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Clima político dá o tom da cerimônia de premiação da 40ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos

Clima político dá o tom da cerimônia de premiação da 40ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos

Cerimônia homenageou jornalistas que nos deixaram ao longo do último ano e ainda concedeu o Prêmio Especial Vladimir Herzog 2018 a Bernardo Kucinski, que fez um emocionante discurso durante a cerimônia.

Por Edione Abreu, Evandro Almeida Jr e Liliane Souza
Cobertura especial do projeto Repórter do Futuro, da Oboré Projetos Especiais

A premiação da 40ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, realizada na noite desta quinta-feira (25) no Tucarena, em São Paulo, foi marcada por críticas ao atual cenário do país. O engenheiro Ivo Herzog, filho do jornalista, afirmou que não se trata de votar em um candidato ou outro. Para ele, essa é uma eleição de valores. “A democracia está ameaçada. É obrigação de cada um fazer o que pode para lutar contra”.

Gritos de “ele não”, “vamos virar”, “vamos resistir”, “Lula livre” e “Haddad” deram o tom da cerimônia. O jornalista Juca Kfouri, responsável pela mediação, destacou que o prêmio é sinônimo de resistência. E ponderou que, apesar da atuação em memória a Vladimir Herzog — há quatro décadas —, o desrespeito aos direitos humanos continua acontecendo com frequência, e ainda não é possível enxergar uma “luz no fim do túnel”.

Kfouri se emocionou ao falar sobre o trabalho de Audálio Dantas e pediu um minuto de silencio em memória do jornalista – e também prestou homenagem à jornalista Patricia Campos Mello, da Folha de São Paulo, que publicou uma reportagem sobre. “Temos que nos concentrar nela a nossa solidariedade e a todos os jornalistas que estão sendo ameaçados por falar a verdade.”

“Em pleno ano eleitoral, simbólico em qualquer regime democrático, a liberdade de expressão está sob ataque”, afirmou Juana Kweitel, diretora-executiva da Conectas Direitos Humanos, que representou a comissão organizadora no discurso oficial da cerimônia.

Juana manifestou repúdio aos discursos de ódio e de violência, e destacou que as recentes ameaças a jornalistas afetam a liberdade de expressão dos profissionais. “Sem um jornalismo livre e independente, não há democracia.”
O fotojornalista Sérgio Silva, atingido no olho por uma bala de borracha durante os protestos de junho de 2013, foi homenageado durante a cerimônia. Em um tom crítico, afirmou que o prêmio precisa extrapolar as esferas do jornalismo e abranger toda a população.

Em sua opinião, os jornalistas precisam propor uma reflexão sobre o que se pode fazer para ir além e atingir toda a população. “O autoritarismo está crescendo cada vez mais, por isso, precisamos de vozes multiplicadoras para bater de frente contra vozes sombrias.”

Para o presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Paulo Zocchi, o evento funciona como um elemento para denunciar regimes que vão contra os princípios democráticos. E que ganha ainda mais evidência este ano. “Espero que esse evento reflita o resultado das urnas”.

Especial
O Prêmio Vladimir Herzog Especial 2018 foi dedicado ao jornalista, escritor e cientista político Bernardo Kucinski. Ele é autor da obra “K”, que relata a história de sua irmã, Ana Rosa Kucinski. Professora do Instituto de Química da USP, a ativista foi demitida por “abandonar o cargo” após ser sequestrada pelo aparato de repressão do Estado, em 1974.

Para Kucinski, que durante a cerimônia foi parabenizado pelo aniversário de 81 anos, é espantoso vivenciar um momento em que um candidato que elogia um torturador recebe uma quantidade expressiva de votos. “Os próximos anos serão ruins, pois os pilares da liberdade já foram derrubados. Mesmo que o Haddad ganhe a eleição, a semente do ódio já está plantada”

Estudantes de jornalismo
Essa é a segunda vez que a estudante Yasmin Marchiori, de 22 anos, participa do evento. Aluna de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, ela contou que fica perplexa ao ver que há pessoas apoiando o candidato Jair Bolsonaro, mesmo sabendo dos abusos da Ditadura.

Débora Santos, de 20 anos, estudante da Universidade Paulista (Unip), disse que teme que os jornalistas omitam a verdade por medo da violência contra profissionais da imprensa. “O Herzog é um símbolo da luta contra a censura que temos que ter em mente”. Lucas Castro, de 24 anos, da Universidade Anhembi Morumbi, destacou que falar sobre direitos humanos é fundamental. “O Herzog nos dá força para lutar contra qualquer tipo de censura.”

Repressão
Durante a cerimônia, alunos do Centro Acadêmico Lupe Cotrim, da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, se pronunciaram em repúdio à presença da Polícia Militar na edição desta quinta-feira (25), do evento Quinta Breja, para cancelar a festa, o que impediu os estudantes de realizar o evento que acontece semanalmente na “Prainha” – espaço de convívio entre os alunos que abriga a vivência Vladimir Herzog. “A festa é importante para financiar nosso centro acadêmico. Reafirmamos nosso repúdio e garantimos que resistiremos a toda repressão contra movimentos estudantis”, disse Vinicius Lucena, de 19 anos, membro do Centro Acadêmico da ECA.

Encerramento
A 40ª edição do Prêmio Vladimir Herzog foi encerrada ao som de Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós! Kfouri encerrou a fala com um apelo à democracia. “Estamos diante da certeza de que a democracia pode ser golpeada, até mesmo mais do que durante 1964, dependendo do resultado da eleição. Na Ditadura os golpistas tinham algum pudor. Agora, anunciam a plenos pulmões o que farão”.