Ivo Herzog é o fundador do Instituto Vladimir Herzog, nomeado em homenagem a seu pai, que também dá nome ao mais importante prêmio de jornalismo brasileiro. Nascido em Osijek, Vladimir Herzog fugiu da repressão Ustaša para o Brasil, onde foi assassinado em 1975 enquanto depunha sobre seus vínculos com o Partido Comunista. Ivo Herzog concedeu sua primeira entrevista à mídia croata.
Poucas pessoas na Croácia sabem que o prêmio de jornalismo mais importante do Brasil leva o nome de Vladimir Herzog, natural de Osijek, que, fugindo do terror dos Ustaše com sua família, primeiro se refugiou na Itália e, após a Segunda Guerra Mundial, chegou ao Rio de Janeiro. Esse brasileiro naturalizado entrou para os anais de sua nova pátria por ter sido assassinado em São Paulo, em 1975, após ser torturado e espancado sob custódia policial enquanto depunha sobre suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro, que atuava ilegalmente durante a ditadura da época. Ninguém acreditou na versão das autoridades da época sobre o suicídio de Herzog, que teria sido enforcado com um cinto. A reunião de mais de 8.000 pessoas na magnífica Catedral da Sé, em São Paulo, para uma missa ecumênica em sua memória é considerada por muitos como um ponto de virada na luta pelo retorno da democracia ao Brasil e o início da queda da ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985. Em 2009, a família e os amigos de Herzog fundaram um instituto que leva seu nome. Entre outros objetivos, a instituição busca defender os valores da democracia, dos direitos humanos e da liberdade de expressão.
A ideia de criar o instituto partiu de Ivo Herzog, um dos dois filhos de Vladimir, que dirigiu a ONG durante os primeiros oito anos de sua existência. Engenheiro naval de formação, ele também foi aprovado no vestibular para estudar jornalismo, mas não se atreveu a seguir essa carreira. Atualmente, escreve um livro sobre sua mãe e a longa luta de toda a família contra o judiciário brasileiro. O livro também conta como Vladimir Herzog se tornou um ícone do Brasil democrático, o que motivou a criação, no ano passado, de um podcast em quatro partes intitulado “O Caso Herzog”. Ivo Herzog concedeu sua primeira entrevista à imprensa croata para o jornal Nacional, e conversamos em sua casa, em um bairro nobre de São Paulo.
NACIONAL: O Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo reconhece anualmente o melhor trabalho jornalístico dedicado a questões de direitos humanos e ao fortalecimento da sociedade civil. A organização que congrega os jornalistas no Brasil declarou 2025, ano do cinquentenário do assassinato de seu pai, o ano de Vladimir Herzog?
Sempre achei que o caso do meu pai se dissiparia com o tempo, mas não foi o que aconteceu. Muito pelo contrário. Todo mês de outubro, às vésperas do aniversário de sua morte, jornalistas ou estudantes nos procuravam para dar entrevistas ou compartilhar fotos de arquivo. Respondíamos a cada vez, sempre recomeçando do zero, pensando que no ano seguinte haveria menos interesse. No 30º aniversário do prêmio, criado em 1978, sabendo que as pessoas não desistiriam da história do meu pai, tomei coragem e sugeri que organizássemos o material com dados mais precisos. Também me inspirei em uma palestra em uma escola pública do estado de São Paulo que leva o nome de Vladimir Herzog. Lá, ouvi dizer que os alunos que haviam preparado a palestra sobre meu pai haviam informado a data errada de sua morte, pois era essa a data que constava no livro da instituição onde ele trabalhava. A primeira tarefa da instituição foi oferecer ao público informações corretas. Mais tarde, toda a história ganhou proporções inimagináveis.

Vladimir Herzog fotografado em 1972. FOTO: Instituto Vladimir Herzog
NACIONAL: O Instituto Vladimir Herzog recebeu diversos prêmios e reconhecimentos. O último foi da União Europeia, no ano passado, por um projeto de proteção a jornalistas investigativos na Amazônia, que, com seus escritos, registram não apenas os desvios sociais, mas também o ecocídio na região, contribuindo assim para o combate às mudanças climáticas. Mas essa é apenas uma das áreas de atuação social do instituto.
