Como tudo começou…

Sinopse

Em 21 de maio de 1964, 50 dias depois do golpe de 1 de abril de 1964, nascia a imprensa de resistência. A revista Pif-paf viria a ser a primeira publicação de oposição frontal à ditadura militar, puxando o fio de uma meada que se espalhou pelo país inteiro, recebeu o nome genérico de imprensa alternativa e enfrentou a dura repressão dos órgãos policiais.

Neste primeiro episódio, fazemos também uma viagem ao passado, mostrando que a resistência contra a opressão é uma velha e boa tradição da imprensa brasileira. na década de 1830, por exemplo, Cipriano Barata escrevia seu jornal nas prisões e Frei Caneca era fuzilado por defender, em seu jornal, ideais republicanos, o fim da escravidão e do império.

A plebe e o o parafuso representam a imprensa anarco-sindicalista do inicio do século vinte e as grandes greves operárias. Spartacus é o jornal dos primeiros comunistas: Astrojildo Pereira, Octavio Brandão.

Roteiro

(entra arte com o título)
RESISTIR É PRECISO…
A Imprensa alternativa, clandestina e no exílio durante a ditadura militar brasileira

 

(Entra com arte título do episódio)

Primeiro Episódio:
“COMO TUDO COMEÇOU…”
OTHON BASTOS:
A partir de agora você vai conhecer uma história que nunca foi contada na televisão. É a série Resistir é Preciso que narra, em 10 episódios, a trajetória da imprensa alternativa que surgiu em oposição à ditadura militar que vigorou em nosso país durante 21 anos, de 1964 a 1985. São mais de duzentos jornais e revistas que circularam de tudo quanto foi jeito: nas bancas de jornais, na clandestinidade e no exterior! São publicações duramente perseguidas pelo regime militar. Pois é a partir destes jornais e dos fazedores dessas publicações – homens e mulheres que foram à luta – que vamos contar esta história de resistência… porque resistir aos atentados contra a liberdade é preciso, sempre!!

ATRIZ vivo/OFF
São histórias incríveis, como o jornalista de São Paulo que, levando a família junto e correndo sérios riscos, viveu 10 anos na clandestinidade, fazendo um jornal para um partido político obrigado a viver na sombra. E sabe aonde ele fazia as reuniões de pauta?
(sobe som das reuniões de pauta)

ATOR VIVO/OFF
Ou de outro jornalista de Belo Horizonte que se pegou em tapas com um general que foi à redação reclamar de uma reportagem.
(sobe som da briga)

ATRIZ VIVO/OFF
Tem também a história da moça universitária que se apaixonou e casou com o colega de clandestinidade com nome falso… e, quando as coisas voltaram ao normal, a mãe dela a obrigou a casar de novo com o seu marido com o nome verdadeiro…
(sobe som da bígama…)

ATOR/VIVO/OFF
São, muitas vezes, histórias dramáticas como da pernambucana que chegou a fazer o jornal Brasil Mulher e que, presa, foi barbaramente torturada NAS PRISÕES DA DITADURA.
(sobe som Rosalina Santa Cruz)
OTHON BASTOS:
Assim, a nossa história começa, a rigor, 50 dias depois do golpe militar de primeiro de abril… começa no dia 21 de maio de 1964.

Imagens – de preferência jornais – falam do golpe… trilha cria certa tensão…

ATRIZ VIVO/Off
chegava nas bancas o Pif-Paf. A primeira publicação de oposição frontal à ditadura. (à parte) Oposição política e do jeito que o brasileiro mais gosta: com muito humor!

ATOR/VIVO/off
(à parte) CAPA BACANA… COLORIDA… BOM GOSTO… O Pif-Paf era comandado pelo talentoso Millôr Fernandes, jornalista, chargista muito conhecido em todo o país, por conta de uma coluna de humor na revista Cruzeiro, dono de uma capacidade de bolar frases e desenhos praticamente sem limites.

ATRIZ VIVO/OFF
(MUDA O TOM) Ah, sim… e se forem frases e desenhos contra o governo, melhor ainda. Quer ver? Olha só:

Vamos dar dois ou três exemplos…

ATOR VIVO:
eh, eh, este é o tipo de humor que o brasileiro adora, mesmo… muita ironia, muito deboche, muita irreverência…

ATRIZ VIVO/OFF:
Aliás, esta tradição de humor da imprensa brasileira não é de hoje…

ATOR vivo:
E nem de ontem…

ATRIZ vivo:
É, ó, de muito tempo atrás.

