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Mensagens de signatários do manifesto “Em Nome da Verdade”, de 1976

A pergunta feita foi: em que circunstâncias você assinou o documento? Por intermédio de quem o recebeu, onde trabalhava, que idade tinha etc.

José Gabriel de La Rocque Romeiro

Tomei conhecimento do documento quando ele ainda era apenas uma ideia. Eu era amigo de Fernando Pacheco Jordão como tinha sido também do Vlado Herzog. Logo que saiu o resultado do IPM, Inquérito Policial Militar, do II Exército com a versão do suicídio, Fernando me falou da ideia de elaborar um texto sereno e firme apontando as falhas do relatório. Nas palavras dele seria uma lista de perguntas, como se fosse uma pauta para a realização de uma
entrevista, que qualquer jornalista honesto poderia reconhecer como sua. Pouco tempo depois, logo no início de janeiro de 1976, Fernando me procurou dizendo que o texto estava pronto e me chamou para uma reunião em que ele seria apresentado para um grupo de jornalistas que, se concordassem, iniciariam a coleta de assinaturas e de dinheiro para custear a sua divulgação. Se bem me lembro compareceram cerca de quinze pessoas de praticamente todas as redações mais importantes de São Paulo. Com um quórum variável e geralmente mais baixo essas reuniões voltaram a acontecer duas ou três vezes nas semanas seguintes para avaliar o progresso do movimento.

O grupo, que iniciou a coleta de assinaturas, era informal. Não foi nomeado pela diretoria do Sindicato nem criado em assembleia. O único dirigente sindical que fazia parte dele era o próprio Fernando Pacheco Jordão; e nenhuma das reuniões foi realizada nas dependências do Sindicato. A ideia era demonstrar que quem questionava o resultado do
IPM eram os jornalistas das redações, a base da categoria. Ao Sindicato caberia apenas encaminhar o documento à Justiça Militar. E assim foi feito. Sete diretores assinaram a carta de encaminhamento, inclusive o próprio
Fernando, mas nenhum deles é signatário do documento. Eram 467 os signatários quando o Sindicato mandou o questionamento dos jornalistas para a Justiça Militar. Só que a essa altura o movimento continuava e o número de adesões ao documento não parava de crescer.

No momento em que se realizou a entrevista coletiva para divulgá-lo as assinaturas já passavam de 1 mil. O resultado da coletiva foi nulo. Ninguém imaginava que algum jornal fosse publicar nosso documento na íntegra, mas esperava-se, ao menos, que ele fosse resumido, com uma ou outra citação. Nada disso aconteceu. Os poucos que noticiaram se limitaram a dizer que o Sindicato dera uma coletiva para divulgar a posição dos jornalistas com relação ao IPM da morte do Vlado. Nenhum questionamento específico apareceu. Com o fracasso da coletiva só nos restava usar o dinheiro que tínhamos coletado com as assinaturas para publicar o documento como matéria paga.

Foi então que ele virou manifesto e ganhou o título Em Nome da Verdade. Surgiu, porém, um problema inesperado: quem se responsabilizaria pela publicação? Nós, do grupo de trabalho, pensávamos que o lógico seria o Sindicato. Afinal, já fora ele que encaminhara o documento para a Justiça Militar. Acontece que a diretoria não concordava conosco. Em uma reunião tensa, realizada nas dependências do próprio Sindicato, ela declarou que estava sofrendo violentas pressões da parte do comando do II Exército, inclusive com ameaça de intervenção na entidade, desde a realização do culto ecumênico na Sé uma semana depois do assassinato do Vlado. Entendia que seria uma irresponsabilidade colocar o Sindicato em risco. A publicação do documento ficou então por conta do grupo de trabalho. Como não tínhamos dinheiro suficiente para publicar em mais de um jornal escolhemos o Estadão. Achávamos que a Folha poderia recusá-lo mesmo como matéria paga. E, para evitar que uma possível represália dos órgãos de segurança desabasse sobre uma pessoa só, decidimos que a responsabilidade pela publicação seria assumida por um grupo. Quatro voluntários se apresentaram para integrá-lo: Fernando Pacheco Jordão, Perseu Abramo, Raimundo Pereira e eu. Fomos nós que demos os nossos nomes, RGs e assinaturas para o Estadão e garantimos a publicação do Em Nome da Verdade. Nessa época eu chefiava o jornalismo da Rádio e da TV Bandeirantes. Tinha 34 anos.

7/5/2021.