Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
01/06/2026

Decisão de Trump sobre facções levanta temor de pressão externa na eleição, segundo organizações

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Classificação de PCC e CV como terroristas também pode ter implicações para sistema financeiro

A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abre caminho para uma eventual interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira, segundo alertas de organizações que se manifestaram contra a decisão do governo Donald Trump.

Anunciada após a visita do pré-candidato Flávio Bolsonaro a medida tem sido apontada por críticos como uma demonstração de interesse do governo americano em temas do debate interno no Brasil, reacendendo o debate sobre a defesa da soberania nacional.

Sami Sternberg, um dos porta-vozes do Pacto pela Democracia — coalizão brasileira com mais de 200 organizações da sociedade civil que atuam na defesa e fortalecimento da democracia —, disse que vê risco de “instabilidade” para o processo eleitoral. Para ele, que atua na coordenação de relações internacionais da organização, o assunto exigirá “vigilância” popular.

“A política externa do governo Trump tem um direcionamento explícito de intervencionismo para a região, de modo que esta pode ser a primeira ação prática daquele país que pode gerar instabilidade às nossas eleições. A sociedade civil brasileira já vem monitorando esse e outros riscos de interferência externa, e seguirá vigilante na denúncia de ações que atentam contra a nossa soberania”, afirmou ao Valor.

Segundo Sternberg, que endossa a visão de “ataque à soberania nacional”, a medida ainda “estabelece um precedente para a realização de operações militares em território nacional sem anuência do Estado ou do povo brasileiro, além de abrir caminho para a imposição de sanções institucionais que podem impactar gravemente o sistema financeiro nacional e, em última instância, empresas e cidadãos comuns”.

Ao comentar a iniciativa do governo Trump, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública criticou o uso político da questão, lamentando que “um tema com implicações profundas na soberania e autonomia do Brasil, na sua economia, no sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação regional e internacional, tenha sido capturado pela disputa eleitoral”.

Segundo nota da organização, o apoio “explicitado por muitos políticos” no Brasil à medida “demonstra visões reducionistas e descoladas das reais tarefas que o poder público precisa colocar em prática para retomar territórios e regular mercados e setores usados pelo crime organizado, como fintechs, bets, criptoativos, entre outros setores”.

Diferentes especialistas ressaltaram que o anúncio dos EUA a poucos meses da eleição para o Palácio do Planalto reforça a preocupação sobre pressão externa. “Em um ano de eleições presidenciais, essa classificação ganha uma nova camada de relevância”, observou Sternberg, do Pacto pela Democracia.

Na prática, o temor está ligado ao fato de que a nova classificação adotada pelo governo dos EUA dá margem a uma série de intervenções, inclusive a possibilidade de operações militares no território, ampliando a influência de Trump sobre os rumos políticos internos e o debate eleitoral.

O Instituto Vladimir Herzog classificou como “inaceitável” a movimentação de Flávio “em reiterada busca por respaldo dos Estados Unidos para pressionar instituições nacionais e interferir no debate político brasileiro”.

Em nota, o instituto afirmou que “é de extrema gravidade que representantes políticos brasileiros sigam recorrendo à ingerência estrangeira como instrumento de distração pública e estratégia política, abrindo possibilidades para futura interferência externa nas eleições”.

Segundo a entidade, o episódio reforça um “cenário de tensionamento institucional e instrumentalização internacional da política brasileira”, com a transformação de “interesses externos em elemento de disputa interna”.

“Decisão dos brasileiros”

Amanda Roberson, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, negou hoje qualquer discussão sobre ingerência do país nas eleições brasileiras. O presidente do Brasil “é decisão dos brasileiros”, disse ela, em entrevista à GloboNews, na qual procurou dissociar a decisão de questões políticas brasileiras.

“A prioridade dos Estados Unidos é a segurança dos Estados Unidos. Também a nossa economia, fazendo o nosso país mais forte. Agora, quem vai ser o próximo presidente do Brasil é decisão dos brasileiros. Estamos focando na nossa estratégia, do presidente Trump, de fazer os Estados Unidos e o mundo mais fortes, mais prósperos, mais seguros. Estamos coordenando constantemente também com parceiros internacionais, como o Brasil”, declarou Roberson.

Questionada sobre influência do senador Flávio Bolsonaro na decisão do governo Trump, a porta-voz americana disse que não houve relação entre a medida e a visita do presidenciável à Casa Branca. “A única pessoa que toma decisões pelos Estados Unidos é o presidente Trump e sua equipe, o secretário Marco Rubio.”

Matéria reproduzida do site do jornal Valor Econômico.

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