Vou-me embora para… A clandestinidade

Sinopse

A imprensa clandestina, produzida por militantes de partidos políticos considerados ilegais, manteve-se como uma chama de esperança durante todo o período da ditadura.

Logo depois do ai-5 a dissidência comunista do PCB fez circular o jornal “Resistência”. Adere à luta armada e sequestra o embaixador americano para trocá-lo por quinze companheiros presos. Nasce ali o mr-8.

O jornalista Franklin Martins, que participou do sequestro, vai para cuba. Volta ao Brasil para reorganizar o mr-8. Mas é obrigado a se exilar na França. “Voz operária”, do PCB, era produzido na clandestinidade. Marco Antonio Coelho dá um furo mundial.

Para a maioria dos militantes, ir para a clandestinidade significava deixar a família. Alguns, porém, como o jornalista Carlos Azevedo, então militante de ação popular, foram com a família para a clandestinidade. Azevedo, que editava o jornal “Libertação”, da Ap, conta como era a vida da família na condição de clandestinos, todos com outros nomes e documentos falsos.

Além do “libertação”, Azevedo participou da equipe que produziu o “livro negro da ditadura militar”. Mais tarde, contribuía para a produção de “A classe operária”, do PCdoB. E era colaborador do jornal “Movimento”.

A gráfica que imprimia tudo isso ficava num sítio na região de Embu das Artes, na grande São Paulo. O jornalista Duarte Pereira era quem dirigia o jornal e a gráfica. Que, por sinal, jamais foi capturada pelos militares.

Até 1973, o jornal “A classe operária”, do PCdoB, foi produzido pelo casal Cesar e Amelinha Telles, sob a direção do jornalista Carlos Danielli. O casal teve seus dois filhos na clandestinidade. Todos foram presos, Danielli assassinado no Doi-Codi e Cesar e Amelinha muito torturados.

Um golpe ainda mais duro foi desfechado pela ditadura contra os dirigentes do PCdoB em 16 de dezembro de 1976. Foi o massacre da Lapa. Na ocasião, os militares surpreenderam uma reunião do comitê central. Três dirigentes foram assassinados – Pedro Pomar, Leonardo Arroyo e João Batista Drummond – e vários outros foram presos.

Roteiro

(entra arte com o título)

RESISTIR É PRECISO…
A Imprensa alternativa, clandestina e no exílio durante a ditadura militar brasileira
ator/atriz
No capítulo anterior, você viu que a imprensa de resistência, em suas várias formas, se espalhou por todo o país e também no exterior.
OTHON JÁ GRAVADO
NO EPISÓDIO DE HOJE VOCÊ VAI SABER O QUE LEVA UM JORNALISTA E SUA FAMÍLIA A FICAREM NA CLANDESTINIDADE POR 10 ANOS.
TÍTULO DO EPISÓDIO
“Vou-me embora para…
a clandestinidade
Música sobe-som: Cuitelinho: “quando vim da minha terra…

ATOR/atriz
“Vou-me embora para Pasárgada, Lá sou amigo do rei, 
Lá tenho a mulher que eu quero, Na cama que escolherei”.
OBRIGADOS A BUSCAR REFÚGIO, MAS SEM DEIXAR A LUTA NEM SAIR DO PAÍS, CENTENAS DE BRASILEIROS FORAM ALÉM DE PASÁRGADA, O POEMA DE MANUEL BANDEIRA QUE BUSCA UM LUGAR IDEAL PARA SE VIVER

ATRIZ/ator
NADA MAIS DIFERENTE DA PASÁRGADA DO POETA DO QUE cair na CLANDESTINIDADE. Veja só: na clandestinidade o rei é o inimigo…

ATOR/atriz
A clandestinidade É UMA POSIÇÃO DE COMBATE, QUANDO NÃO SE PODE MAIS COMBATER ABERTAMENTE.

ATRIZ/ator
NA CLANDESTINIDADE, tudo é mais difícil. É mais difícil trabalhar para pagar as contas… e tem escola das crianças… e tem vizinhos… e tem o medo…

OTHON gravado
Nem por isso dezenas de militantes e jornalistas ligados a partidos políticos proibidos pela ditadura deixaram de entrar na clandestinidade. Os jornais que brotavam eram uma espécie de oxigênio para os militantes ficarem minimamente informados do que acontecia nos vários fronts de resistência e luta.

