História do Projeto

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RESISTIR É PRECISO…

OBJETIVO DO PROJETO

Este projeto vai resgatar e contar a trajetória de uma imprensa brasileira que, com a explícita intenção de resistir e combater o golpe de 1964, nasceu, cresceu e se expandiu no exílio, na clandestinidade e nas bancas de jornais, quando foi possível publicá-la… No exílio, na clandestinidade ou nas bancas, essas três formas de, pela imprensa, resistir ao golpe e à ditadura fazem parte de um cenário maior que está encravado na historiografia e na tradição brasileiras: a circulação de jornais para a difusão de ideias… concorde ou não o poder instituído. Não custa lembrar que o “Correio Braziliense”, marco do nascimento da imprensa brasileira, em 1808, era editado no exílio – Londres – e distribuído clandestinamente para escapar das garras da censura da corte portuguesa que, aliás, se mudara de mala e cuia para a colônia em maio de 1808, fugindo do imperialista Napoleão Bonaparte. Um versinho criado na época logo percorreu os becos da cidade do Rio de Janeiro: “… Portugal não acovardou-se… cobriram Portugal com um pano e escreveram em cima: Portugal mudou-se!” A força demolidora do humor sempre foi uma arma poderosa dos jornalistas, cartunistas e escritores que enveredavam pelos caminhos da resistência ao poder arbitrário, opressor ou, simplesmente, pelo questionamento direto do poder constituído.

PESQUISA: O PRIMEIRO PASSO

Em maio de 1964, um mês depois do golpe militar da noite de 31 de março para 1º de abril, o jornalista Millôr Fernandes fundava, no Rio de Janeiro, a revista PIFPAF e tinha como colaboradores a nata dos jornalistas, escritores e cartunistas da época. Gente como Sérgio Porto, Rubem Braga, Antônio Maria, Ziraldo, Claudius, Fortuna…

A revista, com periodicidade quinzenal, tinha como principal ferramenta o humor político, crítico, irreverente. Tanto que, na última página do número 8, a PIFPAF fez uma espécie de Advertência: “se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia”.

O país não caiu numa democracia, muito pelo contrário e mais: o governo militar não deixou mais a revista circular. O número 8 foi o último da revista PIFPAF, que saía de cena sufocada pela censura. Assim, a revista é a primeira publicação do que se convencionou chamar de imprensa alternativa, que proliferou exponencialmente no período de 1964 – o golpe militar – à anistia promulgada em agosto de 1979.

Foram nestes 15 anos que estes três “tipos” de imprensa (a alternativa, a que circulava no exílio e a que tentava sobreviver na clandestinidade) tiveram o seu momento mais fecundo. É neste período de 15 anos que vamos concentrar o nosso trabalho, a nossa pesquisa.

Imprensa Alternativa
Algumas Informações preliminares

Estudos e pesquisas já realizadas indicam que, só de alternativo, ou seja, legais, seriam mais de 300 publicações conhecidas. Por conta do caráter regional das iniciativas, acabaram circulando jornais alternativos em praticamente todo o Brasil. Algumas publicações ficaram mais conhecidas: “Folha da Semana”, “Bondinho”, “Em Tempo”, “Coojornal”, “Opinião”, “Movimento”, “Versus”, “Ex”, “Repórter” e a mais famosa de todas, “O Pasquim”. Em seu primeiro número, como para deixar claro o tipo de humor escrachado e debochado que pretendia adotar – e adotou – “O Pasquim” colocou na capa o então mais influente cronista social do Rio de Janeiro, Ibraim Sued, famoso por suas cretinices…

Se a revista PIFPAF é o marco inicial das publicações alternativas, já se sabe, por exemplo, que apenas cerca de 25 títulos tiveram uma vida que teria conseguido passar dos cinco anos. Ainda sob este rótulo de imprensa alternativa há de se destacar as publicações que passaram a representar movimentos sociais que logo encontraram grande respaldo na sociedade. O movimento de mulheres, por exemplo, lançou pelo menos três jornais: “Brasil Mulher”, “Mulherio” e “Nós Mulheres”. Homossexuais lançaram “O Lampião”, dirigido por Aguinaldo Silva. O movimento dos negros publicou, em São Paulo, o jornal alternativo “Palmares” que chegou a ir para as bancas, mas não teve uma vida muito longa. Segundo o professor Clóvis Moura, em depoimento ao jornalista Rivaldo Chinem, os negros se comunicavam mais oralmente e se houve outras publicações era algo que circulava de mão em mão, como o “Ébano”, que teria sido publicado entre 1975 e 1979.

E são muitas as pesquisas, publicações e levantamentos sobre a imprensa alternativa. A escritora Olga Defavari, por exemplo, lançou o livro “Imprensa Alternativa no ABC – A História Contada pelos Independentes”. A autora fez um balanço de todas as publicações independentes que surgiram no ABC desde a década de 70, com destaque para o “Jornal da Taturana”, criado e publicado por vários anos por Cláudio Feldman e Moacir Torres que durou 64 edições.

Alternativa? Pequena? Nanica?
Mesmo durante o período em que circulou, esse tipo de imprensa nunca teve unanimidade em relação ao seu conceito e a como chamá-la: alternativa, pequena, opinativa, nanica, contraponto…
Em seu artigo “Imprensa Alternativa”, o pesquisador Sérgio Caparelli trabalha com dados coletados através de formulários enviados às redações de diversos órgãos de imprensa alternativa, em janeiro de 1979. Ao discutir os termos usados como seus sinônimos, Caparelli reforça como alternativa a melhor opção, e não os demais sinônimos utilizados tais como nanica, opinativa, política.

O autor entende que toda publicação da imprensa é opinativa e política. Na grande imprensa, a opinião dos jornais, teoricamente, estaria sempre presente nos editoriais e o restante do jornal seria objetivo, neutro e imparcial, o que para Caparelli também não procede: “um editor do New York Times ressaltou a importância das manchetes do jornal em relação ao editorial ao afirmar ‘Let me control the headlines and I shall not care who controls the editorials’ (Deixe-me controlar as manchetes e eu talvez não me importe tanto com quem controla os editoriais). Não só as manchetes expressam a opinião do jornal como interessava à direção controlá-las”.

Além de designar práticas não ligadas à cultura dominante, alternativa também significa optar entre duas coisas reciprocamente excludentes, a única saída para uma situação difícil e o desejo de protagonizar transformações. A imprensa alternativa dos anos 70 era tudo isso ao mesmo tempo. Em contraste com a complacência da grande imprensa para com a ditadura militar, os jornais alternativos faziam a crítica sistemática do modelo econômico. Inclusive nos anos de seu aparente sucesso, durante o milagre econômico, de 1968 a 1973, destoando, assim, do discurso triunfalista do governo ecoado pela grande imprensa, construindo dessa forma todo um discurso alternativo (KUCINSKI, 1998).

Para Caparelli, a imprensa alternativa, apesar de ter sido bastante expressiva durante o regime militar, está presente em muitos outros momentos da história política e social, não só do Brasil, como de vários outros países. No entanto, foi nesse período de exceção e, especialmente, de forte controle dos meios de comunicação de massa, que esses veículos se multiplicaram e atuaram com maior intensidade.

Os conflitos humanos, assim como novas categorias para explicar a vida, serviram como pano de fundo para a criação de periódicos nessa linha. “Beijo” (Rio de Janeiro, 1977), por exemplo, discutia abertamente questões como homossexualidade e prazer. Os ideais feministas também tiveram lugar nas páginas desses jornais: “Brasil Mulher” (Londrina, 1975) e “Nós Mulheres” (São Paulo, 1976) foram alguns dos representantes desse núcleo, inspirado, especialmente, nos textos de Simone de Beauvoir.

O jornal “Opinião”, criado em 1973, talvez seja o melhor exemplo da confluência do que Kucinski pontua como influência de três atores sociais na formação da imprensa alternativa brasileira: as esquerdas, com seu desejo de protagonizar transformações; jornalistas buscando alternativas ao fechamento de seus espaços na grande imprensa; e intelectuais, encurralados pelo ambiente repressivo que se instalou nas universidades: “É na dupla oposição ao Estado militar e às limitações à produção intelectual-jornalística sob o autoritarismo que se encontra o nexo dessa articulação entre jornalistas, intelectuais e ativistas políticos”. De acordo com o autor, o papel dos humoristas foi fundamental para a imprensa alternativa, pois, para eles, o espaço de publicação nos jornais fechou-se quase por completo, dada a contundência natural do humor crítico, exatamente num momento em que os traços grotescos do golpe de 1964 detonaram dentro deles uma fúria criativa. Mas, a imprensa alternativa não é um fenômeno exclusivo dos 21 anos da Ditadura Militar. Ela aparece, em outros tempos da história, como as publicações “dos pasquins irreverentes e panfletários do período da Regência, que atingiram o seu apogeu em 1830 com cerca de cinquenta títulos” (Sodré, 1968 apud Kucinski, 1991), “e dos jornais anarquistas de operários, meio século depois (1880-1920), com quase quatrocentos títulos” (Ferreira, 1978 apud Kucinski, 1991).

Embora o jornal “Movimento” tenha encerrado suas atividades em novembro de 1981, a maioria dos jornais alternativos começou a fechar as suas portas logo do início da chamada abertura política que se inicia no governo do presidente da República João Batista de Figueiredo em 1979, escolhido no ano anterior pelo Congresso, com mandato de seis anos. Diz Kucinski: “A grande imprensa não foi só recriando uma esfera pública, como o fez apropriando-se de temas até então exclusivos da imprensa alternativa, e recontratando muitos dos seus jornalistas. Opor-se ao governo deixou de ser monopólio da imprensa alternativa. Além disso, a retomada da atividade política clássica, no âmbito dos partidos e de seus jornais, que após a decretação da anistia saíram da clandestinidade, esvaziou a imprensa alternativa de sua função de espaço e realização sócio-política”.

Este projeto “RESISTIR É PRECISO…” vai também levar aos leitores que não conheceram esses jornais os momentos de encantamento que provocavam, de como incomodaram os militares, de como começavam bem e acabavam invariavelmente mal. Vamos mostrar nos documentários, na publicação, nos programetes e nos depoimentos gravados em vídeo o que poderia levar jornalistas consagrados a embarcarem, com um punhado de focas, ativistas políticos e intelectuais, naquelas naus incertas “sem aviso prévio e sem qualquer itinerário”, como disse o poeta (citado por Kucinski).

Já o jornalista Perseu Abramo, de forte militância política e jornalística, em polêmico artigo publicado na revista “Tempo e Presença”, em agosto de 1988, considera difícil caracterizar com precisão o papel da imprensa alternativa dos anos 60, por conta do sentido preciso da expressão “alternativa” quando aplicada à imprensa que ele chama de política.

Diz Perseu: “No sentido estrito do termo, essa imprensa nunca foi de fato uma alternativa à outra imprensa, à chamada grande imprensa ou imprensa burguesa. Não foi alternativa no sentido de oferecer ao leitor uma opção de leitura, do tipo que levaria um cidadão a deixar de ler o “Jornal do Brasil” para ler o “Opinião”, ou trocar “O Estado de S. Paulo por “Movimento”. E não apenas pelo fato de a imprensa alternativa ser periódica, em contraposição aos grandes jornais diários. Porque “Opinião”, “Movimento”, “Versus” e tantos outros também não constituíam uma opção alternativa à leitura de “Veja”, “Isto É”, “Visão” etc”.

Ao defender esta tese que os jornais não eram alternativos, Perseu destaca a questão da sobrevivência, porque “os pequenos semanários ou mensários políticos nunca tiveram a menor possibilidade concreta de reunir recursos financeiros, materiais e humanos capazes de enfrentar a máquina poderosa da grande imprensa, e que vai se tornando cada vez mais poderosa justamente a partir da implantação da ditadura em 1964 e da modernização do Estado burguês no Brasil”.

Para ele, “outra pista para entender o caráter real da imprensa chamada alternativa é o de que, na verdade, tratava-se muito mais de fazer um contraponto à imprensa burguesa do que efetivamente substituí-la (o jornal “EX”- é um bom exemplo).

É como se, na Era da Ditadura, houvesse necessidade de colocar no papel o substrato de um movimento de contracultura, disperso e fragmentado sim, mas inegavelmente existente nos anos 60 e 70. Mas a contracultura só passa a ter existência real enquanto imagem invertida no espelho da cultura existente. Só existe contraponto quando existe o “ponto”. A imprensa alternativa – prossegue – era fundamentalmente dependente da imprensa chamada grande, isto é, aquela que, de uma forma ou de outra, havia contribuído para a eclosão do Golpe de 64 e, constrangidamente ou não, era simultaneamente sustentáculo e beneficiário da ditadura”.

Perseu defende a ideia de que havia, por parte da imprensa alternativa, uma “dependência contraditória, evidentemente, para não dizer dialética. Era preciso que os grandes jornais e revistas dissessem alguma coisa para que os pequenos alternativos pudessem dizer o contrário, ou completar o que não fora dito, corrigir o dito, desmistificar a distorção, desvendar os mistérios reais habilmente escondidos pelas palavras oficiais. Enfim, clarear o obscuro. Essa necessidade era colocada provavelmente de forma inconsciente, ou pelo menos não claramente perceptível para os próprios jornalistas que faziam a imprensa alternativa. A maior fonte de dados e informações da imprensa alternativa era a grande imprensa (às vezes estrangeira). Os jornalistas da imprensa alternativa tinham, por óbvias razões políticas, poucos e difíceis acessos aos chamados meandros do poder, ao aparelho do Estado, ao interior das empresas, à intimidade dos principais grupos econômicos. É certo que uma ou outra vez “vazava” uma informação, uma dica, uma sugestão, trazida aqui para fora a partir de um político liberal com algum conhecimento do reinado tecnoburocrático que constituía a seiva da ditadura militar. Aí, a imprensa alternativa deitava e rolava. Mas eram raros esses casos”.

O próprio Perseu acaba se rendendo à expressão “imprensa alternativa” ao citá-la em diferentes momentos de seu ensaio, e ao comentar que “o mais comum, o mais corriqueiro, é que a pauta da imprensa alternativa fosse calcada nas notícias da grande imprensa. O que se esforçava por ser alternativo era o ângulo de abordagem da matéria, os informantes ouvidos em off, a orientação oposicionista da análise e da interpretação, e, naturalmente, o posicionamento ideológico e político diante do assunto tratado, que se refletia nos títulos, nas fotos, nas charges e nos editoriais. Mas a base, a matéria-prima dos textos jornalísticos, era, na maior parte dos casos, constituída pelas informações veiculadas pela própria imprensa burguesa que se pretendia combater com uma imprensa alternativa. E isso, inevitavelmente, comprometia a qualidade, o nível, o alcance de boa parte do material da imprensa alternativa. Essa situação vai se alterar um pouco na fase final da ditadura, nos últimos anos da década de 1970, muito mais em função das mudanças operadas no movimento social concreto do que propriamente no âmbito da imprensa alternativa. É que começa a surgir, apesar da ditadura, uma onda de resistência civil, representada pelos movimentos populares, pela luta contra a carestia, pela ação dos setores progressistas da Igreja Católica, pelas Comunidades Eclesiais de Base, pelos comitês de anistia, mais tarde pelas oposições sindicais e pela eclosão do neossindicalismo combativo e oposicionista. Aí então, há um movimento concreto, muitas vezes expresso por entidades e por líderes que se constituíam, por si, em fontes alternativas de informações e opiniões, e que foram largamente utilizadas pela pequena imprensa”.

Ao analisar o papel dos leitores, Perseu Abramo faz um interessante apanhado sobre algumas contradições a serem enfrentadas pela imprensa alternativa: “Mas não eram só os jornalistas que dependiam contraditoriamente da imprensa burguesa para fazer a sua imprensa alternativa a ela. De certa forma, os leitores também. Quem foram, de modo geral, os leitores das numerosas publicações alternativas que nasceram, floresceram e pereceram, a partir do início dos anos 60? Certamente não a grande massa.

Dessa, como se sabe, infelizmente a grande maioria não tinha e continua não tendo os meios materiais e culturais, o tempo, a paciência, a disposição e o hábito de ler coisas impressas, entre as quais, os jornais e as revistas. Dos que leem, a grande maioria lê jornais diários da grande imprensa, principalmente os de cunho mais popular e populista e sensacionalista. O que sobra? Sobram as minguadas camadas mais esclarecidas e politizadas da grande massa, a chamada aristocracia operária dos grandes centros industriais, setores médios não alienados, os políticos, os ativistas sindicais, os quadros intermediários e centrais, os dirigentes e militantes de organizações políticas revolucionárias. Um público bastante diversificado na sua heterogeneidade, mas exíguo em número. E mesmo esse público politizado e restrito, leitor virtual ou efetivo da imprensa alternativa, não podia dispensar a grande imprensa, a imprensa burguesa. Era ali que ele se informava, era ali que ele lia as explicações tecnocráticas, era ali que ele encontrava as versões oficiais e, de maneira mais ou menos acrítica, sofria a demolidora influência da doutrinação ideológica burguesa. Depois, ele ia conferir na imprensa alternativa. Recebia o contraponto, a contracultura, a versão da oposição”.

Mais adiante em seu ensaio, Perseu discute “a eficácia ou não desse duplo movimento de opinião de “esquerda” versus opinião de “direita” que dependia em grande parte da capacidade do próprio leitor, em parte da qualidade das matérias dos jornais alternativos, em parte da correção da análise de conjuntura e do acerto das propostas políticas que eram elaboradas pela oposição. Nem sempre essa eficácia foi grande. Na maior parte dos casos, a imprensa alternativa se debatia entre dois extremos: apresentar, aí sim, uma alternativa radical à ditadura, e com isso correr o risco do sectarismo, do isolamento, da voz no vazio, sem eco; ou recuar para um mínimo denominador comum dos setores sociais mais diversos para tentar “costurar” uma frente ampla de oposição democrática e liberal, e com isso não oferecer alternativas reais à ditadura. De certo modo, toda a imprensa alternativa do período oscilou pendularmente entre esses dois extremos, aproximando-se ora mais de um, ora mais de outro. A meta idealizada pela imprensa alternativa, de uma oposição “comum” e, portanto, o menos diferenciada possível contra a ditadura, tinha a sua contrapartida no desenvolvimento da própria realidade política e partidária do período”.