(folhinhas de calendários viajam junto…)

ATOR vivo/OFF:
Se a gente tomar por base o Pif Paf, de 1964, e voltar 97 anos nessa história, a gente vai conhecer uma das primeiras caricaturas sobre política da imprensa brasileira.

ATRIZ vivo:
A caricatura é de 1867…
e o chargista pegou pesado com o imperador dom Pedro II. Olha só os detalhes…

Computação gráfica em movimento

ATOR OFF:
A cena da charge é dentro de uma loja que, na verdade, é a sede do Ministério do Império e que só aceita vendas a dinheiro, como diz a placa.

ATRIZ OFF:
Logo abaixo da placa, o barbudo de braços cruzados é o imperador dom Pedro segundo, que tá de olho num funcionário seu, VENDENDO, no balcão, UMA MEDALHA PARA, QUEM SABE, CONSEGUIR FAVORES ESPECIAS DA CORTE…. (À PARTE) sabe como é, né….

ATOR OFF:
… E UM DETALHE: O ÍNDIO ALÍ AGACHADO REPRESENTA O POVO BRASILEIRO, MORTO DE VERGONHA PELAS ESTRANHAS TRANSAÇÕES…

ATRIZ VIVO:
A charge saiu publicada em o Cabrião, um dos jornais da época que, volta e meia, era invadido pela polícia.
(vamos para imagens de Ângelo Agostini…)

ATOR VIVO/OFF:
Já estava esquecendo de dar o nome do chargista: Taí ele… Ângelo Agostini
aqui numa autocaricatura. Além do jornal Cabrião, Agostini fundou, em 1876, a revista ilustrada.

ATRIZ OFF:
Uma revista abolicionista, republicana e que caiu no gosto popular pela irreverência e seguidas criticas à corte…

(BURBURINHO DE vozes dos dois vão destacando trechos da Revista Ilustrada…)

(CORTE BRUSCO)

(PAULO E/OU CHICO CARUSO CANTAM UM TRECHINHO DE UMA SÁTIRA POLÍTICA, SOM CAI PARA BG E O CASAL DE ATORES ENTRA EM CENA…)

ATOR vivo:
Esta dupla de gêmeos – os irmãos Caruso – leva o humor às últimas conseqüências: cantam, dançam e – atenção – fazem charge política há mais de 35 anos, desde os tempos da ditadura…

(PAULO mostra uma das suas primeiras charges políticas, assim como o chico… NA SEQUÊNCIA, UM DOS DOIS FALA DA IMPORTÂNCIA DE AGOSTINI PARA OS CHARGISTAS BRASILEIROS…)
ATRIZ VIVO
A Revista Ilustrada, de Agostini, entra na cena política e cultural como contraponto à Semana Ilustrada, de Henrique Fleuiss (FLÓIS), que reinava absoluto.

DESENHOS DO FLEUISS

OTHON BASTOS:
Aqui se repete uma outra forte tradição da imprensa brasileira EM GERAL: tem um jornal a favor….? Então logo aparece uma publicação do contra… É esse lá e lô, o tempo todo… Olha só.

ATOR vivo/off:
“A Semana”, de Fleuiss, era bem comportada, governista, que pregava nas relações entre negros e brancos uma certa cordialidade…

ATRIZ VIVO
(À PARTE) Cordialidade que o concorrente Ângelo Agostini via de maneira… bem diferente…

(desenhos em computação gráfica de Agostini sobre escravidão COM CHICOTES ESTALANDO E em MOVIMENTO)
ATRIZ VIVO/OFF (COM CALENDÁRIOS):
Se do ano de 1867, a gente pudesse voltar ainda mais 79 anos no tempo, para 1808, você poderia se ver no cais do porto do Rio de Janeiro, protegido pela escuridão, esperando uma encomenda…

(Lima Duarte no documentário “Impressões do Brasil” – História da Imprensa no Brasil – de 1986).

 

OTHON BASTOS:
Assim vai se formando o caráter da imprensa brasileira. Se o primeiro jornal nasceu no exílio e era distribuído na clandestinidade… imagine o que vem por aí!

