ZIKA NA TRÍPLICE FRONTEIRA

O ponto do mapa em que Argentina, Brasil e Paraguai se tornam vizinhos é um patrimônio natural da humanidade, um entreposto para o turismo de compras, mas também a sombra de tamanha riqueza. A proximidade geográfica potencializa os problemas dos três países – em especial os de saúde pública. “Mosquito não tem nacionalidade”, é a frase que mais se ouve na região. Ali, a probabilidade de uma epidemia de zika é uma tragédia anunciada. Na ponta dessa discussão estão as mulheres grávidas. Invisíveis nos cartões postais, elas são personagens de um drama que se desenha na fronteira

 

O ENCONTRO DAS ÁGUAS

Douglas Maia

Se toda história tem dois lados, na região em que os rios Iguaçu e Paraná se encontram a regra é multiplicar por três. A chamada Tríplice Fronteira se revela um desafio político, social e econômico sem limites. Sobretudo quando o assunto é saúde pública. Na região quente e úmida onde, estima-se, vivem 1,9 milhão de pessoas de mais de 70 culturas diferentes – e por onde circulam pelo menos 1,4 milhão de turistas por ano – os desafios para conter uma epidemia de zika são muitos.

De um lado do rio está a rica Foz do Iguaçu. Construída entre a segunda maior usina hidrelétrica do mundo e uma das sete maravilhas da natureza, a cidade ocupa lugar cativo no ranking dos eldorados brasileiros. “Num único feriado de 7 de Setembro, a cidade recebeu 23 mil visitantes, 10% da população da cidade. Poucos lugares chegam a tanto”, calcula a sanitarista Ivana Belmonte, chefe da Vigilância Ambiental da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa-PR).

A cidade merece boas avaliações em quase todos os índices de desenvolvimento. Exceto um: o Índice de Gini, utilizado para medir a desigualdade social. Quase metade da população não terminou o ensino fundamental. Pelo menos dois a cada dez iguaçuenses vivem de forma precária, divididos em 39 ocupações irregulares e 26 loteamentos clandestinos. Os homicídios chegaram a 6 por mês em 2015. Os índices de violência doméstica representam duas vezes a média paranaense, somando 1,5 mil notificações em um ano.

Tanto o luxo quanto o descompasso social de Foz do Iguaçu encontram eco do outro lado da Ponte da Amizade. A cidade paraguaia de Ciudad del Este atrai milhares de compradores, mesmo com a alta do dólar, os limites de US$ 300 impostos às compras na zona franca e as punições mais duras – que derrubaram de mil para cerca de 100 o número de ônibus de sacoleiros que cruza a ponte diariamente. O palácio do consumismo construído na terceira maior Zona Franca do mundo é também dono de gordos índices de ilegalidade. De cartelas de Viagra a pistolas que não cabem no bolso, tudo está à venda.

Na última década, com o objetivo de tornar a cidade um destino de compras de luxo, Ciudad del Este sofreu uma reurbanização drástica. O cenário de shoppings e avenidas largas, contudo, não dura por muitos quarteirões. Os pneus empilhados nas esquinas e o surreal Mercado de Abasto provam que as fragilidades sanitárias paraguaias resistem a qualquer tentativa de maquiagem. Se levados ao pé-da-letra, os dados dão ao lado paraguaio da fronteira uma superioridade em bem-estar que ninguém confirma.

Em meio a esse mapa esquizofrênico, a pequena e charmosa Puerto Iguazú é engolida pelas relações entre as cidades vizinhas. “Os brasileiros tratam Ciudad del Este como se fosse a periferia de Foz e Puerto Iguazú como um lugar para passear”, resume o antropólogo Waldemir Rosa, da Universidade Federal de Integração Latino Americana, a Unila. Apesar das carnes e vinhos a preços baixos que atraem os turistas, a cidade argentina fica numa das regiões mais pobres do país – a província de Misiones e o distrito de Iguazú – que ostentam índices tão ruins ou até piores que os das cidades vizinhas. “Estive em lugares de Misiones mais tenebrosos do que as piores favelas brasileiras”, atesta o jornalista e ativista Aluízio Palmar, que há quatro décadas milita pelas causas sociais na Tríplice Fronteira.

 

 

À revelia da fama que os argentinos têm de achar que os problemas da fronteira “não são com eles”, uma das autoridades do país em sanitarismo, o biólogo Oscar Daniel Salomón, do Centro de Medicina Tropical – em funcionamento no paupérrimo bairro de Belém, em Puerto Iguazú – não foge à raia. São três países, pondera Salomón, mas um único território, na paisagem, na história, no número de visitantes e nos problemas sociais. “Chineses e franceses, aqui, compartilham o mesmo ar. Chega a ser engraçado – cientistas procuram as lacunas do vírus influenza nos quatro cantos do planeta. Na Tríplice Fronteira, todas as lacunas convivem ao mesmo tempo.”

A máxima de Salomón vale para a gravidez adolescente – e seus desdobramentos, como a mortalidade materna e o abandono escolar. No “território”, o número de mães adolescentes oscila anualmente entre 20% e 24,5% do total de partos e cesáreas. Mães tão jovens representam uma população vulnerável – uma expressão tão técnica quanto retórica em se tratando dos tempos de zika.

Hoje, o vírus zika já circula nos três países. E nem poderia ser diferente. O trânsito de pessoas entre as fronteiras é livre e gigantesco. Há uma linha de ônibus que liga as cidades e é possível ir caminhando do Brasil ao Paraguai sem que se peça qualquer documento. Na fronteira com a Argentina exige-se um documento de identidade. A expectativa geral é de que subam os números de casos da doença com o aumento das temperaturas.

 

“Numa escala de zero a dez…”

Quando a epidemia de zika chegou à América, em 2015, encontrou países despreparados para o controle da doença. O assunto estava longe de ser prioridade dos governos. Argentina, Brasil e Paraguai tinham suas próprias epidemias de dengue para controlar. A descoberta da relação do vírus com a incidência de microcefalia em recém-nascidos acendeu o alerta e revelou a precariedade dos serviços de atendimento e vigilância em saúde.

“Numa escala de zero a dez, eu diria que a vulnerabilidade da Tríplice Fronteira a uma epidemia de zika é 9”, avalia o entomologista Mário Navarro, pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que trabalha em parceria com a equipe de controle do Aedes aegypti em Foz do Iguaçu. A enfermeira Mara Ripoli, do Centro Epidemiológico do município de Foz, lembra o clima de apreensão que rondava o sistema público de saúde da cidade assim que foram divulgados os primeiros casos.

 

“Quando começou a surgir a zika lá no Nordeste, percebemos alguns pacientes que tinham sintomas de dengue, mas os resultados dos exames eram negativos. Pensamos na zika, só que, na época, o estado ainda não fazia o exame da doença”, diz Ripoli. Relatos semelhantes surgem na voz de outros agentes que atuam na Tríplice Fronteira. “Tivemos 3,5 mil casos negativados de dengue em 2016. E se não é dengue, o que é?”, surpreende-se o veterinário André de Souza Leandro, chefe do Centro de Controle de Zoonoses de Foz do Iguaçu (CCZ).

Do outro lado da ponte, o espanto não é menor. “Será uma tragédia. Em 2015, 10% da nossa população teve dengue. E como é que se identifica a zika? E o fato de que o vírus se modifica? A sorte é que escapamos de muitas epidemias. Deve haver um vento que leva o pior para longe do Paraguai”, descontrai o médico paraguaio Julio Brambilla, do Ministerio de Salud Publica e diretor do hospital público de Presidente Franco, município grudado a Ciudad del Este. Julio afirma atender 100 casos de pacientes febris por dia na região.

 

Uma explosiva soma de fatores

“É bonito falar em ‘cidades irmãs’, mas esse discurso é fajuto”, diz, com ênfases, o sociólogo José Afonso Oliveira, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, a Unioeste. “Na prática, é cada um no seu canto. Não existe um pacto de fronteira”.

Essa cultura do “cada um por si” perde força aos poucos. Para rompê-la há a ação da Unila e do Grupo de Trabalho de Saúde da Itaipu-Binacional, em ação desde 2003, assim como o empenho coletivo do Centro de Controle de Zoonoses. “Eu só estou na labuta, ainda, porque acredito que daqui vai partir a solução. Podemos nos tornar um laboratório a céu aberto no combate ao Aedes”, assegura o coordenador do CCZ, André de Souza Leandro.

Mas a bomba não se desarma tão fácil. Nas cidades da Tríplice Fronteira, um impasse social, pequeno que seja, pode redundar numa crise diplomática. O município vizinho não está apenas do outro lado de uma linha imaginária, faz parte de outro sistema de governo, com leis diferentes e prioridades próprias. O difícil fica muito difícil. Muito mais que os rios Paraná e Iguaçu, há abismos entre os lados da fronteira. “O Paraguai e a Argentina têm um controle diferente de suas doenças, mas a gente não sabe muito sobre como eles trabalham”, resume a enfermeira Mara Ripoli.

A desigualdade social forma uma equação explosiva com a instabilidade política, com a corrupção do poder público e toda sorte de tráfico e crime organizado. Adicione o precário tratamento do esgoto e do lixo produzido, saúde pública sucateada, déficit educacional e poucas oportunidades de emprego. O dinheiro atrai e sua ausência retrai. Os vínculos com a região se tornam frágeis e, com eles, os cuidados com a cidade.

A única unanimidade sobre Foz e suas vizinhas – diga-se em espanhol ou em português – é que estão nuas diante da crise mundial de saúde causada pela expansão do vírus zika e pela própria crise financeira. “O próximo censo vai surpreender. Foz poderia chegar a 263 mil pessoas, mas perdeu 30 mil habitantes por causa da crise”, arrisca o biólogo Jean Rios, com conhecimento de causa. Ele é do Centro de Zoonoses do município, aplica armadilhas para o mosquito quadra por quadra dos mais de 300 bairros da cidade e se depara a cada dia com mais casas vazias.

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