“O MDB – prossegue Perseu – ia tentando ser aquilo que a imprensa alternativa também procurava ser: a oposição, ampla para ser unida, mas, para ser ampla, indiferenciada. Talvez não seja por acaso que no final da década de 1960 e em quase toda a década de 1970, se tenha falado, no Brasil, em sociedade civil, concebida esta como a “nação” contra o Estado, ou, como aparecia maniqueistamente em muitas cabeças de então, o Bem contra o Mal, ou, ainda, como frequentemente era interpretado por setores de extração mais popular e menos culta, da sociedade dos paisanos, dos civis, contra os militares. Ora, mas a ditadura que foi implantada em 1964 é a ditadura da burguesia, só que operando com mãos militares. E, embora sejam inegáveis as diferenciações grupais e até pessoais dentro da burguesia (um senador liberal é diferente de um general fascista), a verdade é que a ideia, constantemente elaborada e reelaborada, de uma ampla frente democrática de oposição à ditadura acaba, na prática, deixando de lado e de fora a classe trabalhadora e as reais alternativas ideológicas e políticas ao sistema capitalista e ao regime autoritário que ele produziu nesse período da história do Brasil”.

Ao afirmar que a imprensa alternativa nunca conseguiu construir uma verdadeira frente ampla democrática de oposição, Perseu destaca que, embora “pobre, frágil, improvisada, ousada, heróica, a imprensa alternativa foi uma das forças que abalaram a ditadura e abriram perspectivas de mudanças democráticas que ainda estão por se realizar”.

Aceitação acadêmica

De uma maneira ou de outra, a expressão “imprensa alternativa” ganhou ampla aceitação acadêmica, inclusive internacional, em várias línguas, na esteira do pensamento de Noam Chomsky, Edward S. Herman, Mike Gunderloy e outros, em contraposição ao que denominam, em inglês, a “mainstream media”. São denominados “alternativos” por se desviarem do caminho seguido pela mídia tradicional, por criticarem o modelo socioeconômico e político vigente, por irem contra a ditadura e exigirem mudanças sociais reais no país. Não se deixavam manipular pela estrutura de poder; eram autênticos, irreverentes e contestadores.

Quem teria cunhado a expressão imprensa alternativa, com maior densidade semântica, já usada nos Estados Unidos e na Inglaterra, para designar arte e cultura não-convencionais, teria sido o jornalista Alberto Dines, em janeiro de 1976.
Quem deu o delicioso apelido de “nanica” à imprensa alternativa foi o escritor João Antônio, em contrapartida à grande (e burguesa) imprensa dos jornalões e poderosas revistas de poderosas editoras.

Ampliar a compreensão da experiência em torno da imprensa alternativa é também uma contribuição importante ao próprio estudo da ditadura militar no Brasil e uma contribuição ao estudo das formas de oposição nesse período.

Num contexto marcado pela forte repressão à oposição e com a implementação do Ato Institucional n° 5 em 1968, a oposição, de uma maneira geral, se viu obrigada a seguir sua atuação na clandestinidade ou buscar novos espaços.

Os chamados jornais alternativos representavam uma dessas possibilidades e assim acabavam canalizando discussões que ocorriam paralelamente entre a oposição.

IMPRENSA CLANDESTINA E NO EXÍLIO
(E MAIS: CARTAZES, DISCOS, FITA CASSETES…)
ALGUMAS INFORMAÇÕES PRELIMINARES.

Já sobre a imprensa na clandestinidade e no exílio, com suas datas, nomes, atuação e diferentes raios de influência, vamos ter que nos debruçar com mais acuidade para buscar suas origens e seus exemplares. Estimativas feitas por pesquisadores, como José Luiz Del Roio, indicam um número que pode chegar a mais de 200 publicações, 80 feitas no exílio e 120 que tentavam sobreviver como clandestinas.

“Revolução”, por exemplo, era uma publicação tipicamente clandestina, ligada a setores católicos mais radicais. No número 18, de janeiro de 1970, o jornal afirma que “em 1969 as lutas de massas continuaram em maré baixa… cavou-se ainda mais o fosso que separa as organizações de esquerda do povo em geral e da classe operária em geral…”

O “Comitê de Denuncia a la Repression en Brasil” fazia circular na Argentina e no Chile, em “portunhol”, o jornal “Frente Brasileira de Informações”, curiosamente conhecida como FBI. No número 42, de junho de 1973, o jornal criticava, na capa, a construção de Itaipu. Esse é um exemplo típico da imprensa no exílio que, além dos exilados brasileiros, informava também setores da sociedade civil local.

Experiências como essas, feitas na clandestinidade ou no exílio, se multiplicaram pelo Brasil e pelo mundo afora, pois era a forma dos opositores ao regime militar buscar exprimir suas ideias.

Ao mesmo tempo, para o regime era uma questão política central impedir a existência desses jornais, dessas publicações.

Tanto que a repressão atingia duramente todo o setor: quem escrevia, quem publicava e quem ia distribuir. Pode-se até imaginar que eles estariam em alguma lista de prioridades.

JORNAIS CLANDESTINOS: PRODUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO E OS PERIGOS

O material era em geral produzido através de mimeógrafos, instrumentos simples e pequenos, mas que exigiam horas de trabalho para imprimir poucas centenas de páginas. Toda a operação requeria a presença de tintas, álcool, papel, máquinas de escrever… o que no conjunto revelava, inequivocamente, a presença de uma célula clandestina.

