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Heroínas desta História

 

Sobre o projeto

A intenção é dar visibilidade às trajetórias de mulheres que perderam seus familiares em decorrência de intervenção do Estado durante a ditadura militar e também no presente, sobretudo em decorrência de intervenção policial. Para tanto, propõe-se a organizar uma publicação que retrate essas histórias, entremeando os perfis com artigos que estimulem a reflexão sobre a questão de gênero e a violência de Estado da ditadura militar.

A ideia é que os capítulos, embora documentais, sejam dotados de um tom literário e acessível a pessoas não necessariamente iniciadas no tema. A intenção é nos afastarmos de uma estrutura enciclopédica e historiográfica, aproximando-nos de uma perspectiva sensível e sutil para retratar a luta dessas mulheres.

A primeira edição versará sobre familiares de vítimas do regime militar. O Instituto Vladimir Herzog tem a intenção de que a publicação se transforme em um projeto permanente, com edições bianuais, a fim de dar conta da ampla diversidade de potenciais perfis. Afinal, são muitas as “Marias e Clarices”, justamente a exemplo de Clarice Herzog, fundadora do IVH, cujas histórias merecem ser conhecidas e disseminadas.

O primeiro volume terá ao menos 15 perfis, entre de mais de setenta histórias mapeadas em um levantamento inicial: Eunice Paiva, Ana Dias, Damaris Lucena, Carolina Rewaptu, Diana Piló, Tereza Fiel Filho, Clara Charf, Clarice Herzog, Ilda Gomes, Crimeia Schmidt, Marli Coragem, Elzita Santa Cruz, Zuzu Angel, Elizabeth Teixeira, Genivalda Melo da Silva, Maria José de Araújo. Os perfis tocam em diferentes aspectos da ditadura militar brasileira e abrangem as diversas regiões do país, retratando um mosaico de resistências cotidianas.

Ouça a entrevista de Carla Borges e Tatiana Merlino, coordenadoras do Heroínas dessa História no Espaço Vladimir Herzog de Direitos Humanos na Rádio Brasil Atual:

 

 

Direito à Memória, à Verdade e à Justiça

Durante a ditadura militar brasileira, as mulheres atuaram em diversas frentes na resistência ao regime e na luta por democracia. É notável seu protagonismo na mobilização pela anistia política e também nos diferentes movimentos que se organizaram para fazer face aos desmandos do período. Nesses percursos, sofreram toda sorte de violações, invariavelmente associadas e agravadas pelo fato de serem mulheres.

No entanto, embora recentes iniciativas tenham procurado lançar luz sobre a questão de gênero e a resistência à ditadura militar, pouco ou quase nada se fala sobre as mães, esposas, filhas, irmãs e amigas daqueles e daquelas que morreram nas mãos dos agentes da repressão, nem de sua batalha para manter viva a sua memória e exigir do Estado as respostas devidas até hoje. Trata-se de histórias que permanecem em grande parte invisíveis. Desaparecidas, assim como as vidas das pessoas que se opuseram àquelas arbitrariedades. O mesmo se pode dizer sobre as familiares de pessoas desaparecidas na atualidade ou dos mais de 4 mil jovens mortos anualmente em decorrência de ação policial.

“Onde estão os nossos desaparecidos e desaparecidas?”; “O que aconteceu com essas pessoas?”; “Quando teremos justiça?”. São questões que permanecem sem respostas, ecoando como uma ferida aberta. Cobrar do Estado sua responsabilidade em respondê-las e em realizar ações de reparação, de busca da verdade, de garantia da justiça e de revisão das permanências autoritárias dentro das instituições se tornou, para muitas, a principal razão de vida.

Graças à incansável determinação dessas mulheres – apesar das frustrações que se acumulam diariamente, mesmo em tempos de democracia – foi possível recuperar algumas peças desse quebra-cabeças que tanto custa a fechar. Sua atuação tem contribuído para o ainda incompleto processo de transição para a democracia e criou importantes referências na luta por justiça para os crimes cometidos.

Essas trajetórias fazem parte da nossa história. São posturas inspiradoras e servem como um incentivo para que todos nós, sobretudo as mulheres de todas as idades e das mais diversas origens, se sintam encorajadas a seguir em suas batalhas diárias por igualdade e por direitos. Contribuem também para compreender, a partir de vivências e relatos, a importância do protagonismo feminino na construção da nação e no fortalecimento da democracia.

Conhecê-las é fundamental para preencher os espaços em branco gerados pela violência de Estado e para não deixar que essas violações voltem a acontecer. E também, por fim, para reparar, minimamente, o lapso histórico e reiterado de deixar de dedicar-lhes o devido reconhecimento por defenderem o direito de todos nós à memória, à verdade e à justiça.
 

 

Rodas de Conversa

Heroínas dessa História propõe, além da publicação impressa, uma série de rodas de conversa que possam democratizar junto ao público algumas das principais descobertas e informações levantadas durante a pesquisa. Em 2018, foram dois encontros organizados pela coordenação do projeto. No dia 04 de dezembro, na Caixa Cultural São Paulo, a convidada foi a jornalista Jéssica Moreira, cofundadora do Nós, mulheres da periferia, repórter na Agência Mural de Jornalismo das Periferias e uma das autoras do primeiro livro do projeto. O tema discutido com alunos da rede pública foi “Vivências femininas sobre a violência de Estado no passado e no presente”.

Já no dia 15 de dezembro, o Instituto Vladimir Herzog realizou outra roda de conversa, desta vez com a histórica militante política Criméia Schmidt de Almeida, que há anos trabalha na Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Realizado na Unibes Cultural, o evento promoveu um diálogo sobre as mulheres que tiveram familiares mortos pelas mãos dos agentes da ditadura militar e fizeram de suas vidas uma permanente luta por Memória, Verdade e Justiça. Veja as fotos abaixo:

Crédito das imagens: Carolina Vilaverde/InstitutoVladimirHerzog