ATOR/atriz
Resistência.. é o nome do jornal da dissidência comunista do Partidão que começou a circular logo depois do AI-5, de dezembro de 1968. Quem ajudou a fazer o jornal foi o jornalista Franklin Martins, que já estava na clandestinidade…
Fala Franklin: à 1h09’47″ da fita bruta: “logo depois do AI-5 fizemos no Rio o jornal Resistência (…) mimeografo a alcool…”1h10’08″

ATOR/atriz
(imagens de cobertura em filme ou foto)
Só que ESTA dissidência do Partidão no Rio de Janeiro entendeu que fazer só jornal era muito pouco e decide então assumir a luta armada. O grupo faz várias ações e assaltos a banco para financiar as atividades… E procuram uma maneira de tirar o líder Vladimir Palmeira da prisão. Em setembro de 1969, o grupo seqüestra o embaixador americano para trocar por companheiros presos.

Fala de Franklin à 1h15’07″: “dava para fazer (…) ele não tinha segurança, nada…”(até 1h15’39″)
Volta à 1h16’10″: trocar por dez, Toledo diz por que não 15?” até 1h16’20″ (…) volta a 1h17’22″ “aí nasce o MR-8, quando se faz o documento à imprensa comunicando as exigências dos sequestradores…”1h17’33″.
Volta à 1h30’18″: “a partir do momento
(…) sequestro durou quatro dias – até 7 de setembro…simbólica”(1h30’46″).

 

ATRIZ vivo/off:
FRANKLIN VAI PARA CUBA. A MAIOR PARTE DE SEUS COMPANHEIROS É ASSASSINADA PELA DITADURA. ELE E OUTROS REMANESCENTES DO MR-8 CONCLUEM QUE não tem sentido a luta armada sem apoio popular. DECIDEM TRABALHAR PELA ORGANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES.
Fala de Franklin à 1h39’45″: “volto ao Brasil para reorganizar o MR-8 (…) clandestino, só saía de noite, de dia tinha que ficar em casa sem fazer barulho (…) de noite eu saia…(1h40’44″)

ATOR/VIVO:
FRANKLIN VAI À EUROPA BUSCAR COMPANHEIROS. NA VIAGEM DE VOLTA AO BRASIL, UMA MÁ NOTICIA…
Volta aos 1h45’16″: “Recado. Fique na Argentina. Tinha caído minha casa onde eu morava em SP.(1h45’35″) volta em 1h46’26″. Estava em Buenos Aires. Não dá para voltar tão cedo. Aí vou para França. Me asilo lá, 1974, 75, 76. volto para o brasil em 1977 (1h46’53″).

ATRIZ/OFF:
O NUMERO UM DO JORNAL UNIDADE PROLETÁRIA, FEITO EM CONJUNTO PELO MR-8 E AÇÃO POPULAR, É DE JULHO DE 1975. EM 1976 FRANKLIN VOLTA AO BRASIL E, CONTINUANDO CLANDESTINO, AJUDA A FAZER O JORNAL. ESTE É O NUMERO 20 DO UNIDADE PROLETÁRIA, DE FEVEREIRO DE 1979. MESES DEPOIS, COM A ANISTIA, FRANKLIN DEIXA A CLANDESTINIDADE.
BG: música para separar/respiro

ATOR VIVO:
RICARDO ZARATINI, ANTIGO MILITANTE DO PCR – PARTIDO COMUNISTA REVOLUCIONÁRIO – FOI PARA A ALN DE MARIGHELLA. PRESO DIVERSAS VEZES, BANIDO, VOLTOU AO BRASIL E FOI O RESPONSÁVEL PELO JORNAL COMPANHEIRO, VOLTADO PARA A ORGANIZAÇÃO SINDICAL. TEVE CERCA DE 40 EDIÇÕES E CIRCULOU ATÉ 1977.
Fala de Zaratini à 1h42″: “não tinha capa nem contracapa, era tudo no mimeógrafo a álcool (…) o endereço era onde nós moravamos (…) Barra Funda, José Paulino…”

BG música

ATOR/VIVO:
O PCB DECIDIU EDITAR A VOZ OPERÁRIA NA CLANDESTINIDADE. MARCO ANTONIO FOI UM DOS COLABORADORES DO JORNAL… E DEU UM FURO MUNDIAL!
(DIMINUIR SONORA EXPLICAR NO OFF)
Fala Marco Antonio aos 4’19″ da fita editada: “eu recebi uma informação através de uma psicanalista do Rio… Amilcar Lobo, que acompanhava as torturas. (…) Eu fiz uma matéria que ele teria acompanhado a tortura do Rubens Paiva… bateu nas mãos de uma grande da psicanálise mundial … resultado bateu no congresso internacional de psicanalise(…) a sociedade de psicanalise do Rio de Janeiro tomasse providências para expulsar Amilcar Lobo…” (até 6’21″).

ATRIZ/VIVO:
CLOVES DE CASTRO ERA TAMBÉM UM MILITANTE DO PCB. ELE RECEBIA OS JORNAIS DO PARTIDO.
Fala Cloves de Castro: “era um vinculo informativo da gente, sobretudo a Voz Operária (…) e o Combate vinha também nessa linha (…) liamos, discutiamos era fonte para pegar recursos de simpatizantes…”

ATOR/vivo:
COMO MUITOS MILITANTES DO PCB, CLOVES ACABOU CONVENCIDO DA NECESSIDADE DA LUTA ARMADA PARA ENFRENTAR A DITADURA. E FOI PARA A ALN ACOMPANHAR MARIGHELLA:
Fala de Cloves aos 1,28″: “estava entrando na luta armada. Como consegue as armas? as armas estão no quartel, dizia o Marighella (…) comprei um revolver de um amigo (…) e com ele conseguiu tirar vários revolvers de guardas noturnos…”.
musica/respiro
ATRIZ/OFF:
COM O GOLPE MILITAR, A POLOP, TAMBÉM NÃO PODE MAIS PUBLICAR LEGALMENTE SEU JORNAL, POLITICA OPERÁRIA. PASSOU A SER FEITO CLANDESTINAMENTE, EM MIMEÓGRAFO. (mostra) CEICE KAMEIAMA PARTICIPOU DESSE TRABALHO.

Fala Ceici: aos 2’20″ da fita editada: “em geral era na casa de alguém que não tivesse militancia de massa… era resguardado (…) a máquina sob a guarda dele e a tarefa dessa pessoa era fazer a impressão (…) e havia um esquema para levar o material etc. de tal modo que ninguem conhecesse o local da grafica … eu participava desse esquema, e o jornal circulava nacionalmente”
BG musica ou outra forma de passagem/

ATOR/VIVO
PARA IR À CLANDESTINIDADE A MAIORIA DOS MILITANTES TEVE DE DEIXAR SUAS FAMÍLIAS…

ATRIZ/VIVO:
Já o jornalista Carlos Azevedo preferiu levar sua família para a clandestinidade…
DISCUTIR COM DIRETOR REGRAÇÃO DO AZEVEDO
REGRAVAR COM O AZEVEDO
Pergunta Ricardo: aos 23’40″ da fita bruta: “quando você cai na clandestinidade, completamente?
Fala Azevedo aos 23’45″ da fita bruta: “em 1969, Ato 5, cai a celula dos jornalistas, vários foram presos, mas eles não conseguem me pegar (…) eu já estava morando em lugar não sabido, já estava esperando por isso …”
Azevedo volta aos 28’50″ da fita bruta: “é uma mudança de vida, né… as crianças … Rogério 14 anos, Luciano, 4 e tinha um bebê, a Ana, que ficava num caixotinho de maçã enquanto você cuidava das coisas da casa…”

Maria Lucia fala aos 25′ — “Vila São José, em Osasco, água de poço (…) diferente, vizinhança simples, mas gente boa etc.”

Azevedo aos 30’33″ : “aí eu tinha um carro, que depois eu vendi e o pessoal da organização dava algum dinheiro, incerto, e íamos vivendo com isso aí…’

ATOR:
E OS DOCUMENTOS? COMO SE FAZIA PARA TER DOCUMENTOS FALSOS?
Azevedo aos 57’30″ da fita bruta: ” eu e toda a familia…cia. de ônibus, documentos perdidos (…) com uma certidão de nascimento já dava para tirar uma carteira de trabalho (…)
Volta aos 59′ 20″: “a partir desse documento tiramos os documentos das crianças etc….”

ATRIZ/OFF:

NA CLANDESTINIDADE, AZEVEDO PARTICIPOU DA ELABORAÇÃO DO JORNAL LIBERTAÇÃO (mostra), DA AÇÃO POPULAR, E TAMBÉM DO JORNAL A CLASSE OPERÁRIA (mostra), DO PCdoB. ESCREVIA ARTIGOS PARA O JORNAL MOVIMENTO (mostra).
FOI DA EQUIPE QUE ESCREVEU O LIVRO NEGRO DA DITADURA MILITAR (mostra).
E ESCREVEU ESTE LIVRO QUE DENUNCIA A POLITICA DE GENOCIDIO CONTRA OS INDIOS, QUE AJUDOU NA CONDENAÇÃO DA DITADURA MILITAR NO TRIBUNAL BERTRAND RUSSELL. (mostra).

Azevedo volta aos 1h38′: esse aqui era um outro trabalho que eu fazia. porque apesar de estar dentro de uma casa eu trabalhava 12 horas por dia… boletim de noticias censuradas…”

Bernardo e Olivia– aos 3’40″ da fita bruta: “Libertação era o orgão de AP (…) Duarte Pacheco.. Carlos Azevedo (…) até Jô Moraes, atual deputada…” (4’50″)
ATRIZ/VIVO:
E A GRÁFICA? DIZEM QUE A QUESTÃO MAIS DELICADA SEMPRE É COMO MANTER UMA GRÁFICA E GARANTIR SUA SEGURANÇA. QUEM EXPLICA É O DUARTE PEREIRA, DIRIGENTE DA AP…

Fala Duarte às 2h 03′ fita bruta: ” Paralelamente a isso, vimos que precisavamos montar uma gráfica para fazer o jornal e outras publicações (…) militante comprou um sitio (…) um casal foi morar lá, Divo e Raquel Ghizoni (…) Itapecerica (…) eu ia de olhos fechados(…) eles tinham experiência rural, plantavam legumes para vender no Ceasa e levavam num carro e por baixo ia o material impresso lá… executaram tarefa que considero de enorme valor porque eles ficaram muitos anos lá…”
Volta aos 2h08′: “aí é que passou a ser impresso assim, em cores… parece que chegava a tirar 2 mil exemplares…
Volta aos 2h12′ — “Essa gráfica até o fim não cai, imprime o jornal, imprimiu o Livro Negro…não sei quando mas chegou a imprimir 5 mil (do Libertação?) É.” (até 2h12’45″).

BG música (a ver)

ATOR/VIVO:
CESAR E AMELINHA TELES, RESPONSÁVEIS PELA GRÁFICA DO PCDOB, E QUE ATÉ SUA PRISÃO EM FINS DE 1972 IMPRIMIAM O JORNAL A CLASSE OPERÁRIA, TIVERAM SEUS DOIS FILHOS NA CLANDESTINIDADE…
Amelinha Teles: fita editada aos 2’44″: tive meus dois filhos na clandestinidade (…) porque se pensar nem tem.

ATRIZ/VIVO:
O CASAL IMPRIMIA O CLASSE OPERARIA DESDE 1964, EM BELO HORIZONTE E, DEPOIS, NO RIO DE JANEIRO.
Fala Amelinha aos 3’48″ da fita editada: “Final de 1968 viemos para S. ATOR (…) chegou a imprimir 1500 exemplares (…) sacola de jornais com frutas em cima. Ia entregar no ponto…”
Amelinha descreve prisão Aos 5’40″ — “já estava cercado (…) terrorista, terrorista!”

ATOR/VIVO:
CESAR E AMELINHA SÃO MUITO TORTURADOS NO DOI-CODI.
Amelinha aos 6’50″: “Foi a pior coisa, você vê o marido em estado de coma, um amigo assassinado e seus filhos perguntando — mãe por que você tá azul e o pai tá verde? o pai verde por causa do estado de coma e eu azul por causa dos hematomas…” (até 7’11).

ATRIZ/OFF
(sobre fotografias, recortes de jornal).

O JORNALISTA CARLOS DANIELLI, QUE FOI PRESO JUNTO COM O CASAL, ERA O DIRIGENTE DO PCdoB QUE EDITAVA A CLASSE OPERARIA. FOI TORTURADO ATÉ À MORTE.
EM 1976, O PCdoB SOFRE OUTRO ATAQUE AINDA MAIS DEVASTADOR. A REPRESSÃO ATINGE A REUNIÃO DO COMITE CENTRAL. ASSASSINA OS DIRIGENTES PEDRO POMAR, LEONARDO ARROYO E JOÃO BATISTA DRUMOND E PRENDE VÁRIOS OUTROS.
AZEVEDO LEMBRA DESSE DIA…
Fala de Azevedo na fita bruta à 1h23′:
“Sabia que ia haver uma reunião importante… eu tinha um encontro com Aldo Arantes no dia 17/12/76 …” vai até 1h26′ : “o partido te procura”. (…) “continuei a trabalhar…”
RECONSTRUIR ESSE DIA 17/12/76 COM ATOR:
Em frente à casa em que Azevedo morava em Campinas: rua José Maria Lamaneres, 134 (?), Vila Industrial:

ATOR VIVO OFF:
/ alternativa — fala em off de Azevedo na 1a. pessoa com imagens do ator saindo da casa, indo p/estação etc. (???)
ESTA É A CASA ONDE AZEVEDO MORAVA, NA CLANDESTINIDADE, COM A MULHER E TRES FILHOS, EM CAMPINAS. RUA JOSÉ MARIA LAMANERES, 134, VILA INDUSTRIAL.
ELE SAIU DAQUI ÀS 6 HORAS DA MANHÃ DO DIA 17 DE DEZEMBRO PARA IR ENCONTRAR SEU COMPANHEIRO DE PARTIDO, ALDO ARANTES, EM SÃO ATOR.
FOI A PÉ PARA A ESTAÇÃO DO TREM, QUE ERA PERTO. SEGUIU POR ESSA RUA (SALES DE OLIVEIRA …) POR ALGUMAS QUADRAS, ATÉ ESTE TUNEL QUE PASSA POR BAIXO DA ESTRADA DE FERRO.
CHEGOU À ESTAÇÃO EM CIMA DA HORA. O TREM JÁ IA SAIR. CORREU PARA UMA BANCA DE JORNAL QUE HAVIA DENTRO DA ESTAÇÃO. COMPROU O ESTADO DE S. ATOR E PULOU NO TREM, QUE JÁ ESTAVA FECHANDO AS PORTAS.
HAVIA UM LUGAR VAGO. SENTOU-SE. ABRIU O JORNAL. E TEVE UM DOS MAIORES CHOQUES DE SUA VIDA: O COMITÊ CENTRAL DO PCdoB HAVIA CAÍDO! COMPANHEIROS ASSASSINADOS, OUTROS PRESOS…
Fala de Azevedo: impacto inacreditável. Me senti achatado, confusão de ideias, aturdido. Nem li a matéria naquela hora. Só pensava que não devia mais ir a São ATOR. Precisava descer do trem. Mas ele só parava em Jundiaí. Talvez tenha sido a meia hora mais longa da minha vida, o trem nunca chegava!
Chegou, afinal, desci, fui a um canto da estação. Sabia que um trem passaria para Campinas só uma hora depois.
Voltar para casa, procurar um lugar seguro para poder pensar no que fazer… Aquela hora em Jundiaí foi interminável…
De volta a Campinas, me lembro de caminhar furioso pelas ruas no rumo de casa, a cabeça fervendo. Eram umas dez horas da manhã e fazia um tempo lindo, o céu profundamente azul, como eu gostava. Mas naquele dia até o céu azul me pareceu hostil…”

 

“No dia seguinte, vi que não havia nada a fazer, a não ser, até por homenagem aos companheiros, senão continuar a trabalhar: ouvir a radio Tirana, gravar, transcrever e mandar pelo correio; escrever para o jornal Movimento, terminar o livro sobre a questão agrária. E esperar o Partido. “Não procure o Partido, sempre me disseram. Espere que o Partido te acha. Ele me achou dois anos depois”.
Sobe-som: Chico Buarque: “eu vejo a barra do dia surgindo/pedindo para a gente cantar/ tô me guardando para quando o carnaval chegar…”

 

Publicado por

Documentários e depoimentos que buscam entender o que levou jornalistas consagrados a embarcarem, com um punhado de focas, ativistas políticos e intelectuais, naquelas naus incertas “sem aviso prévio e sem qualquer itinerário”, como disse o poeta.

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