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EDITORIAL: A dor que acordou o Brasil

EDITORIAL: A dor que acordou o Brasil

EDITORIAL

A Dor que Acordou o Brasil

As manifestações que tomaram conta do país nos últimos dias podem ser encaradas como o transbordamento da insatisfação que estava estancada na população brasileira diante da violência, da perseguição e da criminalização dos mais pobres e de tantos outros retrocessos e violações de direitos humanos impostos em nosso país.

Nossa democracia está ferida, ameaçada e a execução de uma vereadora que dedicou sua vida à defesa da justiça e da dignidade humana deixa isso escancarado.

O momento exige de todos nós a sensibilidade e a força necessárias para honrar a vida, a trajetória e a luta de Marielle.

A história nos lembra que no dia 25 de outubro de 1975, em meio à ditadura que nos aterrorizou por mais de duas décadas, Vladimir Herzog foi brutalmente assassinado pelas forças do regime militar. Sua morte provocou comoção em todo o país. Mas foi pelo empenho e pela determinação de Clarice Herzog, de Dom Paulo Evaristo Arns e daqueles que defenderam a democracia de forma incansável, que toda aquela dor se transformou em luta.

Uma semana depois do assassinato de Herzog, no dia 31 de outubro, mesmo com a cidade de São Paulo tomada por barreiras policiais que pretendiam impedir qualquer manifestação popular, milhares de pessoas foram à Catedral da Sé exigir o fim das atrocidades promovidas por um Estado violento e autoritário.

A ditadura ainda demoraria quase dez anos para chegar ao fim, mas as manifestações populares que se seguiram em outras cidades do país foram determinantes para a abertura política e o início da redemocratização do Brasil.

Agora, 43 anos depois e mais do que nunca, é imprescindível que tenhamos a determinação de Clarice, de Dom Paulo e de todos aqueles que, sob a inspiração de Vladimir Herzog, bradaram contra o regime militar.

Marielle tinha coragem, tinha legitimidade e não tinha medo de se posicionar. Em vida, foi uma dessas pessoas que nos mostraram a direção certa a seguir. Com seu trabalho, sua luta e sua energia, deu a quem mais precisava a possibilidade de ter esperança.

Ao morrer, tornou-se ainda maior: atraiu a atenção de todos, mostrando que a única política que vale a pena é aquela que é feita pelas pessoas e para as pessoas.

Nesta semana, sete dias após o assassinato de Marielle, o Instituto Vladimir Herzog lança um novo projeto – o Usina de Valores, que busca, acima de tudo, estabelecer o diálogo e valorizar as diferenças, a democracia, a liberdade de expressão e os direitos humanos.

Em meio a tanto preconceito, discursos de ódio e intolerância que vieram à tona nos últimos dias, este projeto é uma contribuição importante para prosseguirmos com a luta de Marielle.

Nosso compromisso é fazer com que este momento de dor e revolta se transforme em um basta e, a partir dele, em um movimento capaz de romper com as violências e violações que temos vivido no Brasil.

É assim que faremos com que Marielle continue sempre presente. E isso só depende de nós.

Rogério Sottili
Diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog