Faleceu neste sábado, 2 de maio, no Rio de Janeiro, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira.
Para o Instituto Vladimir Herzog e para gerações de profissionais da comunicação, Raimundo não era apenas uma referência técnica; era a personificação do compromisso social e da integridade ética.
Raimundo partiu com a serenidade de quem viveu uma trajetória em total harmonia com seus princípios. Para ele, o exercício da profissão era uma “oportunidade de ver” o mundo de forma profunda, permitindo o que ele chamava de uma “vida consciente”.
Uma vida de resistência e coerência
Nascido em Exu (PE) em 1940 e criado no interior de São Paulo, Raimundo teve sua trajetória acadêmica interrompida pela ditadura militar. Estudante de Engenharia no ITA, foi perseguido e expulso em 1964 devido à sua atuação política. Formou-se em Física pela USP, mas foi no jornalismo que encontrou sua verdadeira vocação para transformar a realidade brasileira.
Sua carreira confunde-se com a própria história da resistência democrática no país. Foi parte da equipe fundadora da revista Veja, onde teve o arrojo de organizar, em plena vigência do AI-5, um dossiê histórico sobre a tortura no governo Médici. Como editor dos jornais Opinião e Movimento, Raimundo liderou trincheiras fundamentais do jornalismo alternativo, enfrentando a censura e a repressão com a força da reportagem.
Ao longo de décadas, seja na coleção Retrato do Brasil, na revista Reportagem ou em suas colaborações recentes para o Brasil 247 e a Piauí, Raimundo manteve o mesmo objetivo: entender o país para mudar a vida das pessoas. Sua busca era pela “elevação do padrão material e cultural do povo brasileiro”, combatendo as desigualdades e a dependência econômica com a lucidez que lhe era peculiar.
Em 2013, o jornalista foi um dos homenageados da 35ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, por sua atuação na defesa da democracia e na denúncia de violações aos direitos humanos.
Raimundo Pereira deixa quatro filhas, quatro netos e uma lacuna imensa no pensamento crítico nacional. O Instituto Vladimir Herzog manifesta sua profunda solidariedade à família e aos amigos.
Sua lição de resistência à censura e sua convicção na função social do jornalismo permanecem vivas em cada um de nós.