Em seus 17 anos de existência, nosso instituto se tornou uma das mais importantes organizações de direitos humanos do Brasil. Trabalhamos para proteger os direitos humanos em seu sentido mais amplo. Além de patrocinar o prêmio de jornalismo mais importante do país, em 2009 também criamos um prêmio para jovens jornalistas dedicados aos direitos humanos. Orientamos estudantes de jornalismo na escrita de sua primeira matéria. Também lideramos uma aliança de cerca de cem ONGs que protegem jornalistas, fundada em 2018. Arrecadamos fundos para jornalistas em situação de vulnerabilidade e trabalhamos para aumentar a visibilidade da mídia em casos de ameaças. Infelizmente, o Brasil está entre os cinco países com os piores índices de violência contra jornalistas e seus assassinatos. Alguém da ONU disse certa vez que os únicos países que conseguiram reduzir a violência urbana de forma sustentável são aqueles que incluem os direitos humanos nos currículos do ensino fundamental. O instituto trabalha nisso em colaboração com a Prefeitura de São Paulo. Mais de um milhão de crianças em 1.500 escolas participam do nosso programa, cuja implementação monitoramos por meio de relatórios periódicos. Existe também um programa nacional de educação informal nas periferias das grandes cidades brasileiras. Nosso terceiro foco é a memória histórica. Estamos coletando arquivos a partir dos quais as novas gerações aprenderão o que aconteceu em nossa sociedade durante a ditadura no Brasil. Por fim, estamos tentando traduzir alguns de nossos postulados em políticas públicas por meio de lobby no Congresso.
‘Os nomes dos responsáveis pela morte do meu pai são conhecidos. Não se trata de colocá-los na prisão. Dizem que precisamos virar a página. Mas primeiro precisamos escrever essa página da história brasileira.’
NACIONAL: Seu pai nasceu em Osijek em 1937. O pai, Žigmund, e a mãe, Zora, eram comerciantes de porcelana. Por motivos de trabalho, mudaram-se para Banja Luka, onde viveram até agosto de 1941, quando a cidade foi ocupada pelo exército nazista. Depois disso, fugiram para os Apeninos. Se não o tivessem feito, certamente teriam acabado em um dos campos de concentração nazistas, pois Zora Herzog era judia.
Recebi o nome em homenagem ao primo do meu pai, que morreu em um desses campos de extermínio. A família se escondeu na Itália até 1944. Depois disso, mudaram-se para um campo de refugiados em Bari, onde permaneceram por dois anos. Em seguida, fizeram uma viagem ao exterior, para o Brasil, onde chegaram no final de 1946. Primeiro para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo. Meu pai logo obteve a cidadania brasileira. Estudou filosofia e iniciou sua carreira como jornalista em 1959. Pouco depois, casou-se com minha mãe, que nasceu em São Paulo. Meu irmão e eu nascemos na Inglaterra, pois meu pai passou três anos em Londres trabalhando como jornalista para a BBC. Depois disso, retornamos ao Brasil. Meu pai era um jornalista apaixonado por temas culturais, professor de jornalismo, dramaturgo e diretor.
NACIONAL: Imediatamente após seu assassinato, começaram os protestos estudantis e, uma semana depois, mais de 8.000 pessoas participaram de uma cerimônia ecumênica na Catedral da Sé Paulo, liderada por três líderes religiosos. O evento mobilizou não apenas importantes setores da oposição brasileira, mas também a comunidade empresarial conservadora de São Paulo.
