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Fernando Birri, o mestre

Fernando Birri, o mestre

Um homem do mundo. Por conta do exílio, durante a ditadura militar argentina, morou em diversos países, entre eles Brasil e Cuba. Por onde passou, provocou transformações. Influenciou e foi influenciado por uma geração de cineastas que construíram o Cinema Novo no Brasil e o movimento Nuevo Cine em diversos países da América Latina.

Este era Fernando Birri, cineasta argentino que lamentavelmente morreu no final do ano passado, no dia 27 de dezembro, em Roma, na Itália, aos 92 anos.

Birri entendia como tarefa revolucionária a solidariedade entre os povos. Era um dos grandes, que via na arte uma forma de militância. Para ele, os artistas estavam a serviço do povo, sem que isso significasse subserviência.

Nos anos 1960, veio buscar exílio no Brasil de João Goulart. Aqui, fez amizade com Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Gente que estava cozinhando a grande revolução que viria a ser o Cinema Novo e tinha Birri como irmão de ideias e um mestre a ser ouvido.

Antes disso, na década de 1950, já tinha começado a exercer alguma influência no cinema brasileiro. Birri ministrava um curso em Santa Fé, sua cidade natal na Argentina, quando recebeu em sua sala de aula dois jovens aspirantes a cineastas: Maurice Capovilla e Vladimir Herzog. “Nós lemos no Brasil que aqui há uma escola de cinema e queríamos aprender a fazer cinema”, disseram os dois ao se apresentarem no primeiro dia de aula. Sua relação com Herzog deu origem a “Vlado e Birri”, curta-metragem dirigido por Marina Weis e Laura Faerman e que parte de uma narrativa do próprio Birri sobre o jornalista assassinado pela ditadura em 1975.

Muito mais que cineasta, Birri foi também um teórico do cinema, professor e educador que plantou múltiplas experiências de ensino de cinema e televisão. Foi pintor, escritor, poeta. Um visionário, um libertário. Acima de tudo, foi alguém que jamais abriu mão de seu direito de construir coisas baseadas em seus sonhos mais utópicos, com método e rigor. Como bem disse Luiz Zanin Oricchio, em coluna para “O Estado de São Paulo”, sua perda mal pode ser ainda avaliada, tamanha sua importância.

“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.”
Bertolt Brecht