Um barão que não era barão faz escola e cria um estilo

Sinopse

Um episódio inteiro para contar a vida, paixão e obra do jornalista Apparicio Torelly, o barão de itararé, “o pai e o avô do humorismo brasileiro”, como gosta de dizer o jornalista e cartunista jaguar, fundador do Pasquim. Reunidos num bar, jornalistas e especialistas na obra do barão lembram sua trajetória que fez escola e suas frases que criaram um estilo.

Jornalista que usava o humor como instrumento de crítica, fundou o jornal A manha em 1926. Perdeu-se a conta de quantas vezes foi preso por suas opiniões políticas.

Quando escreveu sobre a revolta da chibata e a vida de João Candido, o almirante negro, foi sequestrado pela marinha, espancado e teve os cabelos cortados. De volta à redação, tornou eterna a denúncia daquela violência ao colocar na porta uma placa que dizia: “entre sem bater”.

Comunista, foi eleito vereador no rio de janeiro pelo pcb. Slogan de sua campanha: “mais leite, mais água e menos água no leite”.
Gênio do humanismo com humor deixou frases inesquecíveis como “nunca desista de seu sonho. se acabou numa padaria, procure em outra”.

Roteiro

(entra arte com o título)
RESISTIR É PRECISO…
A Imprensa alternativa, clandestina e no exílio durante a ditadura militar brasileira

OTHON BASTOS:
No episódio ANTERIOR fizemos uma viagem aos séculos 19 e início do 20, mostrando o permanente confronto entre jornais de resistência E de oposição e os poderosos de plantão. O primeiro jornal brasileiro “Correio Brasiliense”, de 1808, por exemplo, foi feito EM LONDRES e era distribuido clandestinamente NO BRASIL por conta da repressão da corte portuguesa. Ou seja: a imprensa brasileira nasceu no exílio e clandestina.
No episódio de hoje, você vai conhecer a vida, paixão e obra do Barão de Itararé.

(vinheta)
“Um barão que não era barão faz escola e cria um estilo”

 

Jaguar fala sobre o Barão, já gravado:

“o barão é o pai e o avô do humorismo brasileiro”.
ATOR vivo, close:
Aí bateu uma dúvida danada nos roteiristas desta série. Se faziam a abertura deste episódio sobre o barão de Itararé num Centro de Estudos ou num bar mesmo, para celebrar a vida, paixão e obra do jornalista, humanista e humorista Aparício Torelly.
ATRIZ E ATOR NA PORTA DO BAR/OFF:

(E OS CONVIDADOS ENTRANDO…)

Bar ou centro de estudos? Centro de Estudos ou Bar? A solução não poderia ter sido melhor: pegamos o pessoal do centro de estudos, alguns apaixonados pela obra do Barão, e fomos todos para um bar, para conversar, rir e se emocionar com os muitas histórias que cercam a lenda Barão de Itararé, nome-disfarce usado pelo jornalista Aparício Torelli. Estão aqui conosco:

(os NOMES…).

OS CONVIDADOS FAZEM UM BRINDE, SAUDANDO O BARÃO…

ATRIZ off:
Ou como dele disse o escritor Jorge Amado:
“Mais que um pseudônimo, o Barão de Itararé foi um personagem vivo e atuante, uma espécie de Dom Quixote nacional, malandro, generoso, e gozador, a lutar contra as mazelas e os malfeitos”.

ATRIZ VIVO/off NO MEIO DO BRINDE:
Este é o emblema da casa do Barão do Itararé. E sabe como nasceu este baronato? Só podia mesmo vir de uma mente brilhante. Sempre tirando a maior onda com os politicos, o ainda jornalista Aparício Torelli (ARTE DO MAPA) teria sido enviado para a cobertura da batalha que seria travada na cidade de Itararé, na divisa do Paraná e São Paulo, entre as forças de Washington Luis e Getúlio Vargas, em 1930.

ATOR VIVO/OFF:
Na hora H não houve a batalha… AS PARTES FIZERAM UM ACORDO. Foi a deixa que o Aparíco Torelly precisava… Imediatamente se auto proclamou duque de Itararé…. E logo se rebaixou a barão, como prova de humildade… Barão de uma batalha que não houve! É a cara dele!!

(um dos presentes reforça a ideia…)

ATRIZ OFF:
Estes SÃO OS dois Almanhaques do Barão, que foram publicados originalmente em 1949 e 1955.