Algumas organizações mais estruturadas possuíam melhores condições técnicas, podendo contar até mesmo com off-set e uma produção mais consistente. Havia sempre um responsável com as seguintes obrigações: recolher os artigos de várias pessoas, levá-los ao “aparelho”, acompanhar a impressão e organizar a distribuição através dos canais pré-estabelecidos.

A distribuição seguia o critério de fazer passar de mão em mão entre os militantes e a quem mais interessasse. Isso significava que a cada ponto de encontro e a cada pequena reunião devia chegar o jornal. Muitas vezes eram enviados pelo correio para jornalistas, bispos, deputados, artistas… Nem todo mundo concordava em receber os exemplares por conta da repressão, embora fosse o jeito possível de fazer circular informações e ideias. Outra forma de distribuição dos jornais era por panfletagens em operações- relâmpago em portas de fábrica ou paradas de ônibus.

O número de exemplares poderia variar de uma ou duas centenas a 2.000/3.000 exemplares, quando o jornal representava grupos políticos mais organizados. De maneira geral, a periodicidade era quando dava, embora se tentasse manter uma periodicidade mensal.

Para as organizações era muito difícil manter uma publicação, por conta do risco permanente de prisão e tortura e por conta do encargo financeiro pesado ao manter uma casa alugada, um ou dois militantes profissionais e os gastos naturais com a gráfica e distribuição. Assim, para levantar a trajetória dos jornais clandestinos vamos precisar chegar às organizações políticas da época que, além de viver na própria clandestinidade, eram tenazmente cassadas pela ditadura militar.

PUBLICAÇÕES NO EXÍLIO:
SOLIDÃO E FALTA DE INFORMAÇÃO

As publicações no exílio foram criadas para garantir a circulação da informação entre os mais de 10 mil brasileiros que se estima viveram durante 15 anos no exílio em diferentes períodos. Se não bastasse estarem no exterior, esses brasileiros eram obrigados a “vagar” por diferentes países, por conta dos golpes militares que se multiplicaram na América Latina.

O golpe no Chile, em 1973, talvez seja o mais duro deles, porque milhares de brasileiros estavam instalados no país vizinho. Com o golpe militar, todos tiveram que se deslocar, prioritariamente, para a Europa. Esses constantes deslocamentos acabaram tendo um forte reflexo na imprensa do exílio. Exemplares feitos com muita dificuldade e quase sem recursos eram obrigados a buscar um novo abrigo em novos países, com cultura e línguas diferentes. As publicações do exílio brasileiro tinham, pelo menos, quatro objetivos principais:

a) Informar a colônia de exilados sobre o Brasil
b) Levar uma denúncia constante contra a ditadura
c) Fazer com que organizações políticas pudessem divulgar suas ideias e posições.
d) Buscar levar as publicações para dentro do país.

As dificuldades para a realização das publicações variavam de país a país. Dependia, inclusive, do grau de liberdade de cada um dos governos que recebiam os exilados. A Itália, por exemplo, não concedia o asilo político o que, de certa maneira, complicava a vida de quem não tinha documentos legais. No Reino Unido, a situação era ainda um pouco pior, porque, embora um país com liberdades políticas amplas, as relações diplomáticas e econômicas com a ditadura eram muito boas, o que limitava a ação dos exilados brasileiros. Um diferencial importante, no entanto, era o próprio apoio das forças políticas locais à causa, no caso a luta contra a ditadura brasileira.

De uma maneira geral, os exilados brasileiros se apoiavam em pequenos grupos de solidariedade. Grupos que ajudavam inclusive na adaptação cultural e na compreensão do idioma na produção das publicações e dos folhetos que se dirigiam ao público local. E olha que os brasileiros se espalhavam pela França, Reino Unido, Espanha, Itália, Alemanha, Dinamarca, Suécia.

Um dado curioso é que a imprensa no exílio não poderia, pelas leis locais, ser clandestina: tinha que ter endereço, nomes oficiais, responsáveis etc e tal. Mesmo assim, os brasileiros assinavam os artigos com nomes fictícios, porque todo cuidado era pouco.
Além de mão a mão e por correio, muitas das publicações – as mais bem feitas – eram distribuídas para algumas livrarias, como a Maspero e a Luso-brasileira, em Paris e a livraria Del Terzo Mondo, em Roma. É lógico que será redobrado o nosso esforço em busca dos exemplares da imprensa no exílio, porque muitas coleções, pelo que se sabe, não foram repatriadas a partir de 1979.
Essa busca pode provocar, inclusive, pesquisas em alguns locais na Europa, em bibliotecas, arquivos de centros de solidariedade ou mesmo do Tribunal Bertrand Russel II, ou nos documentos arquivados na Fondazione Lélio e Lisli Basso, em Roma.