ATRIZ VIVO/OFF:
(À PARTE) Vem, outra vez, a história do lá e lô… do contra e a favor…

ATOR vivo/OFF:
Se o Correio Brasiliense é contra a Corte portuguesa…. eis que surge, meses depois, a
Gazeta do Rio de Janeiro, que se apresentava como um jornal… a favor do governo…

OTHON BASTOS:
Aí tem um detalhe da maior importância… Quem bajula… fica, VAMOS DIZER, na boa. Agora, para quem resiste, para quem faz oposição sobra muita punição e perseguição.

(Calendário para 1832)

ATRIZ VIVO/OFF:
Um exemplo clássico desta perseguição, muita vezes implacável, é esse senhor aqui, o Cipriano Barata, que começou a publicar o seu “Sentinela da Liberdade”, em 1823, no Recife.

ATOR vivo/OFF:
Só que cada vez que publicava um Sentinela, ele era preso. E como denunciar estas prisões? Pois ele teve uma idéia genial. Colocava logo abaixo do nome do jornal uma frase assim: Sentinela da Liberdade, na guarita do quartel general de Pirajá, e de lá despoticamente para o Rio de Janeiro e de lá para o forte do mar da Bahia, donde generosamente, brada: ALERTA!

ATRIZ vivo (rapidinho CLOSE):
Só aí ele já tinha sido preso em Pirajá, depois na cidade do Rio de Janeiro e levado para a Bahia…
ATOR VIVO/OFF:
Sem contar exemplos mais dramáticos de outros fazedores de jornais, como Frei Caneca, com o seu Tiphis Pernambucano. Caneca acabou fuzilado em 1825 por que pregava em seu jornal idEias republicanas e contra a escravidão…
(nosso calendário correndo, voando… e os jornais da época marcando a informação)
OTHON BASTOS
Independente do século, da época, do ano, era o momento político que moldava as punições. Apreender jornais, empastelar redações foi uma triste rotina que atravessou a nossa história e invadiu o século vinte, quando proliferaram publicações defendendo as novas ideias, novas ideologias.
(leitura das manchetes dos jornais e trechos dos jornais, TERMINA COM A PLEBE)

DEL ROIO VIVO/OFF:
Foi assim que “A Plebe”, na edição de 21 de julho de 1917, quatro meses depois da Revolução Russa, anunciava em manchete a greve geral que parou São Paulo: PRENÚNCIO DE UMA NOVA ERA e complementava: O PROLETARIADO EM REVOLTA AFIRMA O SEU DIREITO À VIDA.
A Plebe foi fundado no mesmo 1917 por Edgar Laurenroth que, desde 1897, fazia jornais anarquistas e operários como A Lanterna. A Plebe foi também o principal jornal anarcosindicalista do Período, chegou a ser diário por volta de 1919, quando foi empastelado por alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.
ATRIZ VIVO:
… Jornais anarcosindicalistas… como assim?

(DEL ROIO EXPLICA RAPIDINHO O SIGNIFICADO)

OTHON BASTOS:
Na hora do aperto, OS JORNAIS SE DEFENDEM… mesmo COM LINHAS POLÍTICAS diferentes, ELES acabam, de alguma maneira, se juntando na resistência e na solidariedade.

ATRIZ OFF:
Foi assim que O PARAFUSO, com seu traço diferenciado pela pena do grande cartunista J. Carlos, mostrou na capa o empastelamento de A Plebe. O Parafuso era uma revista progressista, democrática e nem sempre de oposição.

(letreiros formando o nome astrojildo NA TV…)

ATOR VIVO:
É neste época que entra em cena o jornalista e intelectual Astrojildo Pereira, um protagonista importante de toda essa história da imprensa de resistência.
ATOR/off:
Com uma capacidade de trabalho invejável, Astrojildo trabalhou em muitas publicações da época. Em CRÔNICA subversiva, ele fazia de tudo… até criar pseudônimos para inventar debates com ele mesmo. No jornal Spartacus trabalhou com Octavio Brandão, com Antonio Bernardo Canellas e, juntos, romperam com o anarquismo e formaram o núcleo comunista da década de 1920. Combativo, irreverente, Spartacus sempre teve a polícia em seus calcanhares, como, aqui, na foto, durante uma apreensão.

(LUIZ DEL ROIO FALA UM POUCO SOBRE JORNAIS OPERÁRIOS E ANARQUISTAS QUE FORAM SURGINDO).