ATOR VIVO

(COMPUTAÇÃO GRÁFICA AJUDA NA LEITURA)

Percebeu, né, que não é Almanaque… é Almanhaque, que tem a ver com o jornal que ele fundou em 1926: A Manha. Almanhaques cheios de graça, cheios de – tem uma palavrinho que eu gosto muito – cheios de… picardia!

(Rapidamente entra letreiro do dicionário sobre a palavra picardia)

(Fala um dos presentes sobre o almanhaque…)

ATRIZ, VIVO
Este outro jornalista aqui, o Mouzart Benedito, de tão apaixonado pelo Barão, acabou virando a cara dele…

(Mouzart explica a paixão e conta um ou dois causos do barão)

OTHON
Se for realmente verdade que quem se trata com humor saberá sempre fazer um bom humor, o nosso barão pode ser considerar um campeão. Olha só a autobiografia que ele CRIOU.
ATOR
: “Aparício Torelli, Barão de Itararé, o Brando, herói de dois séculos, campeão olímpico da paz, marechal-almirante e brigadeiro do ar… condicionado, cantor lírico, andarilho da liberdade, cientista emérito, político inquieto, artista matemático, diplomata, poeta, pintor, romancista e… bookmaker.” BOOKMAKER??!!!

(DICIONÁRIO DEFINE BOOKMAKER…)

(JORNALISTAS COMENTAM A AUTOBIOGRAFIA)

OTHON BASTOS:
Uma marca registrada do Barão, uma verdadeira mania, era criar frases, brincar com trocadilhos que fizeram escola…

INTÉRPRETES DAS FRASES
Como vivia sempre sem dinheiro e sempre devendo, os bancos foram um alvo fácil para ele… olha só:
“O banco é uma instituição que empresta dinheiro se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.” (risadinha)
Outra de banco… “Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem” o banco toma!”

Tem mais uma aqui sobre… dívidas que, aliás, estão sempre atormentando o barão… e todos nois, né?!! “Tempo é dinheiro. Vamos, então, fazer a experiência de pagar as nossas dívidas com o… tempo”.

ATRIZ VIVO/OFF:
vamos falar um pouco sobre a vida que o barão levou, começando, inclusive, com uma frasezinha dele:

LETREIRO: LÁ VEM FRASE!!!

“O que se leva desta vida é a vida que a gente leva.”

ATOR/vivo:
E olha… não duvido que esta frase possa ter inspirado um samba recente e de muito sucesso: (cantando), deixa a vida me levar… vida Leva eu (repete).

(Arte certidão de nascimento com som de máquina de escrever…)

ATOR VIVO OFF (COM COMPUTAÇÃO GRÁFICA):
E como seria a certidão de nascimento do Barão? Vamos lá?
Nome de batismo: Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly.
Nascimento: 1895, na cidade de Rio Grande, na fronteira com o Uruguai.
Formação: estudou interno nos jesuítas de São Leopoldo onde, em 1909, com 14 anos, fez o seu primeiro jornal, Capim Seco, manuscrito e que teve um único exemplar.
Em Porto Alegre: foi se envolvendo com o jornalismo, lançou seu primeiro livro, entrou na faculdade de medicina. Não concluiu o curso e em 1925 foi tentar a vida no Rio de Janeiro. Conseguiu uma apresentação para o dono do jornal O Globo, Irineu Marinho e perguntado o que sabia fazer, inaugurou, em solo carioca, a sua capacidade de frasear.

LETREIRO: LÁ VEM FRASE!!!

Imagine… o barão chega ao Rio, vindo de Porto Alegre, e vai logo se encontrar com o dono de um grande jornal, O Globo. Diz a lenda que o dono do jornal, Irineu Marinho, perguntou ao barão o que ele sabia fazer. Resposta: “Tudo, de varrer a redação a dirigir o jornal. (E complementou)… Creio não haver muita diferença”.
ATRIZ:
Deu certo! O barão conseguiu o emprego… só que pouco depois da morte de Irineu Marinho, no mesmo ano, o barão de itararé resolveu, também, sair do jornal.
ATRIZ VIVO/OFF
(foto Mario RODRIGUES em computação/movimento):
Foi imediatamente contratado pelo já então famoso jornalista Mario Rodrigues, pai do escritor Nelson Rodrigues, para trabalhar no Jornal A Manhã.

LETREIRO: LÁ VEM FRASE!!!

Ao se desligar do jornal, em 1926, raramente voltou a ter um patrão jornalista e talvez por isto tenha cunhado a seguinte frase: “Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga”.

OTHON BASTOS
Ainda em 1926, mesmo sem dinheiro, fundou o seu próprio jornal: A Manha, inaugurando o estilo inconfundível de humor, ironia, sarcasmo e sempre, sempre com uma intenção política aguda. A classe política era seu alvo preferido.
Pobre classe política!

