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Vladimir Herzog foi um jornalista, desejava ser um cineasta, mas, vitimado pela ditadura, tornou-se uma personagem icônica da História do Brasil e da construção da nossa democracia. Sua vida e sua trajetória profissional, fundamentos da existência e da ação do Instituto Vladimir Herzog, foram marcadas por permanente preocupação humanística, que se refletiu em suas realizações jornalísticas e cinematográficas e está para sempre simbolizada em sua frase: “Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados”.

O cruel assassinato
Vladimir Herzog, o Vlado, foi assassinado no dia 25 de outubro de 1975, sábado, num antigo prédio da rua Tomás Carvalhal, no Bairro do Paraíso, em São Paulo, onde funcionava o Destacamento de Operações de Informações (DOI), departamento do Centro de Operações de Defesa Interna, (CODI), órgão subordinado à Segunda Divisão de Exército, parte da organização hierárquica do Comando Militar do Sudeste, sediado na capital paulista. Então diretor de jornalismo da TV Cultura e responsável pelo telejornal “Hora da Notícia” o jornalista fora procurado na noite anterior em seu local de trabalho por dois agentes que pretendiam levá-lo para “prestar depoimento” sobre suas supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro, agremiação que funcionava na clandestinidade desde o golpe militar de 1964. Após uma tensa negociação, Vlado comprometeu-se a se apresentar espontaneamente na manhã seguinte.

Chegou à sede DOI-CODI, às 8 horas, levado àquele endereço pelo jornalista Paulo Nunes, que cobria a área militar na redação da Cultura e dormira na casa do diretor da TV naquela noite para assegurar que ele se apresentaria na instalação militar logo cedo. Nunes foi dispensado na recepção e Vlado encaminhado para interrogatório. Foi então encapuzado, amarrado a uma cadeira, sufocado com amoníaco, submetido a espancamento e choques elétricos, conforme o manual ali praticado e seguindo a rotina a que foram submetidos centenas de outros presos políticos nos centros de tortura criados pela ditadura e financiados em boa parte por empresários que patrocinavam ações repressivas e de violação dos Direitos Humanos, como a Operação Bandeirante.

“Naquela cela solitária, com o ouvido na janelinha, eu podia ouvir os gritos: ‘Quem são os jornalistas? Quem são os jornalistas?’ Pelo tipo de grito, pelo tipo de porrada, sabia que estava sendo feito com alguém exatamente aquilo pelo que eu tinha passado “, recordou, em 1992, em depoimento ao jornal Unidade, do sindicato da categoria, o jornalista Sérgio Gomes, que estava preso no mesmo DOI-CODI em que Vlado se encontrava naquele dia. “Lá pela hora do almoço há uma azáfama, uma correria. Ele foi torturado durante toda a manhã e se dá o tal silêncio. A pessoa para de ser torturada e em seguida há uma azáfama, uma correria… A gente percebe que tem alguma coisa estranha acontecendo. Tinham acabado de matar o Vlado.”

A farsa do suicídio
Mas o assassinato brutal, por espancamento, não era o limite a que podiam chegar os feitores do regime ditatorial. Esquivar-se da responsabilidade pelo crime forjando uma inverossímil cena de suicídio seria o próximo passo dos torturadores. Com uma tira de pano, amarraram o corpo pelo pescoço à grade de uma janela e convocaram um perito do Instituto Médico Legal para fotografar a “prova” de que o preso dera fim à própria vida, em um surto de enlouquecido arrependimento por ter escrito uma confissão que aparecia rasgada, no chão, na imagem divulgada pelos órgãos de repressão. A cena da morte de Vlado, fotografada pelo perito do IML, foi representada pelo artista Elifas Andreato no quadro “25 de Outubro”.

Na pressa para montar esse circo macabro, ignoraram detalhes como o fato de Vlado ser mais alto do que a janela com grade onde supostamente enforcou-se e a rotina de encarceramento que tira dos presos qualquer instrumento com o qual se possam  enforcar, cintos e cadarços entre eles. Criaram, assim, uma mentira tão flagrante que a Sociedade Cemitério Israelita nem considerou a hipótese de enterrar o corpo na área reservada aos suicidas, como determina a prática religiosa. Mas, no Inquérito Policial Militar que viria a ser instaurado em razão da morte ocorrida em instalação oficial, o promotor Durval de Araújo – um defensor e protegido do regime – ainda sustentaria que o sepultamento aconteceu no setor de suicidas, recorrendo a depoimentos contraditórios e, mais que isso, se esforçaria para distorcer o que diziam vários depoentes. Por exemplo, a mãe de Vlado disse que sentiu que também queria morrer ao receber a notícia da perda do filho. E o promotor tentou registrar nos autos que ela “sentiu vontade de suicidar-se também”.

