Começa a ditadura militar. A resistência pela imprensa também…

Sinopse

O golpe militar de 1964 de imediato silenciou a imprensa operária, sindical, socialista. A última edição de Novos rumos, jornal do partido comunista brasileiro, foi em primeiro de abril.

Foi curta a trajetória de Pif-paf, primeira revista da resistência, fechada na oitava edição.

O jornal Binômio, criado em 1952, em belo horizonte, pelo jornalista José Maria Rabêlo, usava o humor para criticar todos os governos. Previu o golpe muito antes e denunciou os militares autoritários. Seu diretor teve que enfrentar a socos um general que invadiu a redação para reclamar de uma reportagem.

O sol surgiu no rio de janeiro em 1967, circulava encartado no Jornal dos Sports, tinha paginação vertical para facilitar a leitura.
Em São Paulo, os estudantes do grêmio da faculdade de filosofia da USP criavam o amanhã.

Proibida, a imprensa dos partidos de esquerda se recupera e circula na clandestinidade. Como a voz operária, do PCB.

O jornal do PCdoB, a classe operária, também continuou a circular.

Em maio de 1968 surge o Libertação, jornal da Ap – Ação popular.

Roteiro

(entra arte com o título)

RESISTIR É PRECISO…
A Imprensa alternativa, clandestina e no exílio durante a ditadura militar brasileira

OTHON BASTOS:
No episódio anterior da nossa série “Resistir é Preciso” você acompanhou a vida, paixão e obra do Barão de Itararé, mestre do jornalismo de resistência e oposição através do humor em suas várias facetas: deboche, ironia, sátira…
No capítulo de hoje…

(Entra com arte título do episódio)

Começa a ditadura militar. A resistência pela imprensa também…

ATOR VIVO/OFF
Repare bem na data deste jornal: primeiro de abril de 1964. Preparado e rodado na madrugada de 31 de março para primeiro de abril de 1964, o jornal Novos Rumos, ligado ao Partido Comunista Brasileiro – o Partidão – ainda tentava construir uma resistência ao golpe militar que já estava nas ruas.
(LER ALGUNS TÍTULOS, TRECHINHOS DE MATÉRIAS).
Já não dava tempo para mais nada. Distribuida clandestinamente e sem nomes de seus realizadores, esta foi a ultima edição de Novos Rumos, QUe se tornou uma espécie de símbolo de resistência NO FRONT DE BATALHA da imprensa socialista que foi sufocada pela ditadura.

HÉLIO GASPARI OU DEL ROIO: Eu me lembro…. quando o jornal foi feito…

(sobe-som com trecho de triha sonora ou musica da época,a pesquisar)

ATRIZ VIVO/OFF:
capa do PIF-PAF
ESSA CAPA É DA EDIÇÃO DE ESTRÉIA DA REVISTA PIF-PAF, A PRIMEIRA PUBLICAÇÃO DE OPOSIÇÃO À DITADURA, QUE A GENTE JÁ COMENTOU NO PRIMEIRO EPISÓDIO.
COM DATA DE 21 DE MAIO DE 1964 Dirigida pelo jornalista e chargista Millôr Fernandes, contava com uma equipe de craques do texto e da caricatura: Jaguar, Claudius, Ziraldo, Fortuna e Sergio Porto.

OTHON BASTOS
a tradição da imprensa brasileira de combate, DE OPOSIÇÃO, NÃO tinha papas na língua, com seu deboche permanente e humor devastador, outras duas marcas registradas dos jornais brasileiros de resistência.
Olha como o PIFPAF, em 1964, tratava o mundo politico da sua época.

(mostrar títulos e matérias, lendo em off as manchetes, comentando os desenhos e charges principais, fazer uma rápida resenha de coisas do PIFPAF)

CLAUDIUS:
(EXPLICA COMO FUNCIONAVA E COMO ERA FEITO O PIF PAF)

OTHON BASTOS
O tiro certeiro que tirou o PIFPAF do combate aconteceu no número oito da revista. Na ultima página, Millor, bem ao estilo do barão de Itararé, fazia uma advertência… ou… uma profecia:
(cobrir com imagens do pif paf e voltar para o texto).

