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Jornalismo necessário: como foi a cerimônia do 41º Prêmio Vladimir Herzog

Jornalismo necessário: como foi a cerimônia do 41º Prêmio Vladimir Herzog

Na última quinta-feira, 24 de outubro, foi celebrada a 41ª edição do Prêmio Vladimir Herzog. Centenas de pessoas lotaram o espaço para conferir a cerimônia, que teve transmissão ao vivo da TV PUC.

Foto: Alice Vergueiro

Do site da Oboré Projetos Especiais

Antes do jornalista Juca Kfouri dar início à cerimônia, a curadora do prêmio Ana Luísa Zaniboni Gomes rememorou jornalistas já falecidos, mas que seguem sendo símbolos e exemplos do jornalismo ético, crítico, vigilante. Foram lembrados, entre outros, Audálio Dantas, Perseu Abramo, Eduardo Galeano, Daniel Herz, Rubens Paiva, Tim Lopes.

Em homenagem a todos os presentes, parceiros de caminhada, foram invocados Francis Hime, Chico Buarque e Milton Nascimento com a canção “Parceiro”.

Ouça aqui: (https://www.youtube.com/watch?v=K_bSluuxZ_I).

Juca Kfouri, mestre de cerimônia, deu as boas-vindas aos presentes, apresentou a Comissão Organizadora do Prêmio, composta por 14 organizações da sociedade civil, e lembrou que em 1978, no Congresso da Anistia em Belo Horizonte, Perseu Abramo dava o nome de Vladimir Herzog ao Prêmio que ali surgia.

“Em sua primeira edição, 1979, o Prêmio Vladimir Herzog já estimulava a luta pela democracia. Desde então, o Prêmio reverencia a memória de Vlado: preso, torturado e morto pela ditadura civil-militar em 25 de outubro de 1975 nas dependências do DOI-CODI em São Paulo. E reconhece o trabalho de jornalistas, repórteres fotográficos e artistas, que por meio de seus textos, suas fotos e seus desenhos continuam sentinelas da democracia”.

Felipe Santa Cruz, presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, foi responsável pelo discurso oficial  da Comissão Organizadora do Prêmio. “A solidariedade vencerá a brutalidade, a ciência e a informação vencerão o obscurantismo, o respeito ao outro vencerá o ódio e a intolerância”. Felipe é filho de Fernando Santa Cruz, estudante de Direito desaparecido pela ditadura civil-militar em 1974.

Pelo oitavo ano consecutivo, a cerimônia foi antecedida da Roda de Conversa com os vencedores do Prêmio Herzog, transmitida ao vivo pela TV PUC (https://www.youtube.com/watch?v=-scgSbffJAo&t=281s).

Receberam seus troféus e diplomas os vencedores das categorias Arte (ilustrações, charges, cartuns, caricaturas e quadrinhos), Fotografia, Produção jornalística em texto, Produção jornalística em vídeo, Produção jornalística em áudio e Produção jornalística em multimídia.

Você pode conferir as premiações no site (http://premiovladimirherzog.org/vencedores-do-41o-premio-vladimir-herzog/).

Veja aqui o álbum de fotos com alguns registros da cerimônia. As fotos são de Alice Vergueiro:

Os estudantes vencedores do 11º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão também foram homenageados e contemplados com troféus. Foram três trabalhos selecionados sobre o tema “A face humanitária dos movimentos migratórios e de refúgio e seus reflexos na sociedade brasileira” e dois na categoria especial “Trabalho infantil na indústria da moda”.

Você pode conferir as cinco reportagens no site (http://jovemjornalista.org.br/11o-premio-jovem-jornalista-edicao-2019/).

“Desejamos que tenham mais Beatrizes, assim como eu, que são filhas de pedreiro e dona de casa, moradora da periferia e pobre, que possam acessar o Ensino Superior Público, as redações, e continuar ganhando este prêmio. Nosso desejo é um jornalismo mais diverso e humano”, disse Beatriz Gomes Fortunato, estudante da Escola de Comunicação e Artes da USP e autora do podcast “Costura de Ideias”, da categoria especial.

