história ganhariam.

Por que falo no quase-Vladimir? Porque foi justamente ele que fez romper a barragem de sentimentos represados que, de tempos em tempos – em geral, nos aniversários do seu assassinato – insistem em aflorar novamente. De ternura, quando a memória remete à longa convivência que tivemos, pessoal, familiar e profissional. De revolta e dor, quando se remexe a lembrança da sua tragédia. De raiva, muita raiva – raiva de chorar, ainda hoje – sempre que me dou conta dos amigos que nos levaram, você especialmente, e da imensa fatia de vida que nos roubou a ditadura militar: os momentos de opressão e medo que nos obrigavam a conversar em voz baixa, a censura imbecil que era o nosso cotidiano nas redações, as músicas que não nos deixavam ouvir, o teatro e o cinema que não nos deixavam assistir, tanta idiotice.

Há algum consolo pensar que com toda a certeza a sua morte contribuiu para apressar o fim dos anos de trevas. Na verdade, devia ser este o sentido deste texto, pois o que me pediram foi uma avaliação dos desdobramentos após a sua morte, se possível até os dias de hoje. Você já percebeu que fugi do assunto e provavelmente, com o rigor profissional que sempre teve, coçaria o alto da cabeça, como costumava – hoje você estaria careca por causa disso, imagino – e me faria re-escrevê-lo. Acontece que, assim como me é difícil controlar a emoção toda vez que me entrevistam sobre aqueles dias, também para escrever não consigo pensar no amigo e tratá-lo como personagem da história deste país – e que personagem importante você se tornou! Não há quem não tenha consciência do papel decisivo que você involuntariamente – mas bravamente – desempenhou na luta pela retomada da democracia.

Porém, em vez de artigo ou ensaio, que seriam mais apropriados mas exigiriam um distanciamento que não consigo ter, além de uma formação acadêmica e teórica que me falta, optei por este formato de carta ao amigo, ainda que correndo o risco de algumas pieguices aqui e ali que certamente estimulariam aquela sua veia irônica.

Por exemplo, perseguem-me duas sensações de culpa. A primeira é a de que sua morte seria evitável. Que fazíamos, os seus amigos, cientes do terror implantado naquela prisão, que não o impedimos de ir até lá naquela manhã de sábado? A paralisia deve ter sido causada pelo medo que todos tínhamos ou quem sabe pela tranqüilidade e segurança com que você decidiu apresentar-se para o que imaginava que seria um mero interrogatório.

A segunda é se não podíamos – jornalistas, OAB e tantas forças de opinião que se aglutinaram naqueles dias – ter ido além do que fomos na maré de indignação que a tragédia do 25 de outubro desencadeou. Uma vez, alguns anos atrás, revelei essa inquietação ao Perseu Abramo. Mais capaz de avaliações políticas e menos emocional do que eu, ele ponderava que tínhamos avançado até onde era possível. De novo me fiz as mesmas perguntas agora, ao ser entrevistado pelo seu quase xará para a revista Imprensa, que está para sair com uma edição especial dedicada a você. O que teria acontecido se…

Análise, ensaio ou carta, o fato é que a incansável militante Zilah Abramo, que agora, além das suas próprias, empunha as bandeiras deixadas pelo Perseu, pensou este texto como uma forma de apresentação desta página especial da Fundação Perseu Abramo. Tentei vários caminhos, mas invariavelmente esbarrei na emoção que me despertam as lembranças do 25 de outubro, da mobilização dos jornalistas contagiando outros setores, do culto ecumênico da Catedral da Sé.

Há dois anos, na entrega do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo (criado por iniciativa do Perseu), um dos oficiantes daquele ato, o pastor Jaime Wright falava da “situação de intenso medo e temor que prevalecia em nosso ambiente” quando você foi preso, torturado e morto, e dizia que era preciso “manter viva a memória daquilo que sofremos”. Acho que outro não é o objetivo da Fundação ao encomendar os textos e depoimentos que estão nesta página, e as escolhas não podiam ter sido mais felizes.

Não se trata de uma comemoração, claro. Uma homenagem, com certeza. Sobretudo uma celebração de companheiros seus – e das novas gerações também – pela preservação e prevalecimento dos valores e idéias que você defendia generosamente e pelos quais morreu. Em nome dos nossos filhos que cresceram juntos e agora também dos netos – vovô Vlado, quem diria! – que você não conheceu.