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Homenagem a Marco Antônio Tavares Coelho

Homenagem a Marco Antônio Tavares Coelho

Para homenagear o idealista, jornalista e militante político de esquerda Marco Antônio Tavares Coelho, por ocasião de seu recente falecimento, pedimos a seu filho, Marco Antônio Tavares Coelho Filho, que escrevesse um texto sobre a histórica e marcante trajetória de seu pai – distinguido em 2013 com um Prêmio Vladimir Herzog especial, pelo conjunto de sua obra – que a seguir transcrevemos.

O Velho completo

Um homem em movimento
Por Marco Antônio T. Coelho Filho

A princípio, como jornalista calejado, escrever sobre meu pai, Marco Antônio Tavares Coelho, morto em novembro, aos 89 anos, deveria ser tarefa descomplicada. Pelo menos do ponto de vista técnico, descontada a óbvia emoção que a circunstância acarreta. Afinal, tenho conhecimento detalhado a respeito da imensa maioria dos momentos definidores da sua jornada pessoal. Isso quando não participei diretamente deles.

Mas as coisas não são tão simples. A vida do “Velho”, como eu carinhosamente gostava de chamá-lo, registra passagens dignas de um bom roteiro cinematográfico. É só prestar atenção aos “highlights”. Um agitado mandato de deputado federal abreviado pela cassação do dono. Militância comunista apaixonada, quase sempre clandestina, que se estendeu pelos anos 1950, 60 e 70 (chegou a participar do secretariado do comitê central do PCB). Prisão, em janeiro de 1975, com direito a sessões de tortura patrocinadas pela ditadura militar. Reinvenção profissional, na meia-idade, ao abraçar o jornalismo como ganha-pão. Por fim, a paixão da maturidade: o ambientalismo – combativo, é claro!

Acho que essa ligeira sinopse me garante a prerrogativa informal de não honrar, no texto, com a concisão devida, uma das vacas sagradas do meu ofício. Vou além, e já me sinto antecipadamente desculpado por uma ou outra “viagem da memória”.

O Velho foi um típico homem de esquerda do século passado, quer dizer, alguém preocupado em corrigir as notórias e crônicas desigualdades sociais produzidas no mundo. Acreditem, longe de qualquer exagero retórico, houve tempo, no Brasil, em que pessoas comuns se dedicaram a esse projeto vinte e quatro horas por dia, sem nunca reclamar das dificuldades enfrentadas. Descruzar os braços diante das injustiças e questionar a ordem estabelecida se impunha como imperativo moral. Não graças ao acaso, minha mãe, Terezinha de Castro Tavares Coelho, esteve incondicionalmente ao lado do marido no esforço, tão generoso quanto temerário, de dar corpo à sonhada utopia igualitária.

Oriundo de família mineira católica, instalada nas franjas da classe média (o pai era servidor público, a mãe, professora), ele não reunia os requisitos associados ao comportamento dito rebelde – nunca lhe faltou nada na mesa, não passou privações materiais, frequentou escolas conceituadas e a vida doméstica era pacífica.

O que fez despertar naquele jovem o inconformismo inato, latente ou geracional? Suspeito que o processo ganha os primeiros contornos com as dúvidas semeadas pelos livros então lidos aos montes (ledor incansável, segundo minhas tias), vindo depois a se consolidar como reação ao fascistoide Colégio Marconi, cuja rigidez normativa o chocava e enchia de brios.

Aos 16 anos, já confortável no papel de enfant terrible, ganha um famoso concurso de oratória realizado em Belo Horizonte, sua cidade natal. O mote escolhido não podia ser mais sintomático: um ataque a Deus, à Família e à Pátria. A performance desperta o interesse de Darcy Ribeiro, então estudante da Faculdade de Filosofia, que imediatamente o recruta para o PCB. Corria o ano de 1942.

No seu livro de memórias “Herança de Um Sonho”, o Velho recua sessenta anos no tempo e descreve com singeleza desconcertante a adesão: “Eu queria participar de qualquer coisa que fosse clandestina.”