Recursos econômicos e as festas
Assim como na clandestinidade e na forma de alternativos, a imprensa no exílio também enfrentava muita dificuldade para arrecadar fundos para as publicações, até porque estava também em jogo a própria sobrevivência das famílias dos exilados.
Uma das formas de recolher dinheiro era participar das festas – que naquelas décadas eram muito frequentadas – dos jornais de partidos de esquerda, principalmente comunistas como “L’Humanité”, “L’Unità”. Nessas festas se elaboravam mostras, eram produzidos cartazes, adesivos e até discos (vinil) e fitas-cassete. Esse material, que é precioso, criativo e também uma forma de resistência, está nos planos do “RESISTIR É PRECISO…” para ser resgatado.

E COM QUEM FALAR?
Com certeza, nomes não faltam e nem faltarão para compor esse mosaico de depoimentos sobre tempos tão importantes para o país e para a trajetória da imprensa brasileira. Segue uma lista de nomes que deverão participar como protagonistas desta história:

  1. Adélia Borges – alternativa
  2. Alípio Freire – clandestina
  3. Aguinaldo Silva – alternativa
  4. Amelinha Teles – clandestina
  5. Ana Arruda – alternativa
  6. Angélica Rittes – alternativa
  7. Armênio Guedes –clandestina
  8. Ary Normanha – alternativa
  9. Audálio Dantas – alternativa
  10. Bernardo Joffilly – clandestina/exílio
  11. Bernardo Kucinsky – alternativa
  12. Bia Cannabrava – exílio
  13. Carlos Azevedo – clandestina
  14. Ceici Kameyama – clandestina
  15. Cesar Teles –clandestina
  16. Cloves de Castro – clandestina
  17. Crimeia – clandestina
  18. Dácio Nitrini – alternativa
  19. Duarte Pereira –clandestina
  20. Dom Angélico – alternativa
  21. Elifas Andreato – 2 lugares
  22. Elmar Bones – alternativa
  23. Elson Martins – alternativa
  24. Fernando Jordão – alternativa
  25. Franklin Martins – alternativa
  26. Gildo M. Brandão – alternativa
  27. Jaime Leão – alternativa
  28. João Quartim de Moraes – exílio
  29. José Américo Dias – alternativa
  30. José Hamilton Ribeiro – alternativa
  31. Jośe Luiz Del Roio – exílio
  32. José Maria Rabelo – exílio
  33. Juca Kfouri – alternativa
  34. Laerte – alternativa
  35. Marco Antonio Mouro –exílio
  36. Marco A. Coelho – clandestina
  37. Maria Amélia Mello (org.) – alternativa
  38. Maria Moraes –alternativa
  39. Maria Rita Kehl – alternativa (2 lugares)
  40. Markus Sokol – alternativa
  41. Maryse Fahri – exílio
  42. Mylton Severiano – alternativa
  43. Normando Leão Sampaio – alternativa
  44. Olívia Rangel Joffily – clandestina/exílio
  45. Omar “Matico” de Barros Filho – alternativa
  46. Paulo Cannabrava Filho – exílio
  47. Paulo Moreira Leite – alternativa
  48. Raimundo Pereira – alternativa
  49. Ricardo Maranhão – alternativa
  50. Rosalina Santa Cruz – alternativa
  51. Ricardo Zarattini – exílio
  52. Ruth Tegon –exílio
  53. Sérgio Gomes – operária
  54. Terezinha Zerbini – alternativaTetê Moraes – alternativa
  55. Tonico Ferreira – alternativa
  56. Fernando Morais
  57. Aguinaldo Silva
  58. Ziraldo
  59. Mauricio Azedo (ABI)
  60. Claudius

DIFERENÇAS CONCEITUAIS

Fica claro que, se estes três “tipos” de imprensa têm em comum o combate e a resistência à ditadura militar, as suas origens e formas de atuação são, de uma maneira geral, muito diferentes. Conferir essas diferenças, mergulhar nas especificidades, buscar os traços comuns e facilitar a exposição e a narrativa do material pesquisado vão também indicar o norte do nosso trabalho, a partir da conceituação de cada “tipo” e suas características mais marcantes. Em resumo, isso significa: para ser imprensa alternativa, a publicação tem de ter origem e gráficas conhecidas, autores no expediente, periodicidade, com venda em banca, embora a distribuição gratuita possa também ser levada em consideração.

A imprensa clandestina é a antítese da alternativa.
A gráfica e seus autores não são nunca revelados, sua distribuição é, por definição, precária, assim como a sua periodicidade. A pesquisa vai esclarecer melhor, mas o que se imagina é que a imprensa clandestina estaria umbilicalmente ligada a partidos políticos colocados na ilegalidade, movimentos, facções e dissidências, como o jornal “Resistência”, ligado ao MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Outras publicações eram ligadas ao PCB, PCdoB, ALN, AP, POLOP, Var-Palmares, VPR… Por conta da clandestinidade, vários militantes foram assassinados e um exemplo marcante é da jovem Aurora Nascimento Furtado, na época com 23 anos, a última responsável pelas publicações da ALN.

