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A primeira fase da pesquisa foi realizada no final de 2014 e teve como desafio inicial reunir informações sobre Benetazzo quando pouquíssimos dados sobre sua produção artística, e mesmo sobre sua trajetória, estavam disponíveis. Tendo participado de apenas uma exposição em vida, Benetazzo é majoritariamente reconhecido por seu ativismo político. Com seu assassinato, a clandestinidade que o regime militar impôs ao artista se estende à sua obra. Dessa forma, mesmo nos relatos daqueles que conviveram com Benetazzo, ainda que com freqüência houvesse menção à criação do militante, poucos imaginavam o volume, a qualidade e a variedade de sua produção.

A sobrevivência das obras se deve, possivelmente, a uma contingência. Antes de partir para a viagem rumo a Cuba, em um período de muitas incertezas e quando o regime se tornava cada vez maios violento, Benetazzo reúne amigos em uma festa onde distribui seus desenhos. Guardada como recordação afetiva daquele que, em sua maioria, não voltaram a ver, a produção artística de Benetazzo permaneceu por cerca de quatro décadas dividida em mais de trinta casas. Se a fragmentação da obra foi o que lhe garantiu a sobrevivência, essa distribuição contribuiu com também com sua clandestinidade na história da arte. Assim, o presente projeto buscou reencontrar o material fragmentado e reconstruindo o sentido rompido imposto pela violência do regime. Resultam dos esforços da pesquisa, por exemplo, a reconstituição de séries distribuídas em diferentes residências (como podemos observar no ver inventário) e também o reconhecimento da relevância da produção deste engajado artista-militante.

[toggle title=”Saiba mais”]O ponto de partida para a pesquisa se deu com a ajuda do jornalista Alípio Freire. Como Benetazzo, Freire militou contra a ditadura, razão pela qual permaneceu preso entre os anos de 1969 a 1974. Foi nesse contexto que uma grande amizade surgiu entre os dois. Freire possuía em sua pinacoteca particular dezenas de obras do companheiro e essas foram as primeiras obras encontradas pelo curador. Essas obras já foram expostas ao público nos anos 90 na mostra “Pontos, linhas e planos: Benetazzo e seus camaradas”, organizada por Freire. Da visita à Alípio foi possível encontrar e fotografar cerca de cem trabalhos do artista, dentre esboços, estudos técnicos, caricaturas, desenhos, colagens e pinturas finalizadas. Em sua residência o jornalista ainda guardava materiais didáticos usado por Benetazzo no Cursinho Universitário e uma caixa, na qual se encontra uma espátula, um apontador de lápis, uma canetinha e várias unidades de giz pastel e de cera. Além desses materiais, o jornalista ainda contribuiu com seu testemunho sobre a trajetória política do artista e com a indicação de nomes de pessoas que poderiam contribuir com relatos ou com obras para a pesquisa.

Dessa lista o curador priorizou três nomes: Zuleika Alvim e as irmãs de Antonio, Itália e Nordana Benetazzo. O primeiro contato foi com a historiadora Zuleika, cujo acervo possui cerca de 15 obras de Benetazzo. Os dois se conheceram enquanto ambos trabalhavam no Cursinho Universitário na segunda metade da década de 1960, quando chegaram a dividir um apartamento no edifício Copan entre 1967 e 1969. Em função dessa proximidade, Zuleika teve a oportunidade de acompanhar o processo de criação de vários desenhos e telas do artista. Sua casa serviu ainda de abrigo durante a clandestinidade, entre 1971 e 1972, e foi lá onde o artista pintou suas últimas obras em que se autorrepresenta como guerrilheiro e também seu último quadro, interrompido com seu assassinato.

O segundo nome procurado foi a irmã mais nova do artista, Itália Benetazzo. Com uma diferença de dezenove anos, Itália pode relatar pouco sobre o irmão, já que tinha apenas 12 anos quando Antonio foi assassinado. Mesmo assim Itália se disponibilizou a emprestar as obras e os objetos que possuía do irmão: uma apostila sobre História da Arte preparada por ele para o Cursinho Universitário, dois diplomas escolares e nove livros com anotações do artista. Na casa de Itália foram localizados 11 trabalhos: um estudo de natureza morta, dois pequenos quadros da série “ideogramas”, dois da série “monstros”, um retrato de Itália e outras quatro pinturas variadas da segunda metade dos anos 1960.

Após o contato com Itália, o curador buscou Nordana Benetazzo, jornalista aposentada que, quatro anos mais nova que Antônio, teve uma relação mais próxima com o artista. Ao mudar de São Sebastião pra São Paulo na década de 1960, a relação dos dois se tornou ainda mais próxima. O acervo de Nordana é o que possui a maior variedade e quantidade de trabalhos realizados pelo irmão. Em sua casa foram encontradas também fotografias realizadas por Benetazzo: mais de cem imagens, entre contatos e ampliações, tiradas na década de 1960; entre elas vistas da cidade de Caraguatatuba, fotografias de viagens, detalhes da arquitetura paulistana, cliques de propagandas, retratos de populares nas ruas, reproduções de obras em museus. O encontro do curador com esse material sugeriu a hipótese de que a fotografia servia de estímulo a criação de desenhos e pinturas. Além das fotografias, foram encontradas 29 obras de Benetazzo da segunda metade dos anos 1960, fase de intensa e instigante criação, como partes das séries “ideogramas” e “monstros”, autorretratos, desenhos que mesclam grafismos, colagens e caricaturas. Um objeto também encontrado e bastante relevante para a pesquisa foi um álbum fotográfico contendo fotos da infância, da adolescência no colégio e inclusive fotos do “trote” que recebeu na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

O contato com Nordana levou o curador a mais dois outros nomes: o cineasta Francisco Ramalho Jr. e Cida Horta. O cineasta não possuía obras do Benetazzo, mas contribuiu contando sobre a participação do artista no campo cinematográfico, em dois projetos dirigidos por Ramalho. No curta-metragem Menina moça, que está desaparecido e que data provavelmente de 1966, Benetazzo participou como ator. Já no longa-metragem Anuska, manequim e mulher, de 1968, o artista participou como cenógrafo, diretor de arte e também como figurante em algumas cenas.

Cida Horta esteve próxima de Benetazzo no final de 1971 quando ambos faziam parte da oposição armada ao regime militar. Cida e Antonio atuar em 1972 no periódico Imprensa Popular, desenvolvido pelo MOLIPO e também viveram um romance. Quando Benetazzo foi assassinado, Cida estava grávida de uma menina que se chamaria Maria Antônia. Com medo da repressão do regime, Cida se exilou primeiro no Chile e depois em Cuba, onde Maria Antônia nasceu e tragicamente faleceu aos três anos de idade. Além de fornecer mais informações sobre a vida pessoal de Antônio, Cida possuía três obras do artista: uma da série “ideogramas” e duas belas colagens da segunda metade da década de 1960.

Após tentar contato com as pessoas mais próximas a Benetazzo e próximo de encerrar a busca por novas obras, o curador decidiu buscar contato com Rose Mary Telles Souza, uma professora de uma escola estadual de Caraguatatuba, responsável por organizar uma pequena pesquisa memorialística e testemunhal sobre a vida e a militância de Benetazzo com seus alunos do colegial. A conversa com Rose Mary rendeu novas informações sobre o paradeiro de outras possíveis obras. Primeiro no Arquivo Público do Município de Caraguatatuba e depois na casa de um amigo de infância do artista, Luiz Carlos Poloni. No Arquivo Público foi possível encontrar duas obras de 1963 no qual Benetazzo pintou os rostos de ex-namoradas e dois desenhos em preto e branco, aparentemente estudos em perspectiva de motivos urbanos. Na casa de Luiz Carlos Poloni foram localizou mais três pinturas, realizadas no final dos anos 1960, incluindo uma colagem e um autorretrato. Além das obras, Poloni foi presenteado em 1969 por Benetazzo com um exemplar do livro Literaturas estrangeiras, fascículos da coleção italiana I maestri del colore e vários discos de vinil.

A cada mês a pesquisa seguiu localizando em diferentes residências mais materiais do artista-militante. O projeto só foi possível em função da enorme ajuda de pessoas que foram próximas a Benetazzo que abriram suas casas, gavetas e recordações que permitiram reconstituição dessa trajetória e sua divulgação ao público amplo. Além dos nomes citados contribuíram com a projeto Daniel Fresnot, Ermínia Maricatto, Eliana Ferreira de Assis, Celso Nucci, Ana Corbisier, Claudio Tozzi, Eva Soban, José Luiz Del Roio, Luiz Fernando Manini, Marcelo Godoy, Maria Eunice Paschoal Homem de Melo, Maria Rita Kehl, Mario Prata, Paulo de Tarso Venceslau, Renato Martinelli, Ricardo Ohtake, Ricardo Scardoelli, Roaldo Fachini, Sérgio Muniz, Suzana Lisboa, Toshio Kawamura, dentre outros.

Além disso, a pesquisa realizada em documentos foi também essencial ao projeto. No Centro de Documentação e Memória da Unesp (CEDEM) o curador encontrou dez exemplares do periódico Imprensa Popular. No Arquivo do Estado de São Paulo encontrou mais treze edições provavelmente redigidas por Benetazzo. Além disso, no Arquivo do Estado De São Paulo, ao procurar no acervo do Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS), foi possível encontrar documentos produzidos por agentes da ditadura, nas quais mostra que o regime militar investigou a atuação do MOLIPO e do próprio Benetazzo. Ainda nesse acervo se copiou algumas notícias de jornais da época. A mais marcante delas é a datada de 2 de Novembro de 1972 que trata sobre a morte de Benetazzo. A matéria ‘“Cai aparelho do Molipo, dois terroristas morrem”, publicada em O Estado de S. Paulo, trata sobre o assassinato brutal do artista e relata como um atropelamento por um caminhão. Essa teoria há muito já foi desmentida.[/toggle]