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Exposição revela obra inédita de artista assassinado por agentes da ditadura militar

Exposição revela obra inédita de artista assassinado por agentes da ditadura militar

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Após quase dois anos de pesquisa foram identificadas cerca de 200 obras de Antonio Benetazzo que o público, agora, poderá conhecer

A exposição é realizada em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, o Centro Cultural São Paulo e conta com apoio do Instituto Vladimir Herzog.

Dividida em seis partes que revelam os eixos temáticos e as variedades estilísticas do autor, a mostra reúne o maior número de obras de Benetazzo já encontradas – todas espalhadas em casas de amigos e parentes. A exposição coroa o inédito projeto desenvolvido desde 2014 pela Coordenação de Direito à Memória e à Verdade da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo (CDMV/SMDHC).

Na mostra o público poderá conhecer cerca de 90 obras, incluindo os desenhos realizados em 1971, quando o artista esteve na clandestinidade, alguns estudos, além de objetos pessoais e cópias do jornal Imprensa popular, publicação oficial do Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), redigido por Benetazzo.

“O projeto tira da clandestinidade a desconhecida obra artística de um importante militante político. Ao mesmo tempo, é também uma forma de reparação histórica”, salienta Marie Goulart, integrante da Coordenação de Direito à Memória e à Verdade da SMDHC.

Além da exposição Antonio Benetazzo, Permanências do Sensível, com pesquisa e curadoria de Reinaldo Cardenuto, o projeto também resulta no documentário Entre Imagens – (Intervalos), filme-ensaio em torno da vida e da obra de Benetazzo. Com direção de André Fratti Costa e Reinaldo Cardenuto, o filme foi recentemente exibido na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, onde se destacou e recebeu elogios de críticos e do público. O projeto de resgate do trabalho artístico de Benetazzo inclui ainda a publicação de um livro que contém artigos da curadoria, de especialistas e reproduções das obras selecionadas para a exposição.

“Estamos diante de uma bela obra, a transitar por diferentes estilos e a propor olhares ainda desconhecidos sobre o Brasil do regime militar. É imprescindível destacar que ele foi um grande artista, autor de um projeto estético singular”, afirma o curador Reinaldo Cardenuto.

A exposição, o documentário e o livro relembram que a ditadura não só impediu a produção e circulação de obras críticas contra o regime, mas atacou e prejudicou a sociedade como um todo. Um dos principais objetivos da mostra, além de inserir Benetazzo na História da Arte brasileira, é incentivar os visitantes – principalmente aqueles que não vivenciaram o período da ditadura – a refletir sobre o regime autoritário para que o conheçam e não deixem que essa violenta história se repita.

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O artista

Uma das fases mais intensas da trajetória artística de Benetazzo ocorreu na segunda metade da década de 1960. Naquele período, professor de Filosofia e de História da Arte no Cursinho Universitário e no Instituto de Arte e Decoração (Iadê), Benetazzo compôs mais de 150 obras, com estilos, motivos e técnicas os mais variados. Dessa época datam autorretratos, retratos de familiares e de amigos, representações do corpo e da sexualidade feminina, abstrações realizadas com cores vibrantes, colagens pop a partir de material publicitário e nanquins, em diálogo com a estética visual dos ideogramas. Benetazzo se dedicou, ainda, à fotografia, incluindo vistas da cidade de Caraguatatuba, detalhes da arquitetura paulistana, cliques de banners espalhados por São Paulo e retratos de populares na rua.

O militante

Simultaneamente às atividades artísticas, Benetazzo ampliou o seu engajamento político. De 1965 em diante, rompeu com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) – por ser contra a linha “pacifista” e institucional de resistência aos militares adotada pelo Partidão – e se aproximou da luta armada contra a ditadura. Primeiro se envolveu com a Dissidência Universitária de São Paulo (DISP) e depois, a partir de 1968/69, com a Aliança Libertadora Nacional (ALN). Em 1968, Benetazzo ajudou a organizar o 30º congresso da UNE, em Ibiúna (SP).

Ingressando na clandestinidade em 1969, quando militava na ALN, Benetazzo mudou-se para Cuba, onde adquiriu treinamento de guerrilha. Ainda em Cuba, ajudou a fundar um novo grupo de esquerda, o Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), que a partir de 1971 passou a realizar várias ações revolucionárias em luta contra o regime militar.

Retornou secretamente ao Brasil na segunda metade de 1971, quando continuou atuando na clandestinidade e ajudou a desenvolver inúmeras ações políticas pelo MOLIPO. No decorrer de 1972, redigiu praticamente todos os textos do Imprensa popular, jornal oficial do MOLIPO, no qual denunciava a ditadura e defendia a luta armada como projeto de resistência contra o regime militar. Capturado por agentes da repressão no dia 28 de outubro de 1972, dois dias depois foi brutalmente assassinado a pedradas, no Sítio 31 de Março, em Parelheiros.

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Exposição Antonio Benetazzo, permanências do sensível

Abertura – dia 31/03, às 19h.

Duração da mostra – 31 de março a 29 de maio de 2016.

Centro Cultural São Paulo – Piso Flávio de Carvalho

Rua Vergueiro, 1.000