ATOR OFF:
“Quem avisa amigo é. Se o governo continuar deixando que certos jornalistas falem em eleições; se o governo continuar deixando que determinados jornais façam restrições à sua política financeira; se o governo continuar deixando que alguns politicos teimem em manter suas candidaturas; se o governo continuar deixando que algumas pessoas pensem por sua própria cabeça; e, sobretudo, se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia…”

OTHON BASTOS/VIVO:
Resultado da advertência: a revista foi apreendida, Millor desistiu momentaneamente de ficar dando murros em pontas de faca e tirou o pifpaf de circulação.

Claudius fala sobre o fim do PIF-PAF

Passagem para o Binômio (calendário volta a 1952)
ATOR/VIVO/OFF:
Uma voz que vinha de Minas Gerais já estava denunciando o golpe muito antes dele acontecer. Era o jornal Binômio, semanário dirigido pelo jornalista José Maria Rabelo. Ao contrario do PIF PAF, que foi lançado em 1964, o Binômio já vinha fazendo OPOSIÇÃO desde… 1952, ou seja, estava sempre alerta para críticar, sempre na oposição e sempre tentando manter a independência.

ATRIZ VIVO/OFF:
TEM UMA SACADA DO BINÔMIO AQUI QUE É DE ARREPIAR. OLHA SÓ
(CAI PRA OFF):
No primeiro número do semanário, os jovens jornalistas mineiros deixavam bem claro na capa do jornal.
“Não aceitamos publicidade:
do governo do Estado,
da Prefeitura,
da Companhia telefônica,
da Companhia de Força e luz… e de toda e qualquer firma, organização ou entidade que tenha por norma controlar a imprensa por intermédio da publicidade”.

OTHON BASTOS
E com humor e fina ironia, o Binômio, confessadamente influenciado pelo Barão de Itararé, concluia: …”pelo menos uma vantagem nós levamos: não temos concorrente na praça”.

(Respiro: VAMOS MOSTRAR FRAGMENTOS DO BINÔMIO… COM TRILHA.)

ATOR VIVO/CLOSE:

CALENDÁRIO VOA PARA 1961

A partir do final de 1961, ano de crise por conta da renúncia do presidente Janio Quadros, o Binômio comeu o pão que o diabo amassou. Chegava a Belo Horizonte, para comandar a principal unidade do exército em Minas, o general João Punaro Bley, que vinha com fama de truculento.

ATRIZ VIVO/OFF:
Truculento? O jornal não deixou por menos. Foi atrás da biografia do general… Em dezembro de 1961 dava a seguinte manchete, com letras garrafais: DEMOCRATA HOJE, FASCISTA ONTEM e logo abaixo: Quem é afinal este general Punaro Bley?

ATOR VIVO: Quem conta o que aconteceu é o próprio diretor do jornal, José Maria Rabelo:
Câmera mostra aparelho de TV de onde salta Rabelo
(depoimento Rabelo sobre Punaro Bley) DVD Exílio: entrada aos 1’58″/ ou 2’30 até 5″00″)
Sobe som/musica
OTHON BASTOS
Aos trancos, barrancos, prisões e perseguições o Binômio resistiu até 2 de fevereiro de 1964, dois meses antes do golpe. Nesse dia, a redação foi invadida, saqueada e destruida.

Passagem de tempo/calendário

ATRIZ VIVO/OFF:
(imagens do jornal Sol)
TRÊS Anos depois, em 1967, no Rio de Janeiro, um grupo de jornalistas e intelectuais criava O SOL, um tipo diferente de jornal alternativo, que saía encartado nUM JORNAL BEM POPULAR… o Jornal dos Sports.

ATOR/VIVO/OFF:
experiência DIFERENTE E bem sucedida de imprensa alternativa, ATÉ PORQUE TINHA À DISPOSIÇÃO UMA gráfica muito bem montada. Foi uma pena que o sol tenha circulado somente SEIS MESES. Seu criador foi Reynaldo Jardim:

Aparelho de TV, Reynaldo Jardim fala:
(fita editada aos 1´15″ : “a idéia do SOL veio porque eu achava que o jornalismo estava muito ruim (…) vai até 1’58″: “cada edição seria uma obra de arte”. Prossegue aos 3’38″: “Jovem é o sol, mesmo sendo noite”.(3’46″)
OFF: (C/IMAGENS DO JORNAL)
Reynaldo Jardim, deu o toque inovador ao criar uma publicação para ser lida no ônibus, já que se tratava de um jornal de esportes…. Olha só que sacada genial:

Câmera vai para aparelho de TV:
TETÊ DESCREVE COMO ERA FEITO O SOL….
Tetê na fita editada: de 1’50″ até 2’40″)

ATOR VIVO
Ana Callado, que foi a editora-chefe, conta até onde ia o engajamento dos reporteres do jornal.

