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Uma casa para Vlado vivo

Artigo do Estadão de 14/05/2009

Família e amigos criam em junho, quando jornalista faria 72 anos, o Instituto Vladimir Herzog

Gabriel Manzano Filho

A tarefa dos homens, a cada tempo, não é só preservar o passado, mas realizar as suas esperanças. Foi nesse famoso pilar, plantado pelo filósofo Walter Benjamin, que se inspiraram a família e os amigos de Vladimir Herzog para dar uma virada em três décadas de homenagens rotineiras e anunciar, para o dia 25 de junho, a criação do Instituto Vladimir Herzog.

A data diz tudo. “No dia 27, meu pai estaria completando 72 anos”, lembra o engenheiro Ivo Herzog, 42 anos, filho mais velho do jornalista. “O que queremos é que ele e o instituto sejam identificados com a vida, com o hoje. Com a figura do Vlado ativo, jornalista, fotógrafo, cineasta, ligado a rádio e TV, professor da ECA. Um homem multimídia, como tantos de hoje, mas bem à frente de seu tempo. E também ligado à defesa dos direitos humanos”, diz ele.

O ministro Paulo Vanucchi e autoridades ligadas à causa devem comparecer à cerimônia de fundação, na Cinemateca. O programa incluirá homenagens a dom Paulo Evaristo Arns, ao rabino Henri Sobel e, in memoriam, ao pastor James Wright – as figuras que deram apoio à família e enfrentaram a ditadura quando Vlado foi morto.

A ideia, que já existe como site, surgiu há um ano. Ivo, sua mãe Clarice, o irmão André e muitos amigos estavam insatisfeitos com a imagem que ia ficando de Vlado – morto, pendurado numa janela, numa montagem grosseira para simular seu suicídio. Queriam, além disso, retomar uma participação mais direta no prêmio Vladimir Herzog.

Além disso, antecipa Clarice, o plano é criar um espaço físico em que se reúna a documentação – textos, fotos, filmes – para que seja usada por estudantes, principalmente. “Somos sempre procurados para falar dele, contar como tudo aconteceu naquele ano, reviver a história. Isso tem de ser organizado”, avisa a empresária. Daí a missão do instituto: “Contribuir para a reflexão e produção de informação voltada ao direito, à justiça e ao direito à vida.”

Mas há um longo caminho pela frente. Com apoio de várias instituições, como OAB, ABI, Sindicato de Jornalistas e Comissão de Justiça e Paz, o grupo tem de correr atrás de recursos. Uma das saídas é aLei Rouanet. Fisicamente, ficarão de início em um prédio da Bela Vista. E a nova entidade chega com mudanças no prêmio: agora estudantes poderão inscrever seus projetos de matérias e as melhores ideias serão patrocinadas.

O jornalista Sérgio Gomes, velho amigo dos Herzog, é um dos entusiastas da causa. “O Vlado era um multimídia já naquela época. Mas por que lembrar só dele? E os outros, suas esperanças e lições? E como viver na prática, hoje, o que todos eles sonhavam?”

Outra das ideias é valorizar o que chamam de “direitos humanos intangíveis” – temas como corrupção ou atentados ao meio ambiente, cujo estudo vão valorizar.

E para sua luta Ivo traz à memória um episódio recente com dom Paulo. “Foi ele quem primeiro nos acendeu a chama, em um encontro no qual me passou um pequeno pedaço de papel. Pedia que, pela memória de meu pai, fizéssemos alguma coisa na direção de paz, solidariedade e vida”, recorda. Ele espera que o instituto seja a resposta.

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