O militante e a clandestinidade
A partir daí, ele mergulha de cabeça no projeto socialista, na época, a opção possível para aqueles que não endossavam o status quo vigente. O projeto comunista carregava uma grandeza humanista que lhe conferia o apelo necessário para incendiar corações e mentes que ansiavam por mudanças. Aglutinava forças sociais importantes, alicerçava-se numa teoria econômica sólida, trazia o frescor da novidade e dava provas de eficácia onde fora implantado. O romantismo quixotesco, tutelado pela ideologia e pela desinformação (a Internet não existia nem nos filmes de ficção científica), elidia os furos e inconsistências do modelo.

É bom lembrar que, até o início dos anos 1960, a única referência partidária de esquerda importante no País era o PCB. Nele o Velho fez de tudo, de levantes estudantis a greves nos grandes centros urbanos e no campo. Logo ascende na hierarquia interna, virando um genuíno “capa preta” (dirigente). As exigências aumentam. A clandestinidade e a dedicação ao partido passam a modelar e impor rotinas de vida duríssimas, inimagináveis no mundo de hoje, no qual o indivíduo é o centro incontrastável do universo.

Para os jovens comunistas de então, o “coletivo” gozava de absoluta precedência. Um exemplo ilustrativo de como as coisas rolavam. Meus pais se casam em janeiro de 1954, e semanas depois ele recebe a “missão” de ministrar, em Pernambuco, um curso dirigido à “formação de quadros”. Por lá fica sete meses, sem que minha mãe saiba onde se encontra o marido e quando irá voltar. Ninguém do partido lhe dá a mínima informação. Resultado: trauma zero, para ambos. A tarefa era mais importante!!!! O absurdo foi absorvido com resignação.

No período em que o Stalinismo deu as cartas no partidão, o Velho mostrou jogo de cintura ao lidar com o esquematismo ideológico reinante. Trabalhou e conviveu com figuras do porte de Luís Carlos Prestes, João Amazonas, Mariguela, Giocondo Dias e Gregório Bezerra, sem deixar de olhar criticamente as atitudes tomadas pela agremiação e propor correção de rumos. É histórica a sua aliança com Armênio Guedes – outro dirigente importante do PCB – no combate às posições prestistas, monótonas ressonâncias da célebre citação “sempre sigam a estrela vermelha do Kremlin”. O culto à personalidade do georgiano bigodudo deixava pouco espaço à contestação na época. Mas a proverbial sagacidade mineira lhe permitiu fazer oposição num ambiente tão fechado – coisa que os mineiros sabem fazer com maestria.

Talvez a maior contribuição dada por meu pai à cultura política brasileira de esquerda tenha se consumado no V Congresso do PCB, em 1960. Ali, defende a criação de uma frente democrática, inclusive com a participação de setores importantes da “burguesia nacional” ao lado dos comunistas. Ele argumenta que, dado o grau de desenvolvimento do capitalismo, essa aliança configura-se estratégica na construção de uma política destinada a “milhões de pessoas”. A luta armada como via de acesso ao poder é posta em xeque. A tese da democracia como valor universal começa a ser aventada naquele momento – não explicitamente, como vem a ocorrer mais tarde, nos vindouros anos 1980 – dentro do PC italiano.

Propugnando ideias como essa, o Velho se elege deputado federal pela Guanabara (RJ) e vive “na luz” por um breve período de 13 meses, sustado no golpe de 1964. No parlamento retoma a verve oratória, numa época em que os “tribunos” faziam história no país, como Almino Afonso, Lacerda e tantos outros. Por ter se preparado antes, ao criar a famosa Assessoria Técnica Parlamentar do partidão que assessorava os parlamentares comunistas infiltrados em diversas legendas de aluguel, o Velho se saiu bem. Foi eleito no fim de 1963 pelos jornalistas que cobriam a Câmara como o melhor deputado do ano. Os setoristas daquela época eram simplesmente Carlos Castelo Branco, D’Alembert Jaccoud, Almir Gajardoni, Evandro Carlos de Andrade, Haroldo Cerqueira, Maria da Graça Dutra e muitas outras figuras lendárias do jornalismo político brasileiro. E, por tudo isso, acaba se transformando na principal interlocução do PCB com o presidente João Goulart, que ouvia e queria saber o que estavam pensando os comunistas.

O Golpe e mais clandestinidade
Cassado na primeira lista, volta para a clandestinidade, agora numa situação muito mais perigosa. A atividade parlamentar lhe propiciara, consideradas as circunstâncias, indesejável visibilidade.