Com uma população estimada em 10 mil pessoas, os brasileiros que foram para o exterior, expulsos ou voluntariamente, mal conseguiam ter informações sobre a política nacional e quase nunca sabiam da situação dos próprios exilados, já que as informações circulavam, quando muito, pelo telefone e por cartas… A imprensa no exílio buscou, exatamente, preencher esse vazio, fazer as informações sobre o país e sobre os exilados circularem em português, espanhol, italiano, sueco… já que ela também se encarregava de difundir no exterior as mazelas da ditadura. Essa imprensa no exílio possibilitou também uma troca permanente de informações entre as diversas organizações políticas brasileiras sobre como combater a ditadura. E mais: discutiam também o tipo de Brasil que imaginavam para depois da democratização.

E OS CARTAZES?
Ao longo das pesquisas iniciais para construir este projeto inédito, pioneiro e necessário para o resgate de mais uma faceta importante da luta contra a ditadura, descobriu-se que existe uma infinidade de cartazes – posters – produzidos no exterior para denunciar as atrocidades do regime brasileiro e, de alguma maneira, também informar a colônia de exilados.

O projeto “RESISTIR É PRECISO…” vai resgatar esses cartazes que eram criados por artistas, às vezes famosos, como Miguel Paiva, brasileiro, e Rafael Alberti, espanhol. O cartaz da página seguinte, por exemplo – em dois momentos – foi criado por Rafael Alberti.

A CONTEXTUALIZAÇÃO

Um diferencial importante deste projeto é a possibilidade de contextualizar os jornais, a partir da época do seu lançamento, das ideias e teses defendidas. Contextualizar significa buscar o DNA da publicação para entender, na perspectiva histórica, a sua existência e a sua importância como veículo de informação que combateu e resistiu à ditadura.

Um bom exemplo desta contextualização se dá com o jornal clandestino gaúcho “O Povo”, que circulou a partir de 1972 e não se sabe até quando. Como não se tem ainda notícia (ainda, porque será objeto da nossa pesquisa) sobre os realizadores do jornal e o que representavam, uma leitura mais atenta pode nos dar pistas sobre o contexto em que o jornal surgiu. Em determinado ponto do texto do número 31, os autores fazem uma crítica dura e feroz ao aumento do custo de vida, informando porcentagens e defendendo um salário mínimo ideal. “Tudo indica – afirma o pesquisador Del Roio – que pelo estilo da escrita, pelo modo que o assunto principal – custo de vida – é tratado, os realizadores deviam ter ligações ideológicas com o movimento sindical, apoiado pelo PCB. Eram as publicações ligadas aos sindicatos que, na época, criticavam duramente a política econômica dos governos militares”

APOIO JURÍDICO

Pela ambição do projeto em fazer um levantamento exaustivo da imprensa alternativa, no exílio e clandestina teremos um criterioso acompanhamento jurídico em nome do respeito aos direitos autorais que estarão sendo revelados. Teremos também esse apoio para o fechamento dos contratos.

OS 10 DOCUMENTÁRIOS

Os títulos dos episódios sofreram uma pequena correção de rumo e os envio já atualizados. As sinopses, vocês já as tem (a Eliane enviou).

PROGRAMA 1
“COMO TUDO COMEÇOU…”
(a primeira charge é de 1867!)

PROGRAMA 2
“UM BARÃO QUE NÃO ERA BARÃO FAZ ESCOLA E CRIA UM ESTILO”

PROGRAMA 3
“COMEÇA A DITADURA MILITAR.
A RESISTÊNCIA PELA IMPRENSA TAMBÉM…”

PROGRAMA 4
IMPRENSA ALTERNATIVA,
UMA LEITURA OBRIGATÓRIA

PROGRAMA 5
AS MUITAS IMPRENSAS ALTERNATIVAS

PROGRAMA 6
A IMPRENSA ALTERNATIVA
PELO BRASIL AFORA

PROGRAMA 7
O REGIME SE FECHA COM O AI-5. OS JORNAIS SE MULTIPLICAM… NO EXÍLIO

PROGRAMA 8
VOU-ME EMBORA PARA A CLANDESTINIDADE…

PROGRAMA 9
“A CENSURA FECHA O CERCO. O HUMOR DÁ A VOLTA POR CIMA”

PROGRAMA 10
A CENSURA ACABOU. E AGORA?

Veja aqui o documento que deu origem aos documentarios do Projeto Resistir é Preciso
(como tudo domeçou.pdf 3.35k)