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Nota conjunta contra o discurso dos ministros Damares Alves e Ernesto Araújo no Conselho de DH da ONU

Nota conjunta contra o discurso dos ministros Damares Alves e Ernesto Araújo no Conselho de DH da ONU

O Instituto Vladimir Herzog e outras dezenas de entidades da sociedade civil, grupos religiosos, ONGs, movimentos sociais, grupos religiosos, quilombolas e indígenas se unem em nota conjunta contra o discurso dos ministros Ernesto Araújo e Damares Alves, no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

As organizações da sociedade civil brasileira não reconhecem o pronunciamento do governo brasileiro por meio do Chanceler Ernesto Araújo e da Ministra da Família e Direitos Humanos, Damares Alves, na abertura do 46º período de sessões do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDH/ONU), em Genebra, nesta segunda 22 de fevereiro de 2021 [1].

Diferente do que afirmaram perante a comunidade internacional, o Brasil não está fazendo o melhor para enfrentar a pandemia da Covid-19. O governo brasileiro é tido como o que tem a pior gestão da pandemia [2]. Negando a gravidade da pandemia, o governo deixou de adotar medidas para proteger sua população e impedir a propagação do vírus. Com cerca de 2% da população mundial, o Brasil acumula 10% das mortes por Covid-19 no mundo. Em 2020, o risco de se morrer de Covid-19 no Brasil foi três vezes maior que no resto do mundo [3]. O governo brasileiro sequer aplicou todo o recurso que foi autorizado para isso [4], desassistindo cruelmente aqueles/as que são as maiores vítimas da pandemia.

O Brasil, na verdade, não está vacinando a sua população nem mesmo todos os idosos e profissionais de saúde, nem mesmo todos os povos tradicionais como anunciou a ministra Damares Alves. Ainda está longe de garantir a cobertura com as duas doses para estes grupos e está muito longe de chegar ao conjunto da população em cobertura recomendável. Segundo organizações indígenas,[5] nem sequer tem vacinado a todos os povos indígenas (atinge somente aos aldeados), quilombolas, ciganos e outros mais de 25 grupos, que não estão incluídos nas prioridades. O racismo estrutural impregna o processo de vacinação, uma vez que negros/as são mais da metade da população do País, mas são os que menos tiveram acesso a vacina.[6]

O chanceler e a ministra não falaram que o Brasil é um dos países mais afetados e com um dos mais altos registros de mortes por Covid-19, que o presidente da República questiona a eficácia da vacina, propaga remédios comprovadamente ineficazes para tratamento precoce, promove aglomerações e ataca medidas de isolamento e distanciamento social. O sistema público de saúde está em colapso em várias cidades brasileiras, faltam leitos de UTI, oxigênio, remédios e materiais de proteção individual para profissionais de saúde. . Um estudo publicado por organizações brasileiras [7] mostra que “a maioria das mortes seriam evitáveis por meio de uma estratégia de contenção da doença, o que constitui uma violação sem precedentes do direito à vida e do direito à saúde dos/as brasileiros”.

A ministra não falou que quase metade das famílias brasileiras ficaram completamente desassistidos e seguem assim em razão da descontinuidade do auxílio emergencial [8] nem da chantagem da área econômica do governo que quer incluir o fim da vinculação orçamentária para educação (25%) e saúde (12%) como contrapartida para aprovar um novo auxílio emergencial que, aliás vem sendo reivindicado por centenas de organizações da sociedade civil. [9]

Os valores apresentados pela ministra como para dar a entender que o governo está fazendo altos investimentos, suficientes para atender às demandas para a proteção dos grupos citados é um artifício retórico comum, já que não apresenta o universo da demanda e nem mesmo dados comparativos para que possam ser adequadamente avaliados. Fanfarronar números é um recurso que pode impressionar, mas prática que não se sustenta quando confrontada à realidade. Um exemplo são os dados sobre a proteção de crianças: a ministra diz que atuou para equipar 500 Conselhos Tutelares no Brasil, mas não falou dos mais de cinco mil outros que não foram atendidos, afinal são 5.570 municípios no Brasil e em cada um deles há pelo menos um conselho tutelar.

Por sua vez, o Chanceler que prega ataques ao multilateralismo, em nome da soberania irrestrita dos países, brada contra um suposto climatismo, para negar os esforços contra as mudanças climáticas, desta vez, resolveu denunciar a prática da produção de falsas notícias. Vindo de um governo que é exímio fabricante de notícias falsas, que é acusado de manter um “gabinete do ódio”,[10] (aqui e também aqui) e que está sendo investigado pelo Congresso Nacional e pelo Supremo Tribunal Federal, não pode ser levado a sério.

