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Mensagens de signatários do manifesto “Em Nome da Verdade”, de 1976

A pergunta feita foi: em que circunstâncias você assinou o documento? Por intermédio de quem o recebeu, onde trabalhava, que idade tinha etc.

Omar L. de Barros Filho

Em Nome da Verdade:

Breves anotações sobre
Vladimir Herzog e Versus

I

A notícia do assassinato de Vladimir Herzog em cárcere político mudou o Brasil e, em consequência, alterou, também, minha vida – o que só percebo agora, ao refletir sobre aqueles acontecimentos, décadas depois. Lembro que a informação me atingiu como um humilhante um soco no queixo que deixa o sujeito na lona. Quando acordei, apesar de estar a mais de mil quilômetros de distância do trágico cenário, intuí que o episódio tinha potencial para marcar o princípio do fim da ditadura. Como se uma nova Revolução de Outubro fosse acontecer, deixei-me arrastar pela onda ecumênica que me jogou, aos 23 anos, na rodovia que liga Porto Alegre a São Paulo. Da estação rodoviária, rumei direto para a redação do jornal Versus, que então começava a funcionar no bairro de Pinheiros, entre as ruas Artur Azevedo e Teodoro Sampaio. 

Naquela manhã de dezembro de 1975, ao desembarcar do táxi em frente ao velho sobrado caindo aos pedaços da rua Capote Valente, 376, trazia na mala alguns textos sobre o mundo literário e épico do gaúcho Erico Veríssimo, morto em 28 de novembro daquele ano aziago, algumas semanas depois do funeral de Vladimir Herzog, Vlado, como era conhecido pelos amigos. Os textos ilustraram o número 2 de Versus, cuja capa estampava a chamada “Histórias de Nuestra América”, um sucesso na guerrilha das bancas. Ao me integrar à equipe daquela indisciplinada redação, pressenti, inquieto, que ali começava um jogo de tudo ou nada, algo que os dias não tardariam a confirmar. Mergulhei de corpo e alma na aventura. Vlado esteve sempre presente nela. 

Versus marcou a imprensa brasileira e, ainda hoje, é uma referência do jornalismo alternativo e engajado dos anos 1970. Durante os quatro anos em que resistiu nas bancas, o jornal representou, para mim, o que os sábios romanos cultos chamavam de obsessio, uma espécie de compulsão. A enfermidade, felizmente, não era exclusividade minha. Ampla, geral e irrestrita, a luta pela sobrevivência de Versus inspirou o leitmotiv de nossa opereta, obra que se transformou em um legado de seu criador, o repórter e editor Marcos Faerman. Brilhante, este era outro gaúcho que também deixara Porto Alegre para trás, abandonando a província para cavar trincheiras no asfalto da capital paulista. 

II

A história foi mais ou menos assim. Já consagrado como repórter especial do Jornal da Tarde e editor demissionário do polêmico EX, Faerman, em mais um gesto largo que o caracterizava, decide abrir as portas de uma nova publicação voltada à cultura da América Latina, lastreada (mas tropicalizada) no que havia de melhor na revista Crisis, de Buenos Aires.  A Crisis era o resultado dos talentos e dos esforços de um coletivo formado por Juan Gelman, Eduardo Galeano, Haroldo Conti e outros espíritos mágicos do continente. 

O produto final impresso de Versus era, no entanto, mais encantador. Fazia parte da receita de Faerman o alinhamento com a corrente do new journalism de Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote. Em resposta ao academicismo e ao jornalismo tradicional, Versus adotaria como sua as vozes de autores e de personagens até então marginalizados. Acolheria indígenas, migrantes, prisioneiros, religiosos e loucos. Fraterno, privilegiaria escritores desconhecidos, poetas, cineastas, músicos e malditos. Apresentar a realidade repressiva latino-americana e afro-brasileira em seus aspectos mais íntimos e obscuros foi um choque em nosso espírito provinciano muito mais acostumado e sensível aos assuntos e debates da moda em Paris ou Nova York. Versus trabalhava sobre os mitos, a história e as culturas do continente com emoção. O impacto das novidades temáticas de Versus foi enorme. Sua proposta gráfica era audaz, diferenciada, pop, sem referência alguma com a irmã mais velha, a Crisis

Vencido o primeiro ciclo de sua consolidação jornalística, política e econômica, e apesar de todas as dificuldades e carências materiais, Versus ampliaria sua rede de apoio entre leitores e colaboradores. Sucursais brotaram em diferentes capitais brasileiras, ao mesmo tempo em que surgiam correspondentes no exterior – Estados Unidos, Equador, México, França e Portugal. Mais maduro, o jornal deixaria, então, a sede da Capote Valente para se instalar próximo dali, na rua Oscar Freire, 2271, sim, o mesmo endereço em que residira o casal Clarice Herzog e Vlado. A mesma casa de onde Vladimir saíra, naquele dia triste para o Brasil, ao encontro das torturas e da morte nas mãos de seus verdugos. Vlado sempre conosco.