O promotor queria encerrar o assunto, mas a luta de sua esposa Clarice Herzog para esclarecer totalmente aqueles episódios viria a destruir, no futuro, seus argumentos, as distorções que enredava e a parcialidade de sua atuação.

A morte de Vlado e a História do Brasil
O assassinato de Vladimir Herzog se tornaria um desses raros episódios que marcam a História por muitos aspectos. Foi, naturalmente, uma tragédia para Clarice e para os filhos Ivo e André, bem como para centenas de amigos, milhares de jornalistas e milhões de brasileiros, violentamente privados da convivência, da camaradagem, da inteligência e do talento de um pai, amigo, companheiro, colega, profissional e cidadão que, aos 38 anos, teria ainda muito a contribuir para a história de cada um.

Mas foi também um momento que viria a impulsionar a luta pela redemocratização do país, a começar pelo ato ecumênico realizado na Catedral de São Paulo seis dias depois de sua morte, conduzido pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor James Wright, no qual oito mil pessoas enfrentaram o medo e os cercos militares para dizer “basta” de viva voz. “Aquele foi um momento de união de forças a partir do qual ficou claro para o regime que a sociedade civil caminharia determinadamente para a reconstrução da democracia”, diz Audálio Dantas, então presidente do Sindicato dos Jornalistas e um dos articuladores daquela manifestação.

Entre as muitas teorias construídas para explicar por que os algozes do regime mataram Vlado, há duas que se destacam. Uma delas o empresário José Mindlin, na época secretário da Cultura do Estado de São Paulo e responsável pela contratação de Vlado pela TV Cultura, ouviu do então governador Paulo Egídio quando apresentou sua demissão do cargo, em razão do assassinato: “Você está liberado”, disse-lhe o governador, conforme Mindlin narraria anos depois. “Mas sua saída enfraquece a corrente de resistência contra a ala radical do Exército que comanda a repressão. Eles pegaram o Vlado para pegar você. Pegariam você para me pegar. E me pegariam para derrubar o presidente.”

Segundo essa tese, o general Ernesto Geisel, presidente que então imprimia a chamada “política de abertura lenta e gradual”, enfrentava uma rebelião promovida pelos militares da “linha dura”, que tentavam demonstrar a existência de infiltração comunista nos aparelhos do Estado para justificar a continuidade e a intensificação da violência  do regime de exceção. “Nós, que fomos presos naquele momento, éramos como o marisco, entre a dureza das pedras e a violência da maré”, comparou uma vez o jornalista Paulo Markun, um dos 12 profissionais de imprensa que estavam na carceragem do DOI-CODI naquele dia fatídico do assassinato de Vlado.

A outra teoria supõe que era Geisel, orientado por um ideólogo do regime, o general Golbery do Couto e Silva, quem deixava a direita à vontade para a prática clandestina da violência contra militantes da esquerda organizada, com o objetivo de tirá-los do cenário da futura redemocratização, via “abertura”. Ninguém sustenta, no entanto, que a morte de Herzog tenha sido premeditada. Ocorreu pela desmedida violência na atuação dos torturadores. E gerou consequências que alteraram o rumo da História do país.

Em busca da verdade
Clarice Herzog seria reconhecida, nos anos posteriores, como uma heroína, por sua determinação em buscar a responsabilização do Estado pela morte do marido, desde o primeiro momento após o assassinato. Em 1979, por corajosa decisão do juiz Márcio José de Morais em processo movido pela família Herzog, a Justiça brasileira condenou a União pelo assassinato de Vlado. Apenas em 2013, a família teve nas mãos uma nova certidão de óbito, na qual a morte foi registrada como resultado de “lesões e maus tratos” infligidos no “II Exército (DOI-CODI)” –  um eufemismo ainda para abuso, tortura, homicídio, mas mesmo assim significativo de uma enorme transformação política ocorrida no Brasil com o impulso das forças democráticas que não esmoreceram diante do poder fardado e da violência.

Os depoimentos de Sérgio, Markun e outros jornalistas presos no DOI-CODI naquela data – entre os quais Anthony de Christo, Rodolfo Konder, George Duque Estrada, Diléa Frate e Luiz Weis – seriam fundamentais no esclarecimento da farsa. Tecnicamente, a descrição registrada no novo atestado pode estar certa. Mas, política e socialmente, as razões da morte de Herzog, além da tortura, foram o ódio, a intolerância, o preconceito, a discriminação e todas as outras formas de violência que levam à existência de mártires. Na verdade, sua trajetória demonstrava a determinação, isso sim, de superar o risco de se tornar um mártir e vencer a tragédia de perseguição racista que vivera ainda na infância.

A infância e a juventude de Vlado
Vlado Herzog era seu nome verdadeiro. Vladimir foi o modo que escolheu assinar porque lhe parecia na juventude menos exótico aos ouvidos brasileiros, numa decisão que, ao longo dos anos, os que conquistavam sua intimidade revertiam, adotando o nome oficial como um apelido carinhoso. Nasceu em 27 de junho de 1937, na Iugoslávia, em Osijek, hoje a quarta maior cidade da Croácia, cortada pelo Rio Drava pouco antes de sua confluência com o Danúbio e próxima da fronteira com a Hungria. Zora, sua mãe, fora para a casa de seus pais, Ziga Wollner e Sirena Wolf, para dar à luz. Ela e Zigmund, pai de Vlado, viviam na verdade em Banja Luka, hoje uma grande cidade da Bósnia e Herzegovina.

A Segunda Guerra eclodiria dois anos depois, o país seria ocupado pelo Reich em 1941 e a perseguição aos judeus levaria Zigmund e Zora a buscar refúgio por algum tempo na Itália, primeiro em Fonzaso, nas montanhas Dolomitas, depois em Fermo, na costa do Adriático. Em Banja Luka, os Herzog tiveram a casa confiscada por oficiais nazistas e dela nem os brinquedos do menino puderam tirar. Durante a permanência na Itália, o garoto rapidamente aprendeu o idioma do país e falava com os soldados fascistas em lugar do pai, que se fingia de mudo porque não conseguira aprender o italiano.

Tinha nove anos quando, depois da ocupação da Itália pelas tropas aliadas, a família foi enviada para Santa Maria al Bagno, onde os refugiados de guerra, apátridas, deviam escolher um país para se fixar. Os Herzog escolheram o Brasil, onde Vlado se naturalizaria. Os avós maternos, Ziga e Sirena, foram executados em Auschwitz. Os paternos, Moritz Herzog e Gisela, morreram no campo de extermínio de Jasenovac, na Iugoslávia.

Zigmund e a família desembarcaram no Rio de Janeiro do navio Philippa e seguiram para São Paulo, onde ele viria a trabalhar na área de contabilidade em negócios de Leon Feffer, fundador da Suzano Papel e Celulose. Zora contribuía para o orçamento doméstico servindo refeições para quatro rapazes que sublocavam um quarto em sua primeira casa. Cozinhava numa espiriteira. Depois se tornou sócia de uma confecção.

Franzino e um tanto tímido, com orelhas de abano que só adulto viria a corrigir numa cirurgia plástica, o filho encaminhou-se desde cedo mais para o mundo dos livros do que para as atividades esportivas. A mãe se preocupava com o garoto, que se alimentava pouco e abastecia sua lancheira escolar de frutas, pedindo aos colegas que o incentivassem a comer.  “Ele tinha a saúde um pouco frágil e não gostava mesmo de comer”, recordou, para um documentário gravado pelo cineasta João Batista de Andrade, o arquiteto Ruy Ohtake, que por sete anos frequentou com Vlado as aulas no Colégio Estadual de São Paulo. “Era um rapaz muito sério, sempre com um livro debaixo do braço. Foi por causa dele que fui ler Dostoievsky.”

Início da vida profissional

Num caminho natural para jovens intelectuais da década de 1950, Vlado foi cursar Filosofia na Universidade de São Paulo. Apaixonado por cinema, viajou com o amigo Maurice Capovilla para a Argentina, onde bateram à porta do Instituto de Cinematografia de Santa Fé, criado em 1956 por Fernando Birri , na Universidade Nacional do Litoral. Birri viria a tornar-se um grande amigo e chegou a se abrigar na casa de Vlado, em São Paulo, quando se exilou da Argentina, por problemas políticos.
Do envolvimento de Herzog com o cinema resultariam diversos trabalhos, entre eles o filme “Marimbás” (1963 ) –

primeira fita brasileira a utilizar som direto – que realizou no Rio de Janeiro; a gerência de produção do curta-metragem “Subterrâneos do Futebol” (1965), de Capovilla; e o início do roteiro do filme “Doramundo”, que só viria a ser filmado depois de sua morte, pelo mesmo João Batista de Andrade, que o homenageou com um documentário. “Vladimir acreditava no cinema como ferramenta de investigação e denúncia da realidade brasileira”, recorda João Batista, que realizou também diversas reportagens para o telejornal da Cultura no período em que Vlado dirigiu o jornalismo da emissora.


