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Mensagens de signatários do manifesto “Em Nome da Verdade”, de 1976

A pergunta feita foi: em que circunstâncias você assinou o documento? Por intermédio de quem o recebeu, onde trabalhava, que idade tinha etc.

Miguel Jorge*

A morte de um jornalista

O clima político ainda era muito pesado quando o general Ernesto Geisel assumiu a Presidência da República, em março de 1974. Nas eleições de novembro, o Brasil assistiu à grande vitória do MDB, partido de oposição: 59% do Senado e 48% da Câmara, e ganhando a maioria das prefeituras das grandes cidades.

O governo de Geisel foi muito diferente de seus antecessores, especialmente dos generais Costa e Silva e Garraztazu Médici. Alguns de seus amigos pouquíssimos amigos mais próximos sabiam que, desde que assumiu, Geisel pretendia levar o País a uma abertura “lenta, gradual e segura”. Tomou algumas iniciativas surpreendentes: reatou relações diplomáticas com a China, reconheceu a independência de Angola e acabou com o Ato Institucional nº5, o famigerado AI-5 de tão tristes lembranças.

Já fora do governo, em 1985, apoiou a candidatura de Tancredo Neves contra Paulo Maluf, reduzindo as resistências ao político mineiro entre grande parte dos senadores e deputados. 

Mas o general presidente enfrentou grandes problemas com a linha dura do governo, formada por militares e alguns políticos da ultradireita. Esses grupos chegaram até a tentar depor o presidente, embora o movimento tivesse sido desmantelado em seu início.

Mas a direita se encastelara em vários setores, especialmente na área da segurança pública, entre eles o mais violento de todos: o Departamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna – o sanguinário DOI-CODI, que funcionava em unidades do Exército, com suas salas de interrogatório, tortura e morte de prisioneiros políticos – na maioria das vezes, depois de mortos, eram deixados nas ruas, como se tivessem sido atropelados por carros ou caminhões.

Nesse cenário é que encontramos a intimação da Vladimir Herzog para depor no DOI-CODI, o famigerado DOI-CODI, em 15 de março de 1976.

Diretor de jornalismo da TV Cultura, da Fundação Pe. Anchieta, presidida pelo empresário José Mindlin, durante o governo de Paulo Egydio Martins, Vlado, nome que adotou profissionalmente, trabalhara em O Estado de S. Paulo e na BBC de Londres.

Eu o conheci na TV Cultura: como editor de Política do Jornal da Tarde, eventualmente, era convidado para participar de programas de entrevistas da tevê, e sempre encontrava o Vlado, que costumava acompanhar os programas com os convidados que considerava mais interessantes. Tranquilo, pacato, sempre falando com voz baixa e pausada, passava uma enorme tranquilidade. Era o que chamávamos de um bom sujeito.

Militante do Partido Comunista Brasileiro, PCB (o Pecezão), era um ideólogo, que nunca praticou qualquer ato de força de qualquer espécie. Talvez por isso, não deu importância ao aviso do jornalista Paulo Markun de que ele estava a prestes a ser preso. Por isso, se apresentou tranquilamente ao DOI-CODI paulista. 

Vlado foi levado ao quartel por Paulo Nunes, um colega jornalista da Cultura e setorista da área militar (isso existia nos jornais da época!), que simplesmente entregou seu amigo na porta do quartel e foi embora. Nenhum diretor da Cultura se interessou pelo que poderia acontecer com Vlado. Outros de seus amigos, como os também jornalistas George Duque Estrada e Rodolfo Konder, já estavam presos quando ele chegou para ser interrogado.

No mesmo dia da prisão de Vlado, o jornalista Marco Antônio Rocha, do Jornal da Tarde, também tinha sido intimado para se apresentar ao DOI-CODI. Ruy Mesquita, diretor do JT, como o jornal era conhecido, tinha uma enorme coragem e independência políticas, O mesmo jornalista Paulo Markun, em abril  de 2004, ao vivo, no programa Roda Viva, da mesma TV Cultura, contou quem em maio de 1976, desempregado há oito meses, depois de preso e acusado de comunista, procurou o Ruy e foi imediatamente contratado.

O Ruy foi a grande diferença na prisão de Marco Antônio: ele levou seu funcionário até o quartel do Exército, apresentou-se à sentinela e exigiu a presença de um oficial. Apareceu um tenente, com quem Ruy se recusou a conversar, até que chegou um coronel. Ruy foi claro e direto:

– Coronel, veja o senhor que meu funcionário está entrando em seu quartel vivo e inteiro, sem um arranhão. Quero recebê-lo da mesma maneira: vivo e inteiro.

Vlado entrou no quartel, foi visto por Duque Estrada e Rodolfo, que, horas depois, ouviram os gritos de seu amigo sendo torturado. Foram espancamentos, choques elétricos e afogamento. Vlado não resistiu: morreu asfixiado.

Marco Antônio entrou no mesmo quartel e saiu vivo, sem ser torturado fisicamente.

A morte e a farsa do suicídio de Vlado, apresentada pelos militares, juntamente com uma foto em que ele aparece com uma corda no pescoço, amarrado nas grandes de uma cela, e praticamente ajoelhado, causou uma enorme onda de protestos pelo País. Em 31 de outubro, o rabio Henry Sobel, o cardeal Paulo Evaristo Arns e o pastor Jaime Wright celebraram um culto ecumênico na Catedral da Sé, em homenagem a Vlado, e assistido por oito mil pessoas, que se amontoavam na igreja e se espalhavam pelas escadarias e pela praça em frente, tudo cercado por centenas de policiais.

Em janeiro de 1976, no mesmo DOI-CODI, após ser duramente torturado morria o operário Manoel Fiel Filho. Dias depois, Geisel demitiria o general Ednardo D’Ávila do comando do II Exército.

Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho passaram a fazer parte da lista dos 240 mortos pela ditadura.

Em 6 de janeiro de 1976, o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo divulgou o manifesto “Em Nome da Verdade”, assinado por 1.004 jornalistas, e que contestava a versão do DOI-CODI sobre a morte de Vlado. Era a primeira contestação pública da fantasiosa versão oficial da morte do jornalista. Nenhum jornal publicou o documento – uma ação entre amigos arrecadou uma quantia que permitiu sua publicação como matéria paga no jornal O Estado de S. Paulo de 3 de fevereiro de 1976.

As circunstâncias que me levaram a assinar o manifesto foram a revolta, a indignação e a obrigação moral de me manifestar.

Eu tinha 30 anos na época.

Vladimir Herzog nunca mais foi esquecido.

* Miguel Jorge, jornalista, foi diretor de Redação de O Estado de S. Paulo. Quando Vladimir Herzog foi preso, era editor de Política do Jornal da Tarde, junto com Marco Antônio Rocha, preso no mesmo dia que Vlado.

27/1/2021

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