Câmera vai para aparelho de TV:

(FALA ANA CALLADO)
Fita editada — de 8’18″ a 9’02″
OTHON BASTOS
Neste mesmo período, 1967, em São Paulo, surgia, no Grêmio de estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, o jornal Amanhã, uma experiência, no mínimo, ambiciosa, porque estudantes e jovens jornalistas tentavam se comunicar COM INTELECTUAIS E TRABALHADORES, ALÉM DO SEU PÚBLICO CATIVO DE UNIVERSITÁRIOS.

ATOR VIVO/OFF
(c/imagens do jornal Amanhã)
O QUE AJUDAVA MUITO A DAR CERTO É QUE O JORNAL TINHA DINHEIRO, PORQUE ERA FINANCIADO pelo cursinho vestibular mantido pelo grêmio estudantil da Filosofia. PODIAM ASSIM CONTRATAR JORNALISTAS… Tonico Ferreira, que era estudante de Arquitetura na FAU, foi o diagramador

Cam. vai para aparelho de TV
Tonico Ferreira:
Fita bruta aos 57’52″: O Arantes pegou e disse: vamos fazer o jornal — Zé Arantes (…) até 58’30″ (aí o Raimundo foi para lá). Volta aos 60′: “o cara que ia diagramar era o Claudio Tozzi” … Raimundo pernas de garrincha etc.” vai até 61′ 10″ quando diz “Aí comecei a diagramar lá”.

Tonico volta 1h 03′: “fizemos sete numeros, sete semanas (…)

ATOR VIVO/CLOSE:
e quando faltava dinheiro para pagar os profissionais, O PESSOAL DO GRÊMIO logo achava uma saída.

Tonico:
O meu primeiro salário foi o Zé Dirceu que pagou pra mim (1h 4′ 45″).
ATRIZ VIVO/off
com imagens dos três jornais

ALÉM DA IMPRENSA ALTERNATIVA, NAS BANCAS, É também neste período que floresce a imprensa clandestina feita basicamente por partidos e agrupamentos políticos mantidos na ilegalidade.
O Partidão, por exemplo, publicOU, DEPOIS DO GOLPE, A Voz Operaria que durante 10 anos foi feita no Rio de Janeiro e era dirigida pelo jornalista e dirigente Orlando Bonfim.
ATOR VIVO/OFF:
reprodução da localização da gráfica
E mesmo com o golpe de 64, o partido encontrou caminhos criativos para manter a gráfica e uma pequena redação. Tá vendo esta foto, que tem, no teto, uma abertura, uma espécie de janela… pois bem… este buraco é a única entrada para uma gráfica do Partido Comunista e que era tampado por uma caixa D’ÁGUA. Para entrar na sala, era preciso esvaziar a caixa d’água, empurrá-la.
Apesar desses cuidados, a gráfica acabou sendo descoberta pela polícia… UM DOS RESPONSÁVEIS pela gráfica, Alberto Aleixo, QUE MORREU EM CONSEQUÊNCIA DA TORTURA, era irmão de Pedro Aleixo, na época vice-presidente da Republica do general Costa e Silva

ATRIZ VIVO/OFF:
(com imagens da Voz Operaria e da Voz da Unidade).
Voz Operária nunca deixou de circular. Foi publicado no exterior até 1979, quando muda de nome para Voz da Unidade e volta às bancas de jornais.
(musica/respiro)

OTHON BASTOS
Com a cisão, em 1962, do mundo comunista brasileiro entre PCB, que tinha em Luis Carlos Prestes o lider inconteste e o PCdoB, comandado por João Amazonas, a imprensa dos dois partidos também se dividiu.