Sua carreira no jornalismo começou praticamente em paralelo ao trabalho com cinema, conforme recorda o jornalista Luiz Weis num longo e preciso depoimento escrito para o livro Vlado, retrato da morte de um homem e de uma época, organizado por Paulo Markun. Herzog e Weis, também colegas de colégio, estagiaram juntos no jornal O Estado de S. Paulo, em 1958 e foram admitidos na redação no ano seguinte, quando Vlado iniciou, simultaneamente, o curso universitário. Até então, ajudava a custear as próprias despesas trabalhando num banco em meio período.
O amigo, lembra Weis em seu texto, indignava-se com a realidade social e a corrupção brasileiras, mas não era um iniciado no mundo da política. O acontecimento que “faria estalar definitivamente o ceticismo com o qual Vlado se punha perante o mundo” seria, confome a narrativa, a vinda ao Brasil do pensador francês Jean-Paul Sartre, cuja visita o jovem repórter e estudante acompanhou detalhadamente. “Via Sartre, ele descobria o engajamento”, anotou Weis.


Londres e de volta ao Brasil
Na vida pessoal, aquele foi também o momento em que Vlado assumia um grande compromisso. Ele conhecera em 1962 a estudante de ciências sociais Clarice Chaves, com quem se casaria em fevereiro de 1964, a menos de dois meses do golpe apoiado por civis e praticado por militares contra o governo de João Goulart. E a ruptura no processo democrático teria consequências também na rotina do jovem casal, subitamente privado da convivência de dezenas de amigos e conhecidos, que partiram para o exílio, e bloqueado em suas perspectivas profissionais e intelectuais, com a instauração da ditadura. Herzog e Clarice mudaram-se em 1965 para Londres, onde ele foi trabalhar no serviço brasileiro da BBC, no qual já tinham emprego Nemércio Nogueira e Fernando Pacheco Jordão, ex-colegas de redação no Estadão, que se esforçaram pela sua contratação.
“Nesse período ele teve a oportunidade de conciliar o jornalismo com o cinema, descobrindo as possibilidades da produção de televisão”, diz Nemércio, que naturalmente conviveu bastante com Vlado em Londres. Ivo e André, filhos de Herzog e Clarice, nasceram na Inglaterra. Ela voltaria com eles para o país em setembro de 1968, enquanto Vlado concluía um breve curso de produção em televisão educativa e marcava seu retorno para o final do ano. Antes, decidiu encontrar seu amigo Fernando Birri na Itália e, em Roma, ficou sabendo da decretação do AI-5 no Brasil. O endurecimento do regime o deixou em dúvida quanto à possibilidade de retomar a vida no país e Vlado retardou o retorno em duas semanas. Tinha uma promessa de emprego na TV Cultura, mas essa porta se fechou porque seu nome já estava numa lista de supostos comunistas, profissionais naquele momento inadmissíveis numa empresa pública. Ele nem mesmo tinha simpatia pelo comunismo na época, mas suas amizades levavam os órgãos de informação a conclusões impossíveis de contestar.
Vlado trabalhou por um ano como produtor de comerciais, foi sondado para um emprego em Recife e acabou admitido como editor cultural na revista Visão, já nos anos 1970, acumulando por algum tempo essa função com o posto de secretário de redação na mesma emissora que algum tempo antes lhe havia negado trabalho. Fernando Jordão havia assumido o posto de diretor do telejornal e avalizou a contratação. Foi também nessa fase que Vladimir Herzog deu aulas de jornalismo na FAAP, de onde se desligou em solidariedade ao colega Perseu Abramo, demitido pela direção da escola.
Em casa, Vlado tinha uma relação intensa com os filhos pequenos, mas com cicatrizes de sua própria infância. “Ele não sabia brincar”, conta Clarice. “Não teve a oportunidade de aprender a fazer isso quando era menino e fugitivo da guerra. Tratava as crianças com carinho, mas sem aquela efusão quase infantil que muitos pais demonstram.” Apaixonado por pescarias, nas quais iniciou os garotos nas viagens à casa que alugaram por algum tempo em Ilhabela, Herzog também fazia eventuais incursões à cozinha, para preparar peixes e frutos-do-mar. Outro hobby era a fotografia. Em boa parte das fotos de família, Vlado não aparece porque estava atrás da câmera.
No trabalho, era um chefe sereno, mas exigente. “Ele chegou a pedir ao Otto Maria Carpeaux, autor da História da literatura ocidental, que reescrevesse um artigo”, lembra Zuenir Ventura , que, no Rio de Janeiro, fazia reportagens na sucursal da Visão para a editoria de Vlado. “E fez isso mais de uma vez.” Escrevendo raramente, mas planejando e coordenando importantes reportagens, numa redação que ia ao limite do que se podia publicar nos anos mais duros da ditadura, Herzog marcou época por realizar, entre outros trabalhos, um grande levantamento sobre a produção brasileira no campo da criação artística nos primeiros anos do governo militar, matéria que concluía pela existência de um grande “vazio cultural” no país.
Ao se tornar diretor de jornalismo na TV Cultura – indicado por Fernando Jordão, que tinha sido demitido numa diástole direitista na emissora e recusara o convite para voltar a dirigir o departamento na sístole que se seguiu – Herzog teve seu nome submetido à aprovação do Serviço Nacional de Informações, o SNI, órgão de controle político do regime, conforme contou, depois, o então governador Paulo Egídio. E foi aceito. Mas sua postura política e seu compromisso com uma prática jornalística voltada para a divulgação das notícias do Brasil real produziram reações e denúncias por parte de acólitos da ditadura – em especial do jornalista Cláudio Marques, do Shopping News, autor de notas que apontavam a infiltração comunista na TV estatal .


