No dia 1º de julho, Instituto Vladimir Herzog celebra a vida de sua fundadora e presidente do Conselho Deliberativo, cuja atuação foi decisiva para a preservação da memória das vítimas da ditadura militar
Clarice Herzog completa 85 anos nesta quarta-feira (1º), data que convida à celebração de uma trajetória marcada pela coragem, pelo compromisso com a democracia e pela defesa intransigente dos direitos humanos.
Viúva do jornalista Vladimir Herzog, assassinado sob tortura nas dependências do DOI-CODI em São Paulo, em 25 de outubro de 1975, Clarice transformou o luto em uma luta persistente pela responsabilização do Estado brasileiro, pela preservação da memória e pelo direito à verdade. Sua atuação foi determinante para que a versão oficial do suicídio fosse desmentida judicialmente e para que o caso Herzog se tornasse um dos marcos da busca por justiça no país.
Ao longo de cinco décadas, esteve presente em momentos fundamentais da história democrática brasileira. Moveu a histórica ação que levou, em 1978, à primeira condenação judicial da União pela morte de uma vítima da ditadura. Décadas depois, participou do processo que resultou na condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 2018, reconhecendo a responsabilidade do Estado pelo assassinato de Vladimir Herzog e pela ausência de investigação e punição dos responsáveis.
Paralelamente à atuação pública, construiu uma carreira de destaque no mercado de publicidade e pesquisa qualitativa, conciliando a vida profissional com a criação dos filhos, Ivo e André Herzog.
Sua trajetória também está profundamente ligada ao Instituto Vladimir Herzog, organização criada por familiares, amigos e jornalistas para manter vivo o legado de Vladimir Herzog e promover a defesa da democracia, da liberdade de expressão, da educação em direitos humanos e da cultura de paz.
“Celebrar os 85 anos de Clarice Herzog é reconhecer a trajetória de uma mulher que transformou uma dor pessoal em um compromisso permanente com a democracia. Sua coragem ajudou a romper o silêncio imposto pela ditadura e abriu caminhos para a defesa da memória, da verdade e da justiça no Brasil. O Instituto Vladimir Herzog nasce dessa história e segue trabalhando para que esses valores continuem orientando a construção de uma sociedade democrática e comprometida com os direitos humanos”, comenta Rogério Sottili, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog.
Para Ivo Herzog, a história de sua mãe, além da dimensão pública, marca profundamente a história da família. “Clarice completa 85 anos, dos quais estive junto a ela por quase 60 anos. Vi esta mulher viver intensamente. Tenho lembranças de quando ela se tornou uma guerreira na luta incessante e inegociável pela Verdade e Justiça. Em paralelo a essa luta, uma profissional brilhante que se tornou referência no mercado de publicidade”, relembra Ivo.
“Profissional, guerreira, feminista, esposa e, principalmente, mãe que cuidou de mim e do meu irmão André ao longo destas décadas. Garantiu nossa segurança, nossa educação, nossa saúde e a construção dos nossos caracteres. Hoje, aos seus 85 anos, somente podemos agradecer por ter tido Clarice próxima de nós. Um privilégio que merece ser celebrado”, afirma.
A forte presença de Clarice no ambiente familiar também é sentida pelas demais gerações. Em relato sensível, a neta Sofia Herzog, filha de André, conta que avó é “uma verdadeira joia”.
“Ela é como uma deliciosa fatia de bolo de morango — uma mistura perfeita de doce e salgado. Sua personalidade é uma mistura maravilhosa de humor e sabedoria, e sua natureza amorosa sempre nos faz sentir bem-vindos. Estar perto dela é como aproveitar o calor de um dia ensolarado, com seu sorriso brilhante iluminando o mundo. Isso é o que Clarice significa para mim: um raio brilhante de alegria na minha vida”, descreve Sofia.
A história de Clarice Herzog também está entrelaçada com a história da redemocratização brasileira. Sua voz atravessou gerações, inspirou movimentos em defesa dos direitos humanos e ajudou a consolidar a compreensão de que memória, verdade e justiça são pilares indispensáveis para a democracia.
Neste aniversário de 85 anos, o Instituto Vladimir Herzog presta homenagem à mulher que fez da defesa da dignidade humana um compromisso de toda uma vida e cujo exemplo continua inspirando novas gerações.