ATOR/VIVO:
O PCdoB relançou, ainda em 1962, A Classe Operária, antigo jornal do partido.
Depois do golpe militar de 1964 o jornal FOI dirigido por Carlos Danielli.

ATRIZ vivo/off:
(C/imagens do jornal)

Em 1972, com a morte, de Danielli sob tortura, e a prisão de Amelinha e Cesar,o jornal passa a ser escrito por outros dirigentes. Depois do massacre da Lapa, em dezembro de 1976, Classe Operária passa a ser feito no exterior e divulgado no Brasil pelas ondas da Rádio Tirana, da Albânia. Em 1979 volta a ser produzido no país.

Calendário correndo/musica/respiro

Imagem de uma passeata de 1967/8
(sobe som Mylton/Flavio Venturini: Clube da esquina 2:
“E lá se vai mais um dia…O rio de asfalto e gente entorna pelas ladeiras… gente, gente, gente…”

ATOR/OFF:
(c/foto do comício da Sé e imagem do jornal)
1968, ano das grandes passeatas contra a ditadura… na grande manifestação de 1o. de Maio na Praça da Sé, em São Paulo, a Ação Popular, um grupo muito forte de oposição ao regime, lança o seu jornal clandestino: “Libertação”.

Fala de Azevedo sobre o 1o. de Maio. (JÁ GRAVADA)

ATRIZ VIVO/OFF:
(sobre imagens do Libertação)

Libertação circulou na clandestinidade por sete anos, de 1968 a 1975. Teve 56 edições, média de oito por ano. E uma particularidade, seu editor do inicio ao fim foi o jornalista Carlos Azevedo.

ATOR VIVO/CLOSE:
A direção da AP dedicou atenção ao Libertação. Ao longo dos anos o jornal teve sempre um dirigente nacional: Haroldo Lima, Aldo Arantes, Renato Rabelo E Duarte Pereira.

ATRIZ VIVO/OFF:
Aconteceu o mesmo com as outras organizações que proliferavam. A POLOP, antes do golpe produzia o jornal Politica Operária.O POC, Partido Operário Comunista, cisão da Polop, voltou a publicá-lo na clandestinidade a partir de 1970. Na edição de agosto de 1971 denunciou o assassinato do jornalista Luis Eduardo Merlino.

Entre 1967 e 69 o Movimento Comunista Internacionalista, de tendência trotsquista, publicou o Bandeira Vermelha. Seu principal redator, o jornalista Herminio Sacchetta.

O Guerrilheiro surge em 1968. É o jornal da ALN, dirigida por Carlos Marighella, que defende uma organização voltada diretamente para a luta armada.

ATOR VIVO/OFF:
É… Os mimeógrafos não paravam de rodar em centros acadêmicos, casas paroquiais, casas de militantes, transformados em gráficas clandestinas.
Todo mundo na clandestinidade? Quase TODO MUNDO…

ATRIZ VIVO/OFF:
A Revista Civilização Brasileira escolheu uma pauta cultural para ir às bancas defender a democracia. Criada em 1965 pelo editor Enio Silveira e editada pelo poeta Moacyr Felix, reuniu no conselho editorial intelectuais, jornalistas, escritores. Publicou autores como Sartre, Marcuse, Andre Gorz, Nelson Werneck Sodré, Ignacio Rangel. Por anos resistiu à censura, mas não conseguiu ir adiante após o AI-5. Parou de circular em dezembro de 1968.

OTHON BASTOS VIVO:
É uma geração inteira de militantes querendo lutar contra a ditadura. Todas as tonalidades das tendências de oposição estavam presentes para um duro embate que estava ainda no começo…

( BG instrumental de “Quixote” vem sob a voz de Del Roio. No fim,sobe-som: Quixote/ Maria Betânia: “sonhar, mas um sonho impossível…”

OTHON BASTOS:
No próximo episódio: LER A IMPRENSA ALTERNATIVA ERA QUASE UMA OBRIGAÇÃO PARA SE SABER O QUE ESTAVA ACONTECENDO NO PAÍS…

Publicado por

Documentários e depoimentos que buscam entender o que levou jornalistas consagrados a embarcarem, com um punhado de focas, ativistas políticos e intelectuais, naquelas naus incertas “sem aviso prévio e sem qualquer itinerário”, como disse o poeta.

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