Historiadores dizem que esse foi um ponto de virada no caminho do país rumo à redemocratização e que, a partir daquele dia, 31 de outubro de 1975, a ditadura começou a ruir. É verdade que levou mais dez anos para nos tornarmos uma sociedade democrática. A morte do meu pai foi muito simbólica em muitos sentidos. Ele era judeu e havia escapado do Holocausto. Trabalhava como professor em uma universidade pública de São Paulo e como jornalista e editor em um canal de televisão estatal dedicado à cultura. Como intelectual, jamais se envolveu em qualquer forma de violência. Após o assassinato dele, minha mãe, Clarice, não se isolou nem se calou. Decidiu dedicar sua vida à busca da verdade e da justiça. Na época, trabalhava para uma agência de publicidade internacional. Seu chefe lhe ofereceu a opção de escolher para qual país nos transferiria imediatamente, caso ela quisesse. Ela disse que ficaria no Brasil e lutaria pela verdade, por mais perigoso que fosse. Ela alegava que, após o assassinato do meu pai, São Paulo era o lugar mais seguro do mundo para nós, porque as autoridades não ousariam fazer a mesma coisa duas vezes. Eu tinha apenas nove anos na época. Mas me lembro de um período difícil, repleto de medo. A gente sempre se perguntava quem estava batendo na porta. Recebíamos telefonemas ameaçadores.

Vladimir Herzog com sua esposa Clarice, que buscou justiça para ele após seu assassinato. FOTO: Instituto Vladimir Herzog
NACIONAL: Em janeiro de 1976, o sindicato dos jornalistas profissionais do estado de São Paulo enviou o manifesto “Em nome da verdade” ao Tribunal Militar. O documento foi assinado por 1.004 jornalistas e publicado em dois jornais, um deles como anúncio pago. Foi a primeira vez, em um período de forte censura e repressão, que alguém ousou contestar publicamente a versão oficial do suposto suicídio do pai e exigir uma investigação completa do caso.
Durante a ditadura, vivíamos sob completa censura da mídia. Isso torna o manifesto ainda mais significativo. Todos os seus signatários devem ser elogiados por sua grande coragem. O mesmo vale para todos aqueles que compareceram à missa na Catedral da Sé. A cidade estava sob cerco policial naquele dia, e barricadas policiais impediam a entrada de ônibus e carros na praça. Mas as pessoas foram a pé. Havia atiradores de elite nos prédios ao redor. Eles esperavam algum tipo de protesto ruidoso ou tumulto como pretexto para um massacre. O regime queria disseminar a ideia de que o Brasil estava sob ameaça do comunismo e buscava uma desculpa para se tornar mais violento. Mas 8.000 pessoas chegaram à Praça da Sé em silêncio. Após o término da missa na catedral, gás lacrimogêneo foi disparado de um carro sem placas contra cidadãos que tentavam sair da missa em marcha, e eles foram dispersados.
Em São Paulo, uma praça leva o nome de seu pai, com uma escultura de bronze de “Vitória Vlado”. A praça também possui uma réplica do prêmio que leva seu nome, além de uma rua, uma cidade e uma escola pública.
NACIONAL: Após o retorno da democracia, o judiciário brasileiro reagiu de forma lenta e ineficaz ao caso Vladimir Herzog. Devido à paralisia institucional no enfrentamento dos crimes da ditadura, o caso acabou em um tribunal internacional.
Não houve investigações eficazes ou significativas. Imediatamente após a morte do meu pai, minha mãe decidiu entrar com um processo contra as autoridades, exigindo que fossem responsabilizadas. Ela não buscou indenização financeira. A família ganhou o processo em 1978, e o corajoso juiz federal Márcio José de Moraes decidiu a nosso favor. Ele também ordenou uma nova investigação do caso, mas as autoridades nunca cumpriram a ordem. Em 1979, foi aprovada a Lei da Anistia, que impede que qualquer justiça real seja feita. Tentamos diversas vezes obter reparação em diferentes instâncias do judiciário brasileiro, mas sempre sem sucesso, justamente por causa dessa lei. Recorremos, então, à Corte Internacional de Direitos Humanos nos Estados Unidos, um órgão judicial autônomo estabelecido pela Organização dos Estados Americanos. Eles levaram sete anos para chegar a um veredicto. Essa decisão de 2018 é histórica porque afirma que meu pai foi torturado e executado, e declara que se trata de um crime contra a humanidade que não prescreve e não pode ser coberto por nenhum tipo de indulto ou anistia, e que a morte do meu pai deve ser reaberta e os responsáveis devem ser levados à justiça. A decisão condenou o Estado brasileiro por não investigar, processar e punir os responsáveis. O tribunal também responsabilizou o Estado por violar o direito à verdade e à integridade pessoal. A parte que o nosso governo não cumpriu até hoje é a de reabrir a investigação.