(Sobe som de textos contra os politicos)

ATOR VIVO:
O jornal foi um sucesso e transformou-se numa referência do novo humorismo que, na época, tinha O Malho, Fon-Fon e Careta. O barão foi, inclusive, o primeiro jornalista a utilizar a fotomontagem para debochar dos governantes de plantão e, de quebra, das elites brasileiras.

LETREIRO: LÁ VEM FRASE!!!

A Impressão é que o Barão tinha total consciência do tipo de humor que praticava. Veja a frase que ele criou sobre o… senso de humor:
“Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.”
ATOR VIVO:
A Manha estava indo super bem como jornal, mas como negócio… hum… dívidas se acumulando… Até que veio outra sacada genial… Entre os anos de 1929 e 1930 a Manha circulou como encarte do jornal Diário da Noite, de Assis Chateaubriand.

ATRIZ VIVO/OFF:
Aliás, sorte do Diário da Noite… Com o encarte, o Diário dobrou a tiragem na primeira semana vendendo 15.000 exemplares, e chegou a atingir a marca de 125.000 exemplares.

ATOR VIVO/OFF:
Aí, o barão, por conta da política, resolve se juntar ao presidente Getúlio Vargas… fato que tinha tudo para… não dar certo! E não deu mesmo. Quem nasceu pra ser oposição, nunca será majestade. O barão criticou tanto o aliado Getúlio que, em 1932, ele é preso por conta de seguidas estocadas em quem? No governo, lógico!!

(críticas em A Manha a Getulio)

(convidados comentam estas prisões…)
(imagens de livros sobre o barão)

ATRIZ VIVO/OFF:
Nenhum biógrafo do Barão conseguiu apontar o número exato de vezes que ele foi preso, de tanto que frequentou o cárcere. Uma delas, pelo menos, ficou mais famosa e foi provocada por uma reportagem que saiu no Jornal do Povo, publicação antifascista e com forte influência comunista que o Barão havia fundado em 1934 e que durou apenas 10 dias.

ATOR VIVO/OFF:
Foi uma série de matérias sobre a vida de João Cândido, o almirante negro que comandou a revolta dos marinheiros em 1910. A Marinha não gostou, invadiu a sede do jornal, sequestrou o Barão, que levou uma surra e teve os cabelos cortados.

LETREIRO: LÁ VEM FRASE!!!

Ele sabia que nenhum oficial seria punido. Teve então uma ideia que faz o caso repercutir até hoje. Ao voltar para a redação, colocou uma placa na porta da sua sala:
Entre… sem bater!!

(Convidados comentam)

ATOR VIVO:
Levado, em outra ocasião, para o navio presidio dom Pedro I, deixou a barba crescer como dom Pedro II, barba da qual nunca mais se livrou.

ATRIZ vivo/off:
NA PRISÃO, O BARÃO conviveu com o escritor Graciliano RamOS QUE, em seu livro Memória do Carcere, A ELE SE REFERE.

ATOR/ATRIZ
o mestre alagoano, descreveu o convívio com o Barão. “Sempre alegre, buscando animar seus companheiros de infortúnio e aparentando um otimismo a toda prova”.

OTHON
SÓ QUE, NO LIVRO, DÁ PARA NOTAR a amargura sentida por este homem barão nas noites sombrias da prisão, que mais parecia um campo de concentração. Talvez para ele, mais do que para qualquer outro, O cárcere tenha sido uma experiência atroz. O sentimento de desolação era aumentado pela morte de sua segunda esposa, ocorrida enquanto estava preso, e pela preocupação com seus filhos que estavam entregues a um amigo pouco confiável.

LETREIRO: LÁ VEM FRASE!!!

Talvez aqui se encaixem duas frases do Barão, sempre irônico, com os políticos, com os desígnios da vida e com ele mesmo…
Sabendo levá-la, a vida é bem melhor do que a morte. Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta…
Passagem do tempo (calendário? podia ser nossa vinheta de respiro entre um assunto e outro)
ATOR VIVO/OFF:
Ao sair da cadeia, em 1936, reabriu “A Manha” que durou, nesta fase, apenas um ano, por causa do cerco do TEMIDO DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda de Getúlio Vargas.

ATRIZ VIVO:
Em 1945, o barão entrou de cabeça na campanha eleitoral do Partido Comunista do Brasil, QUE elegeu 14 deputados federais e um senador.

LETREIRO: LÁ VEM FRASE!!!

