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A palavra dos artistas por Lélia Abramo em 25/10/2000

A palavra dos artistas por Lélia Abramo em 25/10/2000

Extraído do livro “Vida e Arte”

(…) eu havia entrado, como já foi dito, para o Muse Italiche, grupo italiano de teatro, (…) que não era formado somente por amadores; havia também profissionais já tarimbados que, por razões pessoais ou outras, haviam abandonado a Itália após o término da Segunda Guerra Mundial. Outros ainda haviam participado de vários grupos filodramáticos italianos espalhados em grande número pela capital e pelo interior de São Paulo, desde o final do século passado. O Muse Italiche era um dos últimos e raros remanescentes, sobre os quais Miroel Silveira escreve competentemente em seu livro, A influência italiana no teatro brasileiro.

Os atores do Muse Italiche eram bem organizados, disciplinados, dedicados. Aprendi muito com eles. Mas, depois de algum tempo, o grupo, que já vinha passando por uma crise interna, dividiu-se e uma parte dos atores decidiu formar outra companhia. E lá fui eu para esse novo grupo. Não havia quem o dirigisse. Indiquei meu irmão Athos que, nessa época, já era conhecido como crítico de teatro por sua colaboração em vários jornais, como a Folha da Manhã, Jornal de São Paulo e O Tempo. Ele aceitou e também foi aceito com entusiasmo pelo grupo, que era administrado pelo ator Giuseppe Bertoli.

A proposta apresentada por Athos era a de encenar autores italianos contemporâneos. Como o grupo desejava representar em italiano mesmo, foi escolhido o nome I Guitti (os mambembes ou os saltimbancos, em português). A primeira peça selecionada foi Ispezione (Inspeção), de Ugo Betti, um drama interessante, cujos protagonistas eram Ângelo Valentini e eu, com o nome artístico de Lia Dogliani, sendo o elenco formado também por Pola Astri, Mário Leonardi, Beatriz Romano Tragtemberg (cujo nome artístico era Beatriz Berg), Silvio Bruni, Alberto Bonnini, Ernesto Pettinati, Mário Pirri e Vlado Erzi (nome usado pelo jovem Vladimir Herzog, enquanto participou desse nosso grupo de teatro). Estreamos em 6 de agosto de 1956, no Teatro de Cultura Artística. A direção foi elogiada pela crítica, assim como a interpretação dos atores e os cenários de Lívio Abramo.

Gostaria de recordar aqui como Vlado Herzog passou a fazer parte da nossa vida. Certa noite, logo no início dos ensaios, surgiu um jovem magrinho, muito pálido, com grandes olhos luminosos e aparência adolescente. Quem o apresentou foi Beatriz Berg, que com ele participava das leituras dramáticas, dirigidas por Gianni Ratto, feitas em italiano pelos alunos do Instituto Ítalo-Brasileiro de São Paulo. O instituto era dirigido pelo professor Eduardo Bizzarri, e o seu Departamento de Teatro por Olga Navarro. Vlado gostava de teatro, falava corretamente italiano e queria participar do elenco. Contou que havia nascido na Iugoslávia e era bem pequeno quando seus pais, judeus iugoslavos, tinham sido forçados a fugir do país, que fora invadido pelos alemães. A família havia se refugiado na Itália, em casa de amigos, onde permanecera até o final da guerra, viajando então para o Brasil. Vlado foi aceito imediatamente, pois era o tipo físico perfeito que nos faltava para interpretar o papel de meu filho na peça. Ele foi ótimo no seu papel e nos tornamos grandes amigos.

Certa noite, terminado o espetáculo, Vlado muito timidamente pediu-me que o apresentasse ao meu irmão Cláudio, na época chefe de redação do jornal O Estado de S. Paulo, pois queria ser jornalista. Entreguei a ele um bilhete dirigido ao Cláudio, pedindo que o acolhesse como amigo e que lhe arranjasse algo a fazer no jornal. Em resposta, meu irmão mandou-me um bilhete desaforado dizendo que aceitara Vlado Herzog, não porque eu o tivesse apresentado como meu amigo, mas por ser o jovem muito talentoso, demonstrando aptidão para o trabalho no jornal. Apesar do desaforo do Cláudio, fiquei contentíssima.

Esse foi o começo da brilhante carreira do jornalista Vladimir Herzog. Ainda no Estadão, Vlado fez parte da equipe de reportagem que, em 1960, dirigida por Perseu Abramo, fez a cobertura da inauguração de Brasília. Por esse trabalho, a equipe, que incluía outros jovens jornalistas como Luiz Weis, Alexandre Gambirásio e Fernando Pedreira, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo daquele ano (categorias regional e menção honrosa). Muitos anos depois, quando Vlado foi trabalhar na BBC de Londres não se esquecia de me enviar cartões postais, dando noticiais suas.

Foi trágica a vida desse jovem, tão talentoso, decente, gentil, culto e competente: fugido da Iugoslávia para escapar dos nazistas, conseguiu abrigar-se na Itália fascista, de onde, embora tenha certamente sofrido traumas por sua situação de refugiado, conseguiu sair vivo, para vir morrer no Brasil, assassinado pelos capangas torturadores da ditadura militar, no dia 25 de outubro de 1975. As circunstâncias de sua morte, ocorrida algumas horas depois de Vlado ter recebido uma intimação policial e se apresentado livremente, e especialmente a versão montada pelos órgãos da repressão, tentando caracterizar esse assassinato como suicídio, levantaram uma onda de protestos, liderada pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, com a adesão imediata de todos aqueles que já participavam da luta contra as arbitrariedades do regime. Nessa altura, Vlado trabalhava na TV Cultura e já era um jornalista conhecido internacionalmente. O impacto causado por sua morte repercutiu até no exterior e essa reação contribuiu de maneira importante para apressar o fim da ditadura militar, que se havia iniciado em 1964 (…)

Quando Vladimir Herzog foi morto na prisão, em 1975, os jornalistas e os atores foram os primeiros a se manifestar, apesar do medo que imperava. Naquela noite – er um sábado – todos os atores comunicaram a seus públicos a morte de Vlado. Na segunda-feira, dia do enterro, eu estava gravando na televisão e disse ao Carlos Zara, diretor da novela: “Vou ao enterro e levo cinco atores que queiram ir comigo; portanto não vamos trabalhar hoje.” Carlos Zara continuou gravando e nós seis fomos para a cerimônia fúnebre.

Lélia Abramo é Atriz.