NACIONAL: Em março de 2013, quando a Comissão Nacional da Verdade iniciou seus trabalhos, você recebeu uma nova certidão de óbito que, em vez de suicídio, listava lesões e abuso como causas da morte de Vladimir Herzog. Foi somente este ano que o Estado reconheceu sua responsabilidade, concedendo anistia política ao seu pai, pensão vitalícia e indenização à sua viúva de 84 anos. No entanto, isso representa apenas uma satisfação simbólica da justiça após mais de meio século de luta.
Os nomes e sobrenomes dos responsáveis pela morte do meu pai são conhecidos, mas isso não é resultado de uma investigação oficial. Minha mãe disse certa vez, com razão, que nossos familiares, como contribuintes, estão financiando a aposentadoria deles. Não se trata de prendê-los. São pessoas muito idosas. No entanto, me incomoda quando muitas pessoas neste país dizem que precisamos virar a página. O presidente Lula também disse isso. Concordo. Mas, primeiro, precisamos escrever esta página da história brasileira. Durante o primeiro governo Lula, os poderes da Comissão de Anistia foram significativamente ampliados em 2003. Os cidadãos podem contatá-la se acreditarem ter sofrido prejuízos pessoais em decorrência da ditadura. A Comissão analisa cada caso e, se houver justificativa para a indenização financeira, ela é concedida. Acho importante ressaltar que minha mãe só solicitou esse dinheiro no processo judicial iniciado há alguns anos, quando foi diagnosticada com Alzheimer. Cientes de que o resto de sua vida seria muito complicado e que os custos com saúde seriam altos, como família, sentimos que era nosso dever proporcionar a ela uma velhice o mais tranquila possível e os melhores cuidados possíveis. Decidimos, portanto, solicitar à comissão uma indenização para meu pai, minha mãe, eu e minha filha. Há dois anos, minha mãe recebeu uma indenização no valor de 100 mil reais, o equivalente a 16.500 euros. O que realmente queríamos era pagar a indenização ao meu pai, pois isso permitiria que minha mãe recebesse uma pensão vitalícia e garantisse um resto de vida seguro. Como não obtivemos resposta a essa solicitação, recorremos ao judiciário brasileiro. Anexamos também uma decisão de um tribunal internacional que enfatiza a garantia de indenização para nossa família, além da indenização concedida à minha mãe. Em junho do ano passado, chegamos a um acordo com o governo. O juiz assinou a sentença em outubro e todo o processo foi finalizado em fevereiro deste ano. O governo deverá pagar a indenização devida referente a cinco anos nos próximos anos. Minha mãe receberá uma pensão regular durante esse período.
“Seria ingenuidade acreditar que Trump não tentará influenciar os resultados das eleições no Brasil. Mas uma das coisas boas da nossa democracia é que temos instituições muito fortes.”
NACIONAL: O espírito de Vladimir Herzog ainda está presente na maior cidade do Brasil. Uma praça memorial em sua homenagem foi inaugurada em 2013 perto da Prefeitura de São Paulo. Os monumentos ali presentes simbolizam memória, arte e resistência.
Entre outras coisas, naquela pequena praça, em 2016, foi instalada uma escultura de bronze chamada Pobjedicnički Vlado, que simboliza o triunfo de sua geração de jornalistas contra a ditadura que acabou matando meu pai. A praça também abriga uma réplica do prêmio de jornalismo mais importante do Brasil, que leva o nome dele. A escultura representa uma lua crescente com a silhueta do rosto do meu pai. Há também a importante Escadaria da Liberdade. Há também a Rua Vladimir Herzog. Este é o endereço oficial da TV Kultura, a emissora onde meu pai era editor-chefe na época de seu assassinato. Dentro dos limites administrativos de São Paulo, a cerca de 60 quilômetros da minha casa, há uma escola municipal que leva o nome dele. Há também uma escola federal com o nome dele e diversos centros acadêmicos. Mais de uma vez, encontrei pessoas cujos pais lhes deram o nome do meu pai ou da minha mãe, para homenageá-los por tudo o que fizeram pela democracia brasileira. Para mim, essas são coisas tocantes.