3 sequências:
Aliás, o próprio todo poderoso presidente Getúlio Vargas foi vítima da agilidade mental do barão. Ao se cruzarem nos corredos do Senado, Getulio, sorrindo, sacou: “Até tu, barão”.
No que o barão revidou de bate pronto: “Tubarão?… é o senhor, eu sou apenas o Barão de Itararé”.
Tubarão era uma gíria da época para classificar os grandes exploradores do povo…

Os integralistas de Plínio Salgado, a turma da extrema direita, estavam sempre na mira do Barão. Ele disse que uma dia quase entrou para o grupo, quando viu um deles gritando: “Deus, Pátria e Família”. É que ele tinha entendido… Adeus, pátria e família”!

Ele era um inimigo do militarismo e do belicismo tão em voga naqueles anos turbulentos, que já anunciavam uma segunda guerra mundial. Gostava de dizer:
“Como se chama o assassinato de uma criancinha? Infanticídio. E o assassinato de uma porção de criancinhas? Infantaria”.
OTHON BASTOS:
É realmente impressionante esta capacidade infinita de frasear do Barão de Itararé. Algumas calavam fundo. Vejam só: a oposição liberal-conservadora criticava a constante mudança de posição dos comunistas em relação a Getúlio Vargas. Sem perder a compostura, o Barão respondeu aos críticos: “Não é triste mudar de idéias; triste é não ter idéias para mudar”.
ATOR VIVO/OFF:
No início de 1947 seria ele próprio candidato a uma cadeira na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A cidade vivia uma constante falta de água e nas padarias os proprietários adicionavam água no leite, burlando a lei e prejudicando os pobres fregueses. Por isso, decidiu que seu lema de campanha seria “mais leite, mais água e menos água no leite”.

ATRIZ vivo/OFF: (COM COMPUTAÇÃO)
Foi eleito vereador pela chapa comunista e passou a compor a maior bancada do legislativo municipal. Luis Carlos Prestes, dirigente máximo do Partidão era um fã incondicional do Barão de Itararé e chegou a afirmar: “o Barão com seu espírito não só fez a Câmara rir, como as lavadeiras e os trabalhadores. ATÉ NAs favelas O POVO DEIXAVAM DE LADO AS RÁDIO- NOVELAS PARA ouvir as sessões da Câmara que eram transmitidas pelo rádio”.

LETREIRO: LÁ VEM FRASE!!!

O registro do PCB foi cancelado em maio de 1947. Em janeiro de 1948, os parlamentares comunistas foram cassados. Entre as vítimas deste ato arbitrário estava o Barão. Ele afirmou solene: “saio da vida pública para entrar na privada”…

ATRIZ OFF/VIVO:
Em 1950 “A Manha” volta a circular, editada em São Paulo, onde o humorista passa a viver. Em setembro de 1952, o jornal deixa de circular PERIODICAMENTE, TENDO ALGUMAS EDIÇÕES DE TEMPOS EM TEMPOS.

Em 1960, PASSA A SER ENCARTE DO ÚLTIMA HORA COM MATERIAIS DE EDIÇÕES ANTIGAS, ATÉ MEADOS DE 1962, QUANDO PARA DE CIRCULAR DEFINITIVAMENTE

ATOR/ATRIZ
A participação do barão na imprensa vai se reduzindo a colaborações esporádicas. Durante algum tempo escreve para a Ultima Hora, jornal popular que foi fechado pela ditadura militar em 1964.

OTHON
Apparicio morreu em 1971. Enquanto sua vida se apagava, a estrela do barão brilhava cada vez mais, COMO UMA FECUNDA inspiração de novas geraçoes de jornalistas e humoristas… E até hoje.

VAMOS ENCERRAR O EPISÓDIO COM UMA CELEBRAÇÃO DOS CONVIDADOS DO BAR E UMA PALAVRA – APENAS UMA – DE CADA UM DELES QUE DEFINA O BARÃO…
CHAMADA PARA O EPISÓDIO SEGUINTE:

OTHON BASTOS
NO PRÓXIMO EPISÓDIO DA SÉRIE RESISTIR É PRECISO VOCÊ VAI SABER COMO ESTA IMPRENSA DE RESISTÊNCIA COMEÇOU A BROTAR COM UMA FORÇA INESPERADA…

CREDITOS

Publicado por

Documentários e depoimentos que buscam entender o que levou jornalistas consagrados a embarcarem, com um punhado de focas, ativistas políticos e intelectuais, naquelas naus incertas “sem aviso prévio e sem qualquer itinerário”, como disse o poeta.

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