DOE AGORA

“Antonio Conselheiro”

“Antonio Conselheiro”

Vlado tinha uma paixão profissional talvez ainda mais forte do que a própria televisão: o cinema. Seu grande sonho era um filme sobre Canudos, sempre adiado pelos afazeres profissionais. Este ano, ele tinha decidido fazer de Canudos mais do que um sonho e leituras. Ia, finalmente, realizar o seu filme: “Antonio Conselheiro”. Em fevereiro, durante várias semanas, esteve no sertão da Bahia, vendo e fotografando a região, os locais de batalha, o açude de Cocorobó que sepultou a aldeia de Antonio Conselheiro, e entrevistando os raros e velhos sobreviventes da época da guerra. Seu entusiasmo logo se transformou num pré-roteiro. E, mesmo depois de ter assumido a direção do jornalismo da TV-Cultura, que lhe consumia o tempo todo, ainda conseguiu fazer um plano de produção, onde registrou:

“A. memória da guerra resume-se hoje numa cruz de madeira chamada Cruz do Conselheiro, tirada de Canudos pouco antes da inundação do açude elevada para o meio do mato, na periferia de Nova Canudos. Os engenheiros do DNOCS sabem pouco ou nada sobre a guerra de 1897, tendo ouvido o que sabem dos papos com o povo da região. Este tem uma memória confusa e, às vezes nula dos acontecimentos, sem um juízo de valor definido sobre a guerra ou os seus personagens. E há ainda, vivos, alguns contemporâneos do Conselheiro. Hoje, com mais de 90 – e alguns mais de 100 anos – misturaram (nos depoimentos gravados) memórias preciosas com depoimentos delirantes. Os homens variam entre os que reconhecem no Conselheiro um líder carismático e os que concordam ter sido ele “um loco”, bem no figurino de muitas versões oficiais. Entre as mulheres, pelo menos uma opinião unânime: “Era bonito, muito bonito”.

O esboço de produção que Vlado deixou pronto propõe e reconstituição histórica no estilo de documentário-ficção, usando atores e, ao mesmo tempo, os depoimentos que fariam a “memória de Canudos”: ao lado dos especialistas e estudiosos do assunto, um descendente de jagunço, hoje lavrador na zona irrigada de Cocorobó, e a beata Lucinda, de 102 anos, que Vlado entrevistou em Monte Santo e que conta ladainhas do Conselheiro e lembra de tiroteios.

A síntese do seu projeto, como ele o deixou, seria “uma recriação do passado em contraponto com um registro documentário do presente de Canudos”.

“Antonio Conselheiro” era um plano que ele tinha praticamente desde 1963, quando fez um Curso de Cinema Documentário, no Rio de Janeiro, patrocinado pelo Itamarati, em colaboração com a UNESCO e sob a direção do cineasta sueco Arrie Sucksdorf. Naquele mesmo ano, Vlado fez também um estágio no Departamento de Cinema da Universidade dei Litoral, em Santa Fé, na Argentina, que na época, era talvez o principal centro de produção de documentários na América Latina. Quando voltou, Vlado fez seu documentário, “Marimbás”, sobre os pescadores que viviam com suas famílias nas areias do Posto 6, em Copacabana; e, um ano depois, antes de viajar para à Inglaterra, trabalhou como assistente de produção de dois documentários brasileiros, “Viramundo” e “Subterrâneos do Futebol”.