NACIONAL: Quais foram as consequências da Lei de Anistia de 1979, um escudo para agentes que cometeram crimes políticos durante a ditadura, para a sociedade brasileira?
Se alguém não é punido por um crime que cometeu, por que outra pessoa não faria o mesmo? Uma das consequências da impunidade foi a tentativa de golpe de Estado por apoiadores do ex-presidente Bolsonaro em 8 de janeiro de 2023. É importante saber que, desde 1889, quando o Brasil se tornou uma república, houve cerca de uma dúzia de tentativas de golpe. Algumas delas foram bem-sucedidas. Todas têm duas coisas em comum: militares de carreira participaram e os perpetradores não foram punidos. A importância da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal no caso da tentativa de golpe de Estado de 2023 reside no fato de que, pela primeira vez, aqueles que quiseram derrubar o governo legalmente eleito dessa maneira foram punidos.

Colaborador do Nacional, Dragan Nikolić, e Ivo Herzog em São Paulo
NACIONAL: Em que medida o conceito de “doutrina de segurança nacional”, criado durante a ditadura, ainda está presente no sistema de segurança brasileiro e por que a Constituição Federal de 1988 não foi mais eficaz nesse sentido?
A segurança é responsabilidade do governo central. Agora, esse desafio está sendo transferido para o nível municipal, e não para o federal. Na operação mortal do ano passado nas favelas do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, testemunhamos mais uma vez a brutalidade da Polícia Militar. Trata-se também de uma invenção e um legado da ditadura. Por que, mais de 40 anos após o retorno da democracia, a Polícia Militar ainda é quem cuida da segurança dos cidadãos? Sua função é eliminar o inimigo, não garantir a segurança dos cidadãos. Acontece que os grupos socialmente marginalizados da população são o inimigo da polícia. É por isso que o Brasil é um lugar tão violento. A violência começa com a forma como o governo cuida da nossa segurança.
NACIONAL: A brutal ação da Polícia Militar nessas duas favelas do Rio de Janeiro, em outubro passado, foi o quinto massacre policial no estado do Rio de Janeiro nos últimos quatro anos. Lugares onde vivem cidadãos negros e pobres estão se transformando em zonas de guerra. Por que as operações da Polícia Militar ainda não estão sujeitas a controle, transparência e investigação autônoma?
A polícia também é corrupta e ligada ao crime organizado. Em dezembro do ano passado, o presidente da Câmara dos Deputados foi preso no Rio de Janeiro por obstruir uma investigação federal sobre os vínculos entre partidos de extrema-direita, cartéis de drogas e grupos paramilitares. O problema é que ele foi eleito para o cargo por unanimidade pelos seus colegas. Após a prisão, foi liberado por decisão do Parlamento do Estado do Rio de Janeiro. Essa ligação com o crime no estado do Rio de Janeiro é tão forte que as autoridades não têm interesse em resolver os problemas sociais nas favelas. As ações nas favelas do Alemão e da Penha, nas quais pelo menos 132 pessoas foram mortas, fazem parte de uma campanha eleitoral do governo de oposição no estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de prejudicar politicamente o presidente Lula. É claro que também se trata da forma como os grupos criminosos consolidam seu poder naquele território. O governador do estado do Rio de Janeiro teve o apoio de toda a população da cidade para essa ação. Ninguém se importa com tantos mortos, a maioria condenados com um tiro na nuca. Ao mesmo tempo, a polícia invadia casas sem mandado.
NACIONAL: Além do aumento da cultura de violência, o Brasil também enfrenta a discriminação contra diversos grupos minoritários na sociedade. Muitos dirão que os membros da comunidade LGBTIQ+ são os mais afetados.
