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‘Mudar não é só trocar placas’, diz vítima da ditadura

‘Mudar não é só trocar placas’, diz vítima da ditadura

Por Amanda Massuela, da Folha de S. Paulo

A Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania lançou, no dia 13, o projeto “Ruas de Memória”. A intenção é alterar o nome de 22 espaços públicos da cidade -entre ruas, viadutos e praças- que foram batizados em homenagem a marcos da ditadura militar.

Rosalina de Santa Cruz, 70, torturada e presa nos anos de 1971 e 1974, celebra a iniciativa, mas pede ações pedagógicas.

Para ela, é necessário que toda a comunidade participe do processo, num verdadeiro esforço de resgate à memória. “Que cada escola que tenha o nome de um torturador seja rebatizada, mas que isso seja discutido com os jovens para que saibam o que representa”, diz.

A secretaria diz que o projeto é uma reparação simbólica às vítimas do Estado. Sente-se contemplada?
Sinto-me contemplada pelo fato de estarmos recuperando a nossa memória. E não só eu, que fui vítima direta da ditadura, mas todo o povo de São Paulo. É muito difícil, para nós que vivemos isso, andar em um viaduto que leva o nome de Costa e Silva, responsável direto por torturas e assassinatos da juventude, dos intelectuais e militantes brasileiros. É muito difícil entrar num viaduto que se chama 31 de Março em homenagem ao dia de um golpe obscuro para a nossa pátria. Ou andar numa rua chamada Dr. Sérgio Fleury, um torturador que maltratava as pessoas da forma mais cruel possível.

“Mudar não é só trocar placas”, diz vítima da ditadura

Como recebeu a notícia de que essas vias poderiam mudar de nome?
Com alegria, porque brigamos por isso. Sinto que ajudei a construir esse projeto, estávamos juntos na luta para que isso acontecesse. Mas mudar não significa só tirar uma placa e botar outra no lugar. É preciso uma ação pedagógica, uma discussão com a população para que ela entenda o porquê de se estar fazendo isso. Eles [os torturadores e ditadores] fizeram um grande mal ao nosso país, cometeram crimes de lesa-humanidade, assassinato, tortura, ocultação de cadáveres. Assim como a responsabilização dessas pessoas, o resgate dessa memória é fundamental.

Por que esse resgate é importante?
Ao resgatar esse passado, evitamos que aconteçam chacinas como essa [em Osasco e Barueri], que matou 18 pessoas na periferia. Evitamos os desaparecimentos que continuam acontecendo nos mesmos moldes da ditadura. Assim como eu fui torturada, hoje existem jovens passando pela mesma coisa nas delegacias do Brasil inteiro sem que tenha alguém questionando o que fizeram para merecer isso. Essas iniciativas são fundamentais.

Quais nomes deveriam estar eternizados nas vias da cidade?
Os nomes de todos os presos e desaparecidos na ditadura, inclusive os menos conhecidos. Não apenas Carlos Marighella e Carlos Lamarca, mas também os operários e camponeses que tinham um reconhecimento menor. Não é o nome em si, mas o que ele significa. O importante é que eles representem as diversas Marias e Margaridas que lutaram e que continuam lutando ainda hoje.

Veja onde estão as ruas com homenagens a nomes da ditadura.