(voltamos para o calendário, parando em 1922)

ATRIZ OFF: Olha o nosso calendário viajando no tempo a procura de novas datas importantes.

calendário para em 1922…

ATOR VIVO/OFF:
Em 1922, a cultura se agita com a semana de arte moderna, em S. Paulo. E com ela, abrindo o caminho, a revista mensal Klaxon, que quer dizer buzina, em francês, porta voz do movimento. Cheio de intelectuais em sua redação, o mensário se auto proclamava assim:

(voz diferente…)

“Klaxon cogita principalmente de arte. Mas quer representar a época de 1920 em diante. Por isso é polimorfo, onipresente, inquieto, cômico, irritante, contraditório, invejado, insultado, feliz…”

ATOR VIVO:
(À PARTE) Como é que pode, gente, tanto adjetivo para falar de uma única revista!!!

DEL ROIO VIVO:
Aliás, pelo Brasil inteiro foram surgindo jornais e revistas com esta característica cultural…

(cobrir com as capas…)

ATRIZ vivo/off:
No Recife, o Maracajá e, em Minas Gerais, a revista Verde, que sobreviveu até 1929 e teve Carlos Drummond de Andrade como colaborador. Em São Paulo, Revista de antropofagia, fundada por Oswald de Andrade, em 1928, propunha que a cultura estrangeira fosse engolida pela cultura nacional e daí o nome do movimento: antropo…fagia.
(CALENDÁRIO VAI PARA 1920)

ATRIZ VIVO/OFF:
Dois anos antes da Semana, em 1920, surgiu, em São Paulo, um jornal de características únicas : combativo, com artigos sérios e, ao mesmo tempo, passando a impressão que o seu editor-chefe estava, na verdade, se divertindo muito… (À PARTE) Olha só que história…

ATOR OFF:
(com computação gráfica)

É o Jornal do Subiroff, muito pouco conhecido pela história e com uma história deliciosa. É importante ver os detalhes. Vamos começar pela capa… ocupada pela foto de Leon Trotsky, um dos chefes da revolução soviética… O titulo: Jornal do Subiroff, um nome russo… vai vendo: ao lado a foice e o martelo, símbolos internacionais do comunismo, protegidos por um feixe de palha. Mais abaixo o nome do redator chefe: Ivan Subiroff, delegado russo em S. Paulo…

ATRIZ vivo:
Delegado russo? em S. Paulo? 3 anos depois da revolução de 1917, NA RÚSSIA? A policia e a burguesia paulistas entraram em pânico…

(DEL ROIO COMEÇA DIZENDO: “É VERDADE…” E CONTA A HISTÓRIA… MOSTRA MAIS DETALHES DO JORNAL e termina citando Oswald de Andrade…)

ATOR OFF:
Bem mais conhecido do que o Subiroff, Oswald (OSVALDI) de Andrade também tentava escandalizar a elite rica de São Paulo, da qual ele mesmo fazia parte. No seu homem do povo de 1931, Osvald defendia abertamente a política soviética e atacava duramente o imperialismo norte americano.

ATRIZ VIVO/OFF:
Co-fundadora do jornal, Patrícia Galvão, a Pagu, assinava a coluna A Mulher do povo. Presa diversas vezes, ela passou a vida defendendo a maior participação da mulher na vida brasileira.

(ESTUDIOSA DO ASSUNTO, fala UM POUCO da Pagu. VER COM FÁTIMA JORDÃO).

(CALENDÁRIO VOANDO E VAI PARA 1926)

(CAMINHAMOS PARA O FINAL DO EPISÓDIO COM A CHAMADA PARA O PROGRAMA SEGUINTE).

ATOR/ATRIZ
É na década de 1920 que surge UM jornal que fez história – A Manha – dirigido pelo jornalista gaúcho radicado no Rio, Aparício Torelli, de agudo censo crítico, um humor demolidor que fez escola e o mandou várias vezes para a cadeia, acompanhado de algumas surras.

OTHON
Torelli, que SE AUTO PROCLAMOU Barão de Itararé, acabou se tornando um ícone para a imprensa de resistência.
é a sua vida, paixão e obra que abre o próximo episódio da série “RESISTIR É PRECISO…, porque é preciso resistir… sempre!
CRÉDITOS

Publicado por

Documentários e depoimentos que buscam entender o que levou jornalistas consagrados a embarcarem, com um punhado de focas, ativistas políticos e intelectuais, naquelas naus incertas “sem aviso prévio e sem qualquer itinerário”, como disse o poeta.

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