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Instituto Vladimir Herzog apresenta ao público o projeto Heroínas dessa História

Instituto Vladimir Herzog apresenta ao público o projeto Heroínas dessa História

Na última terça-feira, 4 de dezembro, o Instituto Vladimir Herzog realizou uma Roda de Conversa na Caixa Cultural, no centro de São Paulo (SP), quando apresentou o projeto Heroínas dessa História. A iniciativa consiste numa série de publicações que têm como objetivo homenagear e contar a história de mulheres que tiveram filhos, maridos, irmãos mortos pelo aparato repressivo do Estado, tanto durante a ditadura militar (1964-1985), quanto no período democrático e que passaram a lutar por Memória, Verdade e Justiça.

A primeira publicação, com previsão de lançamento para meados de julho de 2019, reunirá 15 perfis de 15 mulheres que tiveram familiares assassinados pela ditadura e que desde então batalham para exigir respostas do Estado e justiça para seus mortos. Entre as 15 perfiladas do livro estarão mulheres como Ana Dias, Carolina Rewaptu, Clarice Herzog, Crimeia de Almeida, Damaris Lucena, Eunice Paiva e Ilda Martins. Entre as autoras, estão Eleonora de Lucena, Patrícia Cornills, Paula Sacchetta, Carla Borges, Tatiana Merlino, Miriam Leitão, Jéssica Moreira e Laura Capriglione. O projeto é patrocinado pela Caixa, Governo Federal – Ministério da Cultura – Lei de Incentivo e Klabin – e conta com apoio da Editora Autêntica.

O tema do evento foi “Vivências femininas sobre a violência de Estado no passado e no presente”, e teve como convidada uma das autoras do livro, a jornalista Jéssica Moreira, cofundadora do Nós, Mulheres da Periferia e repórter da Agência Mural de Jornalismo. A mediação foi de Carla Borges, uma das coordenadoras do projeto.

 

Trazer à tona histórias silenciadas
Na abertura do encontro, Ivo Herzog, presidente do conselho do Instituto Vladimir Herzog, explicou como surgiu a ideia do projeto e ressaltou a importância de se fazer um livro para entender a trajetória dessas mulheres, “para que as violências cometidas no período não se repitam”. Sônia Regina da Silva, da Caixa, ressaltou a importância de se apoiar projetos que debatam o tema dos direitos humanos.

Carla Borges contou que essa era a primeira apresentação pública do projeto, um sonho antigo do Instituto. “A ideia é jogar luz, trazer à tona histórias silenciadas. São histórias de mulheres que nunca desistiram de lutar por seus familiares, luta que em alguns casos, dura mais de 50 anos. Queremos colocá-las como protagonistas”, pontuou. O livro, conta ela, tem uma abordagem “inédita e inovadora”.

Carla apresentou uma pesquisa realizada por ela e pela jornalista Tatiana Merlino, coorganizadora do livro, na qual levantaram possíveis perfiladas para a publicação. Elas chegaram a 70 nomes, dos quais escolheram 15. O critério para a seleção foi sobretudo o de idade. “Nossa prioridade foi incluir no primeiro livro as mulheres que estão vivas e com idade avançada”.

 

Enterrados como indigentes
Em sua fala, a jornalista Jéssica Moreira tratou da continuidade da violência do Estado nas periferias, mesmo após a redemocratização e defendeu participação e engajamento para romper com o ciclo de repressão. Moradora do bairro de Perus, na Zona Norte da capital, a jornalista contou que seu tio trabalhou como coveiro do cemitério Dom Bosco, onde, em 1990, foi descoberta a vala clandestina de Perus, onde havia mais de mil ossadas não identificadas numa vala comum. “Meu tio achava estranho que as pessoas que eram enterradas lá chegassem com hematomas, tinha uma desconfiança”, disse, referindo-se à engrenagem da ditadura, que desaparecia com corpos de opositores políticos, mortos sob tortura e enterrados como indigentes.

“Essa história não foi contada na minha escola, mas é preciso resgatar a nossa história, para que essas coisas não aconteçam mais, para que a gente não passe mais por isso”, disse, dirigindo-se à plateia de estudantes da rede pública de ensino, moradores, na maioria, do bairro do Grajaú, Zona Sul de São Paulo.

No ano em que a vala era aberta, lembrou, a “juventude preta e periférica continuava morrendo”. Como exemplo, Jéssica citou a música dos Racionais MC’s, Capítulo 4, Versículo 3, do álbum “Sobrevivendo no Inferno”, que retrata o cotidiano de violência que atinge os jovens de periferia. Sessenta por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras. Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros. A cada 4 horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo”.

A jornalista lembrou também do mega massacre ocorrido em 2006, quando quase 600 pessoas foram assassinadas. O evento violento ficou conhecido como “Crimes de Maio” e a partir dele foi criado o Movimento Mães de Maio, formado por mães de vítimas assassinadas pelo Estado nesse período. “As Mães de Maio e a as mães das vítimas da ditadura têm em comum o esforço de contar a história de seus filhos a partir de quem eles eram. É um esforço dolorido e que muitas vezes causa depressão”.

 

Modo de sobreviver
Jéssica contou que como moradora de periferia, virar jornalista foi uma forma de contar a sua história. E dos seus. “Foi um modo de sobreviver, de contar a minha história e de pessoas iguais a mim”.

A jornalista será uma das autoras da primeira publicação do Heroínas dessa História, e fará o perfil de Damaris Lucena, ex-presa política, que teve o marido Antônio Raimundo Lucena, assassinado na sua frente e de seus filhos. “Quando se falava em ditadura, logo pensava em estudantes da USP, pessoas brancas, com uma realidade muito distante de mim”, disse Jéssica. Mas o encontro com Damaris, hoje aos 92 anos, mudou a impressão de Jéssica; “Ela é uma mulher negra, nordestina, que foi operária, o encontro com ela foi muito importante”, explicou.

No próximo dia 15, às 10h30, o projeto será discutido em outro evento, na Unibes Cultural. Participarão do encontro as coordenadoras e organizadoras do projeto, Carla Borges e Tatiana Merlino e uma das perfiladas do livro, Criméia Alice Schmidt de Almeida, ex-presa política, militante de direito à memória e à verdade e integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Mais informações: Projeto Heroínas dessa História: mulheres e a memória dos mortos pela ditadura militar

Confira as fotos da roda de conversa na galeria abaixo (crédito das fotos: Carolina Vilaverde/Instituto Vladimir Herzog):