Entre 1964 e 75, ano em que foi preso pelo Doi-Codi, no Rio de Janeiro, aí sim a vida do Velho deu cambalhotas. Emagreceu 20 kg, andava com várias identidades falsas (colocava pedras no sapato para mudar o jeito de caminhar), vivia ora em “aparelhos” (casas alugadas pelo partido com o propósito de esconder seus dirigentes e fazer reuniões), ora com a família,  ajudava a tirar companheiros do País ou mesmo viajava ao exterior à cata de recursos destinados à luta contra o regime militar. Enfim, uma quadra agitada que o levou a assumir, por ser um dos raros membros do Comitê Central a permanecer no Brasil, inúmeras responsabilidades que razões de segurança e o bom senso desaconselhavam.

A ironia da história é que a comprovação do acerto político da linha programática adotada a partir do V e consolidada no VI Congresso do PCB – a deliberação de derrotar a ditadura com uma frente democrática e por meio do voto – começa a se evidenciar a partir de 1974, quando os comunistas do partidão estão sendo presos, mortos ou exilados. A vitória esmagadora do MDB sobre a ARENA, resultado repetido nos pleitos subsequentes, não só confirma a tese como dá a ela um caráter antecipatório; basta lembrarmos da consagrada transição, sem ruptura, do regime militar para a democracia, que vem em seguida.

Prisão e tortura
Em 1975, a cúpula do governo já absorvera a necessidade inescapável da distensão (“lenta, segura e gradual”, segundo formulação do general Golbery), enquanto o aparelho repressivo gozava seu apogeu. Virara uma máquina bem azeitada, eficiente ao extremo. Tinha desorganizado ou liquidado todos os grupos e agremiações de extrema esquerda, graças ao aperfeiçoamento dos métodos utilizados na análise de dados, nas capturas e na obtenção de informações dos opositores (leia-se tortura). Sua liberdade de ação era tamanha que chegava a constituir um poder paralelo ao estado. Nesse contexto dão-se as “quedas” do partidão e ocorrem as emblemáticas mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho.

O Velho foi um dos homens mais torturados do Brasil. Ele passa por DOI-CODIs diferentes (RJ, SP e RS), sendo submetido às mais infames e variadas formas de violência nos três. A falta de sintonia entre o comando de Brasília e os aparelhos de repressão salta aos olhos. Quando minha mãe consegue visitá-lo em São Paulo, a desfaçatez raia o deboche: certos da proteção corporativa, os torturadores nem sequer procuraram atenuar as marcas da barbárie perpetrada. Uma camisa de manga curta deixava à mostra os hematomas da pancadaria e do pau de arara.

Período conturbado e duro da vida dele. Depois de três meses nessas câmaras de horror, passa mais quatro anos e meio em presídios distintos, como Dops, Hipódromo e, finalmente, Barro Branco, da polícia militar paulista. Para quem supõe que aí a barra fica menos pesada, ledo engano.

Na sociedade fervilhava a luta pela reconquista das liberdades democráticas e pela anistia, que só se consuma em 80. No Barro Branco, a agitação não fica atrás – denúncias vêm à tona, urdem-se manifestos e greves coletivas de fome são planejadas e realizadas. Uma delas dura incríveis 13 dias.

A vida reassume ares de normalidade quando o Velho sai da cadeia e se engaja profissionalmente no jornalismo, posto de onde acompanha suas ideias serem carimbadas nas eleições para governo em 1982, na campanha das “Diretas” e na vitória de Tancredo Neves no colégio eleitoral . No fundo, era um reformista, capaz de fazer autocrítica, reconhecer o fracasso do “socialismo real” e a vitória da democracia como sistema político mais avançado.

Volta ao Jornalismo
Como jornalista, tive o prazer de participar com ele de uma iniciativa inovadora em Goiás: um jornal diário, cujo dono, Batista Custódio, cheirava “a mato e máquina de escrever”. Projeto do tempo em que escribas impenitentes se juntavam para trabalhar por amor à profissão, acreditando na missão inegociável de reportar histórias voltadas ao interesse público. Embarcaram nessa aventura Washington Novaes ( meu eterno editor–chefe), Aloysio Biondi, Reinaldo Jardim, José Antônio Menezes (Pindé) e outros experientes profissionais locais, casos de Carlos Alberto Safadi, Jayro Rodrigues, Wilmar Rocha e João Só. Tive o privilégio de conviver com esses craques.

O Velho tinha um texto limpo. Curto, seco, avaro de adjetivos, sintético. Mas sua grande característica dentro de uma redação era saber explicar aos repórteres por onde ir, como tratar um assunto qualquer e o que era importante. Sua experiência como jornalista, na verdade, vinha de longe, já da época em que se formara advogado, em B.H., e também por ter editado nos anos de clandestinidade o lendário jornal do PCB, “Voz Operária”.

Nos anos em que passou na clandestinidade – para não ser injusto com os inúmeros profissionais do jornalismo que o ajudaram e para quem ele foi uma “fonte” inestimável –, dois nomes me saltam na lembrança como amigos do Velho, dos quais não posso esquecer: Milton Coelho da Graça e Claudio Abramo.

O primeiro, companheiro de militância do PCB, mas sempre dirigindo grandes redações, a despeito dos perigos da vida dupla, publicava um jornal clandestino importante chamado “Notícias Censuradas” – nome autoexplicativo. Milton, preso também em 1975, é um dos motivos da célebre frase de Roberto Marinho para os militares: “Dos meus comunistas, cuido eu”.

E o segundo, generoso, corajoso, um “monstro sagrado” do jornalismo brasileiro (reformou e deu relevância aos dois maiores jornais paulistas, Estadão e Folha), protegeu meu pai e a nossa família, nos dando guarida, apoio financeiro, carinho e principalmente um olhar inteligente e sagaz sobre a conjuntura política. Ambos foram fundamentais.

Novos tempos
Com a queda do muro de Berlim e o fim da experiência do socialismo real na União Soviética, depois de 70 anos, o Velho respira fundo e inicia mais um processo de revisão de expectativas. Em São Paulo passa a editar a revista do Instituto de Estudos Avançados, da USP, um lugar que considerava ideal para trabalhar. Lá permanecia conectado com o que havia de “ponta” no pensamento intelectual no Brasil. É dessa posição que meu pai, longe das lides partidárias, pois o PCB há muito já não existia – a sigla ainda continua formalmente, mas longe daquele espírito inicial –, apesar de manter seus laços com o PPS, para onde se deslocara parte de seus antigos companheiros, passa a se dedicar ao trabalho de escritor.

Com mais de 70 anos, escreve quatro livros: o primeiro, de memórias,  Herança de um sonho – As memórias de um comunista (Rio de Janeiro: Record, 2000); o segundo, Rio das Velhas – memória e desafios (Paz e Terra, 2002); o terceiro, Rio Doce: a espantosa evolução de um vale (Paz e Terra, 2005); o quarto, Os descaminhos do São Francisco publicado em 2012 pela editora Autêntica.

Sua nova postura como defensor dos direitos ambientais, em grande medida advém de sua amizade com o jornalista Washington Novaes, um amigo que sempre o acompanhou desde sua saída da prisão, bem como do seu pragmatismo político. Ele sabia que a próxima grande batalha da humanidade será pela água. E é nesse sentido que se debruça sobre a situação de importantes rios brasileiros – o Doce, o das Velhas e o São Francisco.

O Velho, como bem pontifica minha mãe, sua eterna companheira, “era um homem de ação”. Ele precisava sempre estar fazendo algo importante, “em prol dos outros”. Era a sua obsessão. Teve sorte de conseguir passar por grande parte das vicissitudes clínicas (infarto e outras intervenções médicas de toda natureza) com galhardia e voltar sempre para a atividade intelectual que lhe dava tanto prazer. Eu e minha irmã sempre comentávamos a cada episódio médico superado: “Lá vem a fênix novamente renascendo das cinzas”. No último dia 21 de novembro de 2015, ele não conseguiu mais.

Como bem escreveu o ensaísta e jornalista Luiz Sérgio Henriques, numa resenha que fez do livro de memórias dele, ao lembrar Carlos Drummond, quando definiu “a sua gente mineira, como é o caso de Marco Antônio Tavares Coelho, a capacidade de ser herói parecendo ser apenas um homem comum”.

Esse foi meu pai, um ser político, um intelectual de ação que viveu o sonho da utopia comunista sem nunca perder a capacidade crítica de se reformar. Um homem completo.

A ele me curvo e presto minhas homenagens.