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Aplicativo #SP64 é lançado oficialmente na Praça Memorial Vladimir Herzog

Aplicativo #SP64 é lançado oficialmente na Praça Memorial Vladimir Herzog

App gratuito de geolocalização pretende manter viva a memória da ditadura nas ruas de São Paulo entre o público jovem

No último sábado, dia 24 de junho, o aplicativo #SP64 foi oficialmente lançado durante comemoração aos 80 anos de vida de Vladimir Herzog. O evento aconteceu na Praça Memorial Vladimir Herzog e contou com a presença da família Herzog e amigos. O objetivo do app de geolocalização gratuito é resgatar e manter viva a memória da ditadura civil-militar pelas ruas de São Paulo, notificando os usuários ao passarem pelos lugares marcados com acontecimentos importantes no período. É possível também explorar os locais históricos da ditadura pelo mapa, pela linha do tempo, por região ou por categoria. Além disso, as pessoas podem assinalar os locais visitados e compartilharem nas redes sociais, multiplicando assim o conteúdo para que tenha maior alcance.

Clique aqui para ver como foi o evento Vlado 80 Anos na Praça Memorial Vladimir Herzog.

Hoje disponível para download em celulares Android (Google Play) e iOS (App Store), o aplicativo #SP64 foi contemplado pelo ProAC 2015 e é uma realização da Peripécia Filmes e do Memorial da Resistência, que cedeu seu banco de dados com o mapeamento dos lugares de memória da cidade de São Paulo, com apoio do Instituto Vladimir Herzog.

Tiago Marconi, idealizador do projeto, apresentou o app no dia 24 e concedeu uma entrevista ao IVH. Confira a conversa:

 

1) Como surgiu a ideia de criar o aplicativo #SP64?

A ideia do aplicativo surgiu em um momento em que eu estava vendo muitos filmes sobre a ditadura civil-militar, um assunto que me é literalmente familiar (minha mãe foi presa e torturada grávida, seu primeiro marido foi assassinado pela repressão). Já tinha visto o excelente ‘Cidadão Boilesen’ e, depois de ver o ‘Marighella’, o fato dos dois terem sido mortos em lugares próximos, em um bairro muito movimentado e central, me chamou a atenção. Fiquei com uma sensação de “tanta coisa aconteceu nesses lugares onde todo mundo passa todo dia e a gente não sabe, não lembra, não se importa…”. Lembrei da iniciativa de um amigo, o site “fogo no barraco”, que era um mapeamento dos incêndios em favelas em São Paulo durante a gestão Kassab e pensei em fazer algo parecido e achei que um aplicativo de geolocalização, que avisasse “olha, aqui mataram o Marighella” quando a gente passasse seria muito interessante. Só depois eu descobriria que o Memorial da Resistência de São Paulo já tinha esse mapa [que serviu de base de dados para o aplicativo].

 

2) Qual a formação da equipe que conduziu o projeto?

Quem idealizou o projeto comigo e me incentivou a correr atrás de financiamento, a parceira de primeira hora mesmo, foi a Julia Salles, que estuda narrativas interativas, entre outras coisas, em Montreal, e é minha amiga de adolescência. A gente queria fazer um webdoc sobre alguma coisa, foi contando das ideias, contei do aplicativo, ela se empolgou e afinal virou consultora de design de interatividade. Por sugestão dela, convidamos o André Paz, também especialista em narrativas interativas, que acabou coordenando o conteúdo digital. Com o projeto já aprovado, procurei o Memorial da Resistência, que tem uma base de dados incrível em cima da qual construímos o aplicativo e cuja equipe foi responsável pelos textos do app e pelas fotos. Em seguida se juntaram a Ariane Corniani, designer com muita experiência em web que definiu de fato a cara do app e, por sugestão dela, o Cristovam Ruiz, programador, que juntou a forma com o conteúdo e botou para funcionar.

 

3) Na sua opinião, qual a importância de um aplicativo que reconstrói parte de nossa história?

A importância do aplicativo em si, para mim, é difícil dizer porque ainda não sei a repercussão que ele terá. Mas a ideia é que ajude a preencher uma lacuna enorme que temos enquanto sociedade no nosso conhecimento sobre nós mesmos, sobre nossa história, sobre nosso desenvolvimento enquanto povo. A falta de perspectiva histórica na nossa sociedade não se restringe ao período da ditadura. Arrisco dizer que especialmente em São Paulo, porque tenho a impressão de que em Salvador, por exemplo, onde nasci, as pessoas sabem mais sobre a história da cidade, sabem quem foi Joana Angélica, quem foi Tomé de Souza, onde teve troca de tiro de canhão com os portugueses… Mas pode ser só impressão minha. Porém no caso da ditadura civil-militar, por ser tão recente e tão extrema, é uma aberração a falta de memória, fomos incapazes de construir uma narrativa hegemônica que condene com a devida veemência esse período terrível da nossa história recente. E isso, a meu ver, passa por não ter julgado ninguém ainda lá nos anos 80. As várias iniciativas louváveis para acertarmos as contas com esse período claramente não foram suficientes, a ponto de termos homens públicos que fazem apologia –impunemente – a torturador no plenário da Câmara dos Deputados. Aí quem tem 20, 15 anos, e não convive com quem sofreu na carne o terror daquele período acha que foi uma coisa normal, que era um período de extremos, que “os dois lados” cometeram excessos e toda essa naturalização da barbárie com que volta e meia nos deparamos. A ideia do aplicativo é que a molecada, principalmente, tenha a dimensão espacial urbana do que foi aquele período, “nossa, tinha um centro de tortura do lado da minha casa”, e isso ajude a criar uma perspectiva histórica.

 

4) Qual a maior dificuldade para finalizar o projeto?

A maior dificuldade para finalizar o projeto, talvez a única, foi minha falta de experiência com aplicativos. Sou formado em audiovisual, tenho uma produtora, conheço o processo de fazer vídeos. Nunca tinha feito um aplicativo, portanto não soube prever os gargalos, que partes do processo demorariam mais, o que exatamente o programador teria que fazer em cada etapa, essas coisas. Ainda assim, apesar dos atrasos, acho que o projeto andou razoavelmente. Acho importante registrar a paciência e a boa vontade da equipe do ProAC, que em todos os momentos foi muito atenciosa, gentil e demonstrou interesse em que o projeto acontecesse da melhor maneira possível. Costumamos ver a burocracia pública como uma selva hostil kafkiana e, ainda bem, nesse caso foi o oposto disso.