Homenageados especiais
Nesta edição, foram entregues três Prêmios Especiais Vladimir Herzog. Os homenageados foram Hermínio Sacchetta, Patrícia Campos Mello e Glenn Greenwald, presentes no Tucarena.

Paula Sacchetta, jornalista, documentarista e neta do Velho Sacchetta, nasceu quatro anos após a morte do avô, mas seguiu seus passos e formou-se na Escola de Comunicação e Artes da USP. Documentarista, lembrou do que diziam sobre seu avô.

“Para Florestan Fernandes, ele era um homem de atração magnética, que não conhecia os meios-termos, para Maurício Tragtenberg, um pai social, que ensinou a solidariedade com os que nada tem, a noção da luta como integrante constante do cotidiano contra a exploração e a opressão e o desprezo aos heróis sem caráter. Que fique o exemplo então de jornalista coerente e militante incansável do velho. Obrigada e fogo nos fascistas acho que seria sua palavra de ordem aqui hoje”.

Patrícia Campos Mello recebeu o Prêmio das mãos de seu pai, Hélio Campos Mello. A homenagem especial desta edição refere-se não apenas à sua já importante trajetória no jornalismo mas também pela coragem, resistência e persistência que demonstra ter nas adversidades da profissão – o que estimula a sua e as novas gerações a lutar pela liberdade de expressão e pelo direito à informação no Brasil.

“A desinformação é uma das maiores ameaças a democracia que a gente tem hoje. A gente tem que achar uma forma de combater a desinformação. Em respeito ao Vlado a gente não pode se deixar intimidar, continuar investigando. Temos que seguir fazendo jornalismo nesse momento que ele é mais importante do que nunca”, afirmou Patrícia.

Por último, Glenn Greenwald foi homenageado e recebeu das mãos das diretoras dos Centros Acadêmicos Benevides Paixão (PUC-SP), LupeColtrim (ECA-USP) e Vladimir Herzog (Cásper Líbero) o troféu que, ao homenageá-lo, também enaltece a aguerrida equipe do The Intercept Brasil, cujo trabalho excepcional vem igualmente estimulando, em muitos níveis, a defesa da liberdade de expressão e do direito à informação em nosso país.

“Neste prêmio a gente se lembra, se inspira. Se inspira por pessoas que tiveram coragem de levantar a voz, assinar o nome, de se debruçar sobre informações que podem mudar o rumo de um país e calmamente publicar. Vocês são exemplos, todos vocês, de profissionais que nos inspiram e tornam a pergunta de ‘Por quê jornalismo?’ muito mais fácil”, disse Laura Scofield, do CA Lupe Coltrim.

Glenn e a equipe do The Intercept Brasil sofreram diversos ataques nos últimos meses pela série de reportagens conhecida como #VazaJato. Em sua fala, o jornalista disse identificar-se com Vlado, ambos judeus, migrantes e que se apaixonaram pelo Brasil. “Não pela praia, pelo carnaval. Mas pelas pessoas, pela cultura, história, diversidade, potencial do povo e pelos valores democráticos”.

“Este prêmio representa o espírito de jornalismo que Patrícia está fazendo, que Hermínio estava fazendo. Em defesa da democracia, em defesa da liberdade de todas as pessoas, em defesa da igualdade, de todos os valores que tantas pessoas sacrificaram suas vidas para defender e preservar, nós temos a obrigação para lutar, como tantas pessoas aqui e antes de nós lutaram, e como Vladimir Herzog lutava também”, finalizou Glenn.

Ao final da cerimônia, o hino da república foi trilha para uma performance de 43 estudantes de jornalismo exibindo o refrão “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós” em suas camisetas.

Confira aqui, na íntegra, a transmissão da TV PUC da 41ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos: