DOE AGORA

Dom Paulo Evaristo Arns morre em São Paulo aos 95 anos

Dom Paulo Evaristo Arns morre em São Paulo aos 95 anos

Morreu na última quarta-feira (14) o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Emérito da Arquidiocese de São Paulo, aos 95 anos de idade. Ele estava internado desde o dia 28 de novembro em decorrência de problemas pulmonares.

O Instituto Vladimir Herzog presta suas homenagens ao Cardeal Coragem, um dos mais importantes brasileiros do século XX. Um homem que, de 1966, quando chegou a São Paulo para ser bispo-auxiliar da zona Norte da capital até 1998, quando se aposentou como cardeal-arcebispo, se tornou um dos mais fortes símbolos de resistência à ditadura militar e aos desmandos de um capitalismo opressor e sufocante.


“Dom Paulo. O que dizer dele? Um herói? Um exemplo a ser seguido? Possuidor de valores que desejamos para toda a sociedade?

Para mim era mais do que isto. Resumo relembrando o dia 31 de outubro de 1975. Termina o ato ecumênico. Eu, com 9 anos tentando entender, processar tudo aquilo. E como filho mais velho, cuidar da minha mãe que estava destruída.

Vem dom Paulo e a acolhe. Diz para minha mãe: “chora, põe tudo para fora”. Ele deu o colo que ela precisava. Ele é para nós algo além de tudo que ele é para todos.”

Ivo Herzogclarice

 

 Conheça a biografia de Dom Paulo Evaristo Arns no portal Memórias da Ditadura

 

Leia a nota divulgada pelo Instituto Vladimir Herzog:

Dom Paulo não morreu. Nunca morrerá

O Cardeal da Liberdade continuará sempre nos corações dos que prezam o livre arbítrio e por ele lutam. Daqueles que não toleram ditaduras nem com elas compactuam.

O Bispo dos Oprimidos e Cardeal dos Trabalhadores nunca será esquecido pelos operários, pelos moradores de favelas e periferias. Pois foi em seu benefício que, logo ao se tornar arcebispo metropolitano de São Paulo, vendeu o palácio episcopal para instalar 1.200 centros comunitários, 2.000 Comunidades Eclesiais de Base e inúmeros outros projetos sociais pela capital.


dompaulo1

O Bom Pastor estará sempre presente e inspirando os participantes da Comissão Justiça e Paz, por ele criada em 1972 para promover os valores universais da paz, da cidadania e da dignidade da pessoa humana.

O Cardeal da Cidadania nunca sairá dos sentimentos dos familiares de mortos, perseguidos e desaparecidos políticos, pelos quais enfrentou a ditadura em diversas oportunidades e, com o rabino Henry Sobel e o pastor Jaime Wright, comandou a publicação do livro Brasil:Nunca Mais, que registrou informações sobre mais de 700 processos do Superior Tribunal Militar, denunciando a repressão política no país.

O Guardião dos Direitos Humanos jamais poderá ser esquecido pelos admiradores de Adolfo Perez Esquível, ativista argentino e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, que declarou ter sido “salvo duas vezes” por ele.

O Amigo do Povo – como ele próprio se definia – estará sempre presente entre os amigos e familiares do estudante universitário Alexandre Vannucchi Leme, morto pela ditadura em 1973, em cuja homenagem ele celebrou missa na Catedral da Sé, em São Paulo.

Foi na mesma Catedral que ele denunciou o assassinato de Vladimir Herzog por agentes da ditadura, já no ofício religioso em sua memória, em 1975.

O amado e reverenciado Dom Paulo Evaristo Arns é e sempre será um rosto, um vulto e uma voz indeléveis nos corações dos familiares, descendentes e amigos do Vlado.

 

Leia artigo de Ivo Herzog publicado no jornal O Estado de S.Paulo, no dia 14 de novembro:

‘Abraçou minha mãe e nos protegeu’, diz filho de Herzog sobre d. Paulo

“Dia 27 de outubro de 1975, conheci d. Paulo. Eu tinha 9 anos e estava na tempestade da morte do meu pai. Excesso de informação para saber quem era d. Paulo naquele dia. Voltaríamos a nos encontrar 4 dias depois no ato ecumênico na Catedral da Sé. Ali comecei a aprender quem era d. Paulo. Porém, algo mais importante aconteceu naquele momento. Filho mais velho, vendo o mundo acabar, criei a fantasia de que seria capaz de cuidar da minha família. Minha mãe, minha avó e meu irmão. Igreja era um objeto distante do nosso mundo. Faz 41 anos. Mais do que a imagem, que o tempo corrói, existe algo lá dentro de mim que me mudou para sempre. Um sentimento de gratidão infinita e respeito por aquele homem, tranquilo e sereno, abraçando a minha mãe. Acolhendo-a. Dando carinho e deixando-a pôr para fora toda a dor que sentia. Protegendo-nos da tragédia do momento. Ali nascia d. Paulo para mim. Mais que uma pessoa, um conjunto único de valores que toda a sociedade deve compartilhar. Cardeal Coragem. Cardeal da Paz.”