Melhora da convivência, da gestão democrática e da aprendizagem foram citadas como contribuições; Pesquisa envolveu 1.194 pessoas da Rede Municipal de São Paulo, entre estudantes e educadoras/es
Conflitos fazem parte da vida coletiva. Quando observados em suas causas mais profundas, tornam-se oportunidades de aprendizagem da convivência, da justiça e do respeito. Essa é a perspectiva da educação em direitos humanos promovida pelo Instituto Vladimir Herzog em seus projetos para educação básica, como o Respeitar é Preciso!.
Em uma pesquisa investigativa junto a 10 escolas da Rede Municipal de São Paulo, foi possível compreender desafios e potenciais para consolidação da atuação pedagógica de Comissões de Mediação de Conflitos existentes em cada Unidade Educacional, compostas por profissionais e comunidade da própria escola.
Realizada no escopo do projeto Respeitar é Preciso! pela parceria entre Instituto Vladimir Herzog e SME-SP, a pesquisa foi realizada em duas fases nos anos de 2024 e 2025, buscando compreender avanços, desafios e subsidiar o aprimoramento da política de Comissões de Mediação de Conflitos, que existe há 10 anos nesta Rede Municipal.
Tanto estudantes quanto educadoras/es que conhecem as CMCs concordam que elas contribuem significativamente para melhoria da convivência e da gestão democrática:
81% das/os educadoras/es que conhecem as CMCs concordam que elas contribuem para melhoria do convívio escolar
85% dos/as estudantes que conhecem as CMCs acreditam que elas contribuem para situações em que as pessoas se escutam, se respeitam e aprendem mais
Para 55% de estudantes e 40% de educadoras/es ouvidos pela pesquisa e que conhecem as Comissões de Mediação de Conflitos, elas contribuem muito para a melhoria da aprendizagem.
No entanto, desafios também foram apontados pelas pessoas escutadas, como a necessidade de maior conhecimento sobre essas comissões no contexto escolar e mais tempo profissional para atuação nelas, além da necessidade de expansão de formações continuadas, como as realizadas pelo Respeitar é Preciso!.
A pesquisa diagnóstica envolveu 1.194 pessoas entre estudantes e educadoras/es (docentes, equipes de gestão e equipes de apoio).
Uma visão pedagógica para os conflitos
Segundo a pesquisa diagnóstica, os conflitos do cotidiano escolar são diversos, muitas vezes atrelados a problemas de comunicação e refletem questões estruturais da nossa sociedade, como racismo e machismo. Constata-se, portanto, a importância de se compreender e agir sobre desigualdades, silenciamentos e disputas que atravessam a sociedade e se manifestam na escola.
Uma segunda etapa da pesquisa aconteceu após intervenção de assessoria pedagógica do Instituto às Comissões de Mediação de Conflitos, que nesta fase foram instigadas a criar e implementar planos de ação. Depois do processo, gestoras/es e outras/os educadoras/es demonstram uma percepção mais aguçada quanto ao objetivo pedagógico da mediação de conflitos:
“A gente começou a perceber e agir sobre lacunas na participação escolar: quem pode falar, quem pode registrar, quem também faz parte da convivência…”, contou uma Coordenadora Pedagógica participante de pesquisa sobre as CMCs
“A Comissão de Mediação de Conflitos precisa mobilizar, estar num papel maior, de formação e mobilização, e não só de apagar incêndio” Assistente de Direção participante
“Quando aparece uma situação dentro da escola, os próprios estudantes já falam ‘opa, isso é racismo’, ‘opa, isso aí é homofobia’, ‘ah, você tá sendo misógino’. Isso é uma baita aula, né? Onde estudantes têm protagonismo. É discutir realmente o que eles querem discutir dentro da escola. Eles precisam se sentir pertencentes a esse espaço.”, constata um professor que participou da pesquisa
Diversos entrevistados apontaram que o fato de o/a estudante sentir-se seguro/a, respeitado/a, ouvido/a e acolhido/a na escola cria condições favoráveis para maior atenção, engajamento e foco nos estudos.
Para consolidar as Comissões no cotidiano, educadoras/es observam também a importância do planejamento coletivo em ações estruturadas:
“A gente começou a colocar as reuniões como prioridade. Mesmo quando chove canivete lá fora, a gente para tudo e faz”, contou um Assistente de Direção
“A gente vinha fazendo ações que agora estão no Plano de Ação, mas sem essa estrutura. Por exemplo: identificar em diálogo com os estudantes quais eram os problemas na escola, entendendo conflitos ocasionados por racismo, machismo e homofobia, e trabalhando essas questões. Agora a gente tem essas ações de forma mais estruturada”, observa uma professora
Os dados, as falas e as experiências mostram que um olhar pedagógico para os conflitos é central para a transformação da cultura escolar. Em um cotidiano marcado por diferenças, tensões e desigualdades, aprender a mediar conflitos é também aprender a conviver e construir uma escola mais justa, onde uma aprendizagem integral é garantida.
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