III

A conspiração e a guerra suja orquestradas pelo general Ernesto Geisel, em Brasília, arrastaria muitos companheiros para a cadeia e outros para endereços clandestinos, colhidos que fomos por uma tempestade que não prevíamos. Nosso serviço de meteorologia era o pior possível. Assim, por razões de segurança, a redação deixou a sede da Oscar Freire, que vivia sitiada por agentes da repressão, em direção a outro local, na rua Alfonso Bovero, 815, bairro da Pompeia. O assédio, porém, continuaria pesado: fornecedores de papel eram ameaçados com devassas fiscais, as gráficas impedidas de imprimir o jornal, distribuidoras abandonavam o barco. O pico da insânia seria a invasão e a depredação da redação por paramilitares durante uma madrugada nefasta. O passo seguinte foi a tentativa de censura prévia, um episódio tragicômico, no qual o policial encarregado (de nome “Dorivaldo”, segundo ele) acabaria expulso de nossa sede. 

A vingança do aparelho militar não tardaria. A mando governamental, a máquina contra-atacaria com uma investigação da Receita Federal e outra da Previdência, além de uma feroz diligência do Ministério do Trabalho. Enfim, todo o arsenal burocrático disponível seria utilizado para drenar as fontes de recursos e paralisar as atividades de Versus. O absurdo que contrariava a lógica cartesiana e a legalidade jurídica residia nas próprias demandas oficiais, que exigiam documentos contábeis e arquivos que haviam sido roubados durante a invasão noturna. Assim, nada mais a declarar.

Com medo de represálias, milhares de leitores desapareceram. Assinantes cancelaram o recebimento do jornal, cuja circulação alcançava, então, 30 mil exemplares mensais. Um desses leitores, que recebera de um amigo uma assinatura de presente, foi à polícia dizer que não tinha nada a ver com aquilo que estava escrito em Versus, que era inocente, portanto. Prestativo, o delegado de Extrema (MG) entrou em contato conosco, por carta, a solicitar que o amável “assinante” fosse esquecido por nós para todo o sempre.

IV

Enquanto resistiu, de 1975 ao final de 1979, a redação de Versus enfrentou a ditadura de peito aberto. Entre os repressores vigorava, então, a percepção de que éramos inimigos da pátria amada em carne e osso e, como tal, deveríamos ser varridos do palco editorial do país. Derrotados pelo regime, restou-nos como consolo a frágil democracia que herdamos algum tempo depois. Os arquivos da ditadura, hoje disponíveis, expressam a fúria governamental contra nós e os outros jornais independentes do país que naufragaram junto conosco, tal qual os galeões da Invencível Armada espanhola depois da batalha de Gravelines, no Canal da Mancha, no século XVI.

Como recordação daquelas atribulações, registro também os atentados a bomba contra as bancas que vendiam periódicos alternativos, o que fazia tremer as pernas de nossos colaboradores dos quiosques em ruas e avenidas. Estudantes que ofereciam o jornal de mão em mão em universidades e em escolas de nível médio receberam ameaças. Alguns até seriam presos. O mar secou, restou o sal.

O desaparecimento de Versus acabaria por confirmar o que os astros anunciavam desde os primeiros passos: a nossa própria morte. Logo, afirmar que nascemos para morrer precocemente não seria exagero. Vida curta, saudade eterna. Daqueles tempos longínquos, restaram vivências, imagens e amizades que seguem sem manchas. A mais tocante delas, talvez, seja o reconhecimento que foi reservado ao Versus quando da outorga, em 1979, do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. 

A matéria destacada levou o título “Carta Aberta de Um Torturado ao Presidente Geisel”, e foi publicada no número 23 de Versus, edição de julho/agosto de 1978. Produzi e editei o texto, um pungente, dramático e minucioso relato sobre as torturas sofridas pelo prisioneiro político Amadeu Almeida Rocha, uma explosão de dores em quatro páginas ilustradas por Rubem Grilo.  

A homenagem ressaltaria a escolha radical que levou boa parte da redação de Versus a combater pela opção socialista em um continente devastado por ditaduras; e pelo renascimento da imprensa negra no país, graças aos nossos colaboradores agrupados na editoria Afro-Latino-América, vanguarda no enfrentamento do racismo. Tais diretrizes guiaram-nos a marchar, ombro a ombro, com as forças democráticas brasileiras, o que resultou na formação do Movimento Negro Unificado (MNU) e na anistia, além da legalização de um partido de trabalhadores e de outras correntes socialistas. Vlado sempre junto de nós.

28/12/2020.

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