Vlado e a política
A prisão de Vlado foi uma entre dezenas de detenções determinadas pela Operação Jacarta, conduzida pelo DOI-CODI com a intenção de destruir bases do Partido Comunista em órgãos de imprensa, sindicatos e outras entidades. Vários jornalistas foram pegos bem antes que ele e pelo menos um, Paulo Markun, conseguiu fazer chegar a Herzog e a outros o aviso de que também estavam na mira dos sabujos do regime. O plano de Vlado para aquele fim de semana era viajar com Clarice e os filhos para um sítio da família, em Bragança Paulista. Os agentes o alcançaram horas antes da partida.
Um ponto sempre tratado com muita delicadeza por todos os amigos de Vlado diz respeito a seu nível de envolvimento com o Partido Comunista. Pode-se entender que, logo depois de seu assassinato, seria controverso expor sua militância ou não nas fileiras do PC porque isso turvaria a questão principal: a morte de um cidadão sob custódia policial em sessões de tortura conduzidas por agentes do Estado. Ninguém pode ser submetido a tratamento cruel, reza a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mas, para o correto registro na História, é sempre positivo deixar clara a realidade. Vlado era, sim, integrante do que se chama uma base do PC, no caso a base formada por jornalistas e à qual se ligou formalmente quando trabalhava na revista Visão.
“Fiquei espantada quando ele me contou sobre essa decisão, meses antes de morrer”, diz Clarice, recordando que estavam no carro da família, na Avenida Sumaré, em São Paulo, no momento em que Vlado contou-lhe sobre a filiação. “Mas você sempre foi crítico de regimes que não praticam a democracia”, ela ponderou. Ao que o marido respondeu: “É uma questão de momento. A situação política no Brasil é grave. Só há dois movimentos organizados que podem se articular para combater a ditadura – a Igreja e o Partido Comunista. Eu sou judeu. Só tenho uma opção”.
Até onde Vlado concordava ou não com a ideologia comunista em todos os seus aspectos é uma condição sobre a qual não cabe fazer afirmações categóricas, já que não se conhecem documentos em que ele tenha deixado registrada sua opinião. Mas é certo que Vladimir Herzog concordava com a linha de atuação do partido específica para aquele momento da História brasileira. Enquanto outras correntes de esquerda, algumas derivadas do próprio Partidão, ainda pregavam a luta armada ou tinham de fato entrado nessa prática, o PCB havia optado por confrontar o regime atuando nas frentes possíveis, como organização capaz de expor as mazelas sociais que o governo militar pretendia ocultar e de denunciar a violação dos direitos humanos nos porões da repressão. Vlado era, portanto, um adversário ideológico, avesso à violência, militante de uma sigla clandestina que buscava o fim do regime ditatorial. Um homem cuja vida e cuja morte, como vítima, ele mesmo, da insana ferocidade da ditadura, constituem o perfil de um herói.

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