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Mensagens de signatários do manifesto “Em Nome da Verdade”, de 1976

A pergunta feita foi: em que circunstâncias você assinou o documento? Por intermédio de quem o recebeu, onde trabalhava, que idade tinha etc.

Roberto Müller Filho

Eu era diretor de redação da Gazeta Mercantil, além de companheiro, era amigo do Vlado. Havíamos trabalhado juntos na Visão. Ainda no calor dos acontecimentos, a Redação entrou em prontidão, aos cuidados de um pequeno grupo que aceitou ficar. Fomos em caravana à Igreja da Sé e nos dispensamos nas proximidades, por razões de segurança. O clima era de grande tensão. Logo que cheguei, vi o Anthony de Christo, que, junto com alguns companheiros que estavam presos, foram liberados para irem à missa. Permaneci o tempo todo ao lado dele. Levei-o depois para a Redação, para pô-lo ao nosso lado e protegê-lo. 

Lembro-me de que, num daqueles dias sombrios, consegui penetrar, disfarçado de convidado e na companhia de José Mindlin, numa recepção na inauguração da sede, ou de um clube, da Federação do Comércio, ou da Associação Comercial, não me recordo bem. A entidade era presidida por José Papa Jr. Mindlin era secretario da Cultura, a quem a TV Cultura era vinculada. Vi quando Geisel se aproximou dele e ouvi quando perguntou pelo Vlado. Mindlin elogiou-o e disse que jamais soube de algo que o desabonasse. O general Ednardo, truculento comandante do Ii Exército, que logo depois seria exonerado (quando do assassinato do operário Manoel Fiel Filho, no mesmo famigerado DOI-Codi), estava lá. Geisel e Ednardo não se falaram, sequer se cumprimentaram. Permaneceram de costas, um para o outro. 
Com tudo isso e meu passado de preso político, logo depois do golpe, ainda em 1964, como não assinar aquele documento? 

16/9/2020.