Por mais estranho que pareça, o Brasil é um dos países mais violentos, senão o mais violento, do mundo em relação a crimes contra membros dessa comunidade. Quando lançamos um programa de educação não formal nos arredores de grandes cidades, conheci uma jovem transexual que estudava para ser professora. Ela me contou que o maior problema que enfrentava com sua escolha sexual era a atitude da mãe. Não porque ela não aceitasse a escolha da filha, mas porque a expectativa de vida da população transexual no Brasil é de 26 anos. E a jovem tinha 23. Por isso, a mãe resistia à sua decisão com todas as suas forças. Durante o programa, ela nos perguntou, a nós que moramos em São Paulo, uma cidade geralmente liberal em relação à transexualidade, se já tínhamos ido a um dentista transexual, tido um professor transexual ou trabalhado com alguém que fosse transexual. O segundo exemplo, para mim, é ainda mais assustador. Em 2011, produzi um talk show com plateia ao vivo sobre direitos humanos. Fizemos dez episódios de teste. A pessoa que nos ajudou a definir o foco de cada episódio veio de uma região com duas cidades brasileiras com o menor índice de desenvolvimento humano. Nessas duas cidades, todas as meninas e mulheres com 12 anos ou mais foram estupradas! Todas, sem exceção. Nada mudou desde então. E preciso mencionar outro exemplo de discriminação. Nas universidades brasileiras, existem cotas para estudantes de baixa renda. Agora, há pressão para a implementação de cotas também para pessoas não binárias. Comecei a entender como essas pessoas sofrem discriminação ao longo de suas vidas.
NACIONAL: As minorias sexuais no Brasil têm sido alvo de severa perseguição durante o governo de Jair Bolsonaro. O quanto a democracia brasileira sofreu durante seu mandato?
Acho que a sociedade brasileira já estava dividida antes mesmo de ele chegar ao poder. A situação no Brasil em relação a esse assunto é apenas um reflexo de uma tendência global. As redes sociais e o discurso de ódio nelas contribuíram muito para isso. Tudo saiu do controle. Conheço muita gente que não gostava do Lula, mas votou nele na última eleição para tirar o Bolsonaro do poder. A sociedade brasileira está tão dividida que uma conversa normal em um café não é mais possível. Me formei em engenharia em São Paulo em 1990. Por quase três décadas, minha turma da faculdade se reunia regularmente uma vez por ano. Isso acabou com a chegada do Bolsonaro ao poder. É quase uma regra mundial que pessoas economicamente poderosas sejam de direita. Mas durante os governos do Lula nas últimas duas décadas, os brasileiros ricos ganharam mais dinheiro do que durante os mandatos de outros presidentes, e mesmo assim odeiam o Lula. Por quê? Porque ele vem de uma família pobre, não fala uma linguagem literária impecável e comete muitos erros em seus discursos, além de ter sido sindicalista. Trata-se dos preconceitos dos ricos. Eles acham que são melhores do que ele e que um deles deveria estar no lugar de Lula.
NACIONAL: Você tem medo do resultado das eleições presidenciais no outono?
Não se trata apenas da eleição do presidente brasileiro, mas também dos membros do Senado. Este ano, dois terços dos representantes serão substituídos nas eleições. Eles detêm grande poder. A atual composição do Senado está bloqueada por diversas propostas da Câmara dos Deputados, de extrema direita, como a de aprovar uma lei de anistia para todos os que tentaram um golpe de Estado em 2023. Se perdermos esse senso de razão com a maioria na Câmara dos Deputados, onde os representantes têm mandato de oito anos, entraremos em uma zona de grande incerteza. Não podemos nos esquecer das atividades da Igreja neopentecostal, cada vez mais poderosa no Brasil. Ela controla um terço do Congresso, um terço do crime organizado e um terço dos que tentaram um golpe de Estado em 2023.
NACIONAL: Será que o governo Trump, para o qual os governos de esquerda da América Latina são como um pano vermelho, pode influenciar o resultado das eleições brasileiras?
Seria ingenuidade acreditar que eles não vão interferir e tentar influenciar esses resultados. Mas uma das vantagens da nossa democracia é que temos instituições muito fortes. Depois da tentativa de golpe, Bolsonaro acabou na prisão, Trump não. Isso mostra que as coisas aqui ainda funcionam um pouco melhor do que nos EUA.
Entrevista retirada do site da revista croata Nacional.