O chanceler afirma em seu discurso que as tecnologias da informação têm sido cada vez mais submetidas à censura, à vigilância e à criação de mecanismos de controle social. Usa como fachada uma suposta militância internacional contra o que chamou de “tecnototalitarismo”. Mas, faz isso sem tomar em conta as afirmações de relatorias das Nações Unidas, particularmente da Relatora sobre Formas Contemporâneas de Racismo [11], que denunciou o uso destas tecnologias pelo mercado e para promover ainda mais racismo e exclusão, no viés reverso ao que sustenta o Ministro. O libelo que levanta parece ir exatamente contra a tudo o que o movimento ideológico do qual é parte faz todos os dias. Ele certamente usa a tribuna internacional para fazer agrados e retribuições preparando possíveis reclamações de um de seus maiores aliados e agora ex-presidente norte americano, ou mesmo ao que pode vir a acontecer a seu chefe, ou ao que já ocorreu ao parlamentar que foi recentemente preso no Brasil. Concordamos que a tecnologia não pode ser usada para submeter ou apequenar. Mas não concordamos que a tribuna internacional seja usada por uma alta autoridade para defender interesses não expressos em detrimento das melhores agendas de direitos humanos do mundo.

A sociedade civil brasileira não aceita este tipo de postura nos fóruns internacionais. Ver representantes do governo fazendo teatro de mau gosto formulado com base em meias verdades e insinuações é inaceitável e motivo de vergonha. A cooperação internacional é um recurso fundamental para garantir a efetivação dos direitos humanos e ela só pode ser realizada se os Estados nacionais assumirem as contradições que marcam a vida de seus povos e, sobretudo, se estiverem abertos à crítica e à colaboração. A atuação internacional do Brasil no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas completou mais um capítulo vergonhoso.

As organizações signatárias conclamam às nações do mundo que levam a sério os direitos humanos para que não aceitem este tipo de intervenção. Solicitam que apresentem questionamentos ao governo brasileiro, de modo que se possa dar passos para responsabilizar sua atuação por patrocinar graves e persistentes violações dos direitos humanos.

Aqui estão as entidades que assinaram a nota:

  1. Agenda Nacional Pelo Desencarceramento
  2. Agentes de Pastoral Negros do Brasil APNs
  3. AMAFAVV Espírito Santo
  4. ANCED/Seção DCI Brasil
  5. Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil
  6. Assessoria Popular Maria Felipa
  7. Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais – Abong
  8. Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas (ABRAÇA)
  9. Associação de Pais e Mestres de Apoio ao Desenvolvimento Social
  10. Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)
  11. CEDECA Interlagos
  12. CEDECA RJ
  13. Centro de Apoio aos Direitos Humanos Valdicio Barbosa dos Santos
  14. Centro de Defesa dos Direitos Humanos Zumbi dos Palmares
  15. Centro de Referência em Direitos Humanos Marcos Dionísio
  16. Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social – CENDHEC
  17. Centro pela Justiça e o Direito Internacional CEJIL
  18. CLADEM Brasil
  19. Coletivo Familiares e Amigos de Presos e Presas do Amazonas
  20. Comissão Pastoral da Terra
  21. Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre)
  22. Conselho Indigenista Misisonário – CIMI
  23. Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Quilombola
  24. CTI – Centro de Trabalho Indigenista
  25. Escola Comunitária São Francisco de Assis
  26. Forum Baiano LGBT
  27. Forum de Educação Escolar e Saúde Indigena do Amazonas – FOREEIA
  28. Fórum Ecumênico ACT Brasil – FE ACT BRASIL
  29. Fórum Grita Baixada
  30. Frente Estadual Pelo Desencarceramento do Amazonas
  31. Frente Estadual pelo Desencarceramento do Rio de Janeiro
  32. Geledés – Instituto da Mulher Negra
  33. Grupo Tortura Nunca Mais – Bahia
  34. GTP+ Grupo de Trabalhos em Prevenção POSITHIVO GTP+
  35. Hernandez Lerner e Miranda Advocacia
  36. Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena
  37. Instituto Braços – Centro de Defesa dos Direitos Humanos em Sergipe
  38. Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase)
  39. Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico
  40. Instituto Cigano do Brasil – ICB
  41. Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos – IDDH
  42. Instituto Marielle Franco
  43. Instituto Raça, Igualdade e Direitos Humanos
  44. Instituto Vladimir Herzog
  45. Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
  46. Justiça Global
  47. MORHAN Nacional
  48. Movimento Candelária Nunca Mais
  49. Movimento de Famíliares de Pessoas Privadas da Liberdade AMOR ALÉM DAS GRADES RS
  50. Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade do estado do Pará – MMCC/PA
  51. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST
  52. Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH Brasil
  53. Organização que representa os professores indígenas do estado do Acre (OPIAC)
  54. Projeto Afará
  55. Rede de Comunidade e Movimento contra Violência
  56. Rede de Cooperação Amazônica – RCA
  57. Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado
  58. Rede Sapata
  59. SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia
  60. Teia Direitos Humanos
  61. Uma Gota No Oceano
  62. União dos Povos indígenas do